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‘O Brasil se tornou protagonista’, diz pesquisadora da vacina de Oxford

Em entrevista a VEJA, Sue Ann Clemens, coordenadora do estudo no país, diz que não é irreal esperar 'um ou dois' imunizantes ainda para 2020

Por Giulia Vidale - Atualizado em 29 jul 2020, 18h22 - Publicado em 29 jul 2020, 13h27

Atualmente, três estudos clínicos que buscam atestar a eficácia de uma vacina contra o coronavírus foram aprovados pela Anvisa para serem realizados no Brasil. O pioneiro é o da vacina desenvolvida pela Universidade Oxford em parceria com a farmacêutica britânica Astrazeneca. O imunizante é considerado um dos candidatos mais promissores até o momento, em fase avançada de testes clínicos. A expectativa é ter a vacina pronta em setembro.

O estudo clínico no Brasil teve início em São Paulo no dia 20 de junho e hoje é conduzido em outras duas cidades: Rio de Janeiro e Salvador. A grande responsável pela inclusão do país nesse circuito internacional é a médica e pesquisadora brasileira  Sue Ann Costa Clemens, especialista em doenças infecciosas.

Chefe do Instituto de Saúde Global da Universidade de Siena, Sue também é consultora sênior da Fundação Bill & Melinda Gates para o desenvolvimento de vacinas e graças à sua vasta experiência nessa frente, foi procurada pelo coordenador global da pesquisa de Oxford, Andrew Pollard, para conduzir os estudos no Brasil. Em entrevista à VEJA, a pesquisadora, que coordena as três frentes do estudo no Brasil, conta como foram os bastidores desse convite, os critérios de escolha dos centros e de definição do protocolo de pesquisa, a importância desse protagonismo para o Brasil e a possibilidade de o país receber outros testes.

A senhora teve papel fundamental na inclusão do Brasil nos estudos clínicos da vacina desenvolvida pela Universidade Oxford. Como foram os bastidores dessa iniciativa? O Instituto de Siena tem parceria com a Universidade de Oxford e eu e o Andrew Pollard, chefe global do estudo, já nos conhecíamos. Ele entrou em contato comigo na primeira semana de maio demonstrando interesse na entrada no Brasil na pesquisa. Pela minha experiência na realização de estudos clínicos grandes e com recrutamento rápido, que é o que esse estudo exige, ele me pediu para encontrar centros capacitados no país para recrutar 5.000 voluntários.

Por que o Brasil? Além de ele conhecer a minha experiência nesse tipo de estudo e confiar na qualidade do trabalho que seria feito, no início de maio, a curva de contaminação do coronavírus no Brasil estava ascendente. Isso foi um dos fatores primordiais para o contato inicial, porque uma grande circulação do vírus no país de testes é fundamental quando se pesquisa uma vacina. Mas vale lembrar que o Brasil não era o único nessa situação da epidemia e que o Andrew também contatou pesquisadores de outros países. Então outro fator decisivo para a inclusão de fato do país no estudo foi a rapidez do nosso retorno sobre a realização de um estudo desse porte. Apenas dois dias depois que ele me contatou eu já respondi que era possível realizar o estudo no Brasil. No total, foram 44 dias entre o primeiro contato do Andrew e o começo do estudo, incluindo a aprovação dos órgãos reguladores e a adaptação do protocolo. Foi uma parceria muito grande para as coisas darem certo, com participação excepcional da Anvisa, da Conep e do Ministério da Saúde. Eu estou no comitê científico de outras duas vacinas e não vi essa agilidade em lugar nenhum.

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A parte mais cara do desenvolvimento de uma vacina são os estudos clínicos. Qual é o investimento necessário para um estudo desse porte? Realmente, os estudos clínicos são muito caros. Esse tipo de pesquisa exige muito rigor, infraestrutura, profissionais capacitados e um grande número de voluntários. E também envolve riscos, porque você está testando uma substância nova, que não sabemos como vai se comportar. O custo inicial estimado desse estudo era de cerca de 30 milhões de reais, mas esse orçamento já precisou ser revisto algumas vezes. Só pudemos realizar o estudo porque tivemos o apoio imediato da Fundação Lemann e do Idor. As duas instituições aceitaram o meu pedido de financiamento em apenas uma semana, apesar do valor alto e de todas as incertezas envolvidas. Eu acho que a principal motivação para investir nesse tipo de projeto é querer participar da resolução de um problema global. Certamente essas empresas fazem isso por um bem maior. Por acreditarem que vai salvar milhões de vida. Essa é uma doença que veio para ficar e, portanto, será uma vacina que veio para ficar.

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Qual é a importância da inclusão do Brasil nestes testes? O Brasil se tornou  protagonista. Esse estudo trouxe uma capacitação de profissionais em diferentes áreas, além de mostrar que o Brasil já tinha uma preparação para poder abarcar dois estudos de fase 3 [logo após a aprovação do estudo de Oxford, a Anvisa aprovou a realização do estudo com a vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac Biotech] e de produzir essas duas vacinas, que são as mais adiantadas [o Ministério da Saúde fechou um acordo com a Astrazeneca para produção do imunizante e o Instituto Butantan, em parceria com o governo do estado de São Paulo, irá produzir a vacina chinesa]. Esses acordos mostram que a gente tem agilidade não só na produção, mas também na negociação. Mostra para o mundo que as nossas agências regulatórias têm agilidade e qualidade para fazer uma revisão de alto nível em um curto espaço de tempo e para a equipe envolvida na condução desses estudo, significa a capacitação tanto na realização de testes clínicos de grande porte quanto no desenvolvimento de vacinas.

Como foi a escolha dos centros de pesquisa? Um centro precisa cumprir alguns critérios, como ter capacidade de recrutar no mínimo 800 a 1.000 voluntários por mês, ter uma infraestrutura que possa ser adaptada para um grande volume de voluntários, ter laboratórios capacitados para a realização constante de muitos testes e pesquisadores qualificados. Eu já tinha um vínculo com a Unifesp, conhecia a experiência da universidade na realização de estudos clínicos com vacinas e a capacidade dos profissionais. Eu e a Dra Lily [Lily Yin Weckx é a investigadora principal do estudo na Unifesp e coordenadora do Crie-Unifesp] trabalhamos juntas em diversos projetos. Além disso, a universidade deu todo o apoio necessário para transformamos um galpão que não estava sendo utilizado em um centro de qualidade. Apesar do estudo ser realizado no Crie [Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais da Universidade Federal de São Paulo], nós não podemos misturar o público tradicional do centro com os voluntários do estudo. Então precisava de uma ala exclusiva para isso. Em relação ao Idor, eu fui buscar financiamento e eles não só se dispuseram a financiar, mas a servir de centro. O Idor também tem uma grande experiência em pesquisa clínica e ofereceu as excelentes instalações que eles tem no Rio de Janeiro e em Salvador.

Inicialmente, foram anunciados 2.000 voluntários. Hoje são 5.000. Por que o número mudou? Desde o início a Anvisa aprovou um estudo com 5.000 voluntários, mas nós só tínhamos vacina e financiamento para 2.000. Com o tempo, conseguimos expandir. Como a Unifesp foi o centro que começou mais rápido e fez um excelente trabalho no recrutamento – eles estão recrutando e vacinando 140 voluntários por dia – nós resolvemos dobrar o número de voluntários em São Paulo. Os outros 3.000 serão divididos entre Rio de Janeiro e Salvador. A ideia é que sejam 1.500 no Rio e 1.500 na Bahia, mas isso pode mudar de acordo com a velocidade de recrutamento dos centros.

Como os voluntários são escolhidos? Os principais critérios são: adultos de 18 a 55 anos, soronegativos [que não tenham anticorpos para coronavírus, portanto, que ainda não tenham sido infectados] e que tenham uma alta exposição ao vírus.

Precisa ser profissional de saúde? Não. A palavra chave é a alta exposição ao vírus. Obviamente, profissionais de saúde que trabalham ativamente no hospital são os mais expostos. Mas também tem pessoas de outras profissões que atendem esse critério. Por exemplo, nós temos um advogado que faz projeto social com pessoas que vivem nas ruas, motorista de ônibus e policiais que trabalham em presídio. Todas essas pessoas têm uma exposição altíssima. Por outro lado, já rejeitamos profissional de saúde que atende apenas por tele consulta.

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Existem outros critérios de inclusão? Sim. Como é uma vacina candidata, o protocolo começa com adultos saudáveis, então a gente não inclui pessoas com a saúde debilitada. Nesse momento nós não aceitamos voluntário imunodeprimido nem com determinadas condições de saúde pré-existentes. Mulheres não podem estar grávidas nem pretender engravidar durante todo o período do estudo porque não conhecemos a segurança da vacina para o feto. Esses critérios específicos são esmiuçados pelo médico, na primeira entrevista. Nesse dia, a gente conversa com o voluntário e pergunta se ele terá disponibilidade para participar desse estudo por um ano.

Por que o estudo tem um ano de duração? Para nos é importantíssimo colher o sangue desse voluntário durante esse um ano para responder a perguntas que todos querem saber, como: a vacina protege?, por quanto tempo essa proteção se mantem?, entre outras. O período de um ano de acompanhamento foi definido porque uma vacina similar desenvolvida por Oxford contra Mers, doença causada por outro coronavírus, mostra dados de até um ano de proteção.

Esse perfil de voluntario é exclusivo do Brasil? O perfil de alta exposição não muda porque para comprovar rapidamente a eficácia da vacina nós precisamos que os voluntários estejam altamente expostos a um risco real de infecção. Agora, os protocolos de estudo são diferentes de país para país. Por exemplo, na África do Sul a gente já está estudando como essa vacina se comporta em pessoas com HIV positivo. No Reino Unido, eles estão estudando pessoas de 18 a 55 anos, mas também de 56 a 69 anos, acima de 70 anos e crianças. Eles também estão estudando duas doses. Nosso protocolo é com apenas uma dose. Essa variação é importante porque nós ainda não conhecemos o produto e sabemos que idosos e crianças respondem de formas diferente. Assim como pessoas imunodeprimidas. Por isso precisamos estudar como a vacina se comporta em cada um desses grupos.

O perfil do voluntário no Brasil pode mudar? O grupo que coube ao Brasil até agora foi esse. Mas a gente já sabe que conforme o estudo progride, outros grupos vão entrar. Pode ser que entre aqui, pode ser que entre na África, pode ser que entre na Ásia. Dependendo do momento que esse grupo for entrar, o país que puder mais rapidamente recrutar esse sub grupo, vai inclui-lo no protocolo.

Muitos dizem que é irreal esperarmos a vacina para este ano. Qual é a sua opinião? Eu acho que tem muita chance de uma vacina, talvez até duas, saírem esse ano. Os resultados iniciais da nossa vacina são promissores e mostram que 90% da população vacinada apresentou uma resposta imune. Agora precisamos descobrir se essa resposta imune é capaz de protegê-los contra a doença. Com as curvas de contágio em ascensão, a chance da gente provar isso rápido é maior. Eu estou muito otimista que essa vacina vai entrar para registro até o final desse ano ou em meados do ano que vem.

Quando podemos esperar os primeiros resultados? Isso é algo que independe de nós. O que depende, estamos fazendo. Quando o Andrew me convidou para liderar o projeto eu fiquei honrada e depois assustada porque esse trabalho é muito exigente. Não temos sábado nem domingo. É um trabalho muito desgastante. Precisamos seguir de perto 5.000 voluntários. Nós fazemos milhões de consultas com os voluntários para poder comprovar a eficácia. Se a pessoa tossiu, espirrou, teve dor de garganta ou qualquer sintoma de Covid-19, ela precisa vir ao centro para fazer o exame de RT-PCR e ver se está infectada ou não. A partir do momento que tivermos uma determinada porcentagem de casos da doença, vamos  analisar se a maior parte de infectados está no grupo da vacina comparadora [nesse estudo, as pessoas do grupo controle recebem uma vacina de meningite] ou da vacina candidata [que busca proteger contra a Covid-19]. Se a maior parte estiver no grupo da vacina comparadora, a gente prova que a nossa vacina protegeu. Então o tempo que vai levar para alcançarmos a taxa mínima de pessoas infectadas vai depender da curva epidemiológica. Pela alta curva do Brasil e da África, e dos resultados dos primeiros vacinados do Reino Unido, quando a taxa de contágio ainda estava muito alta, eu acredito que até novembro teremos os resultados.

Qual é o mínimo de eficácia que vocês procuram? Esperamos que essa vacina tenha no mínimo 70% de eficácia. Mas se for menos, eu acredito que é melhor uma vacina que proteja 60% das pessoas enquanto não chega uma próxima, do que nada. Em condições normais a OMS exige que uma vacina tenha pelo menos 80% de eficácia para ser aprovada. Para a vacina contra a Covid-19, tanto os Estados Unidos quanto a OMS consideram a possibilidade de registrar uma vacina que tenha uma eficácia mínima de 50%. Estamos em uma situação fora do comum. Por exemplo, uma vacina que protegesse 60% das pessoas teria evitado o caos no sistema de saúde e inúmeras mortes.

Por que vocês optaram por usar uma vacina de meningite no grupo controle em vez de um placebo? Os voluntários são selecionados aleatoriamente para receber a vacina contra coronavírus ou a vacina comparadora. Independente do grupo que eles estiverem, eles estão doando um ano da sua vida para isso, então consideramos justo que todos tenham algum benefício. Escolhemos a vacina quádrupla de meningite porque ela oferece um benefício a essas pessoas. É uma vacina segura, cara e que não é livremente oferecida nos países em que o estudo está sendo realizado, portanto, é um benefício dar acesso a essa proteção. Além disso, a vacina comparadora precisa cumprir alguns critérios, como ter o mesmo regime de doses e efeitos adversos similares aos da vacina candidata, para que os voluntários não saibam qual imunizante receberam. A vacina quádrupla contra meningite atende todos esses critérios. Vale dizer que no final do estudo, caso a vacina contra coronavírus se mostre eficaz, todo mundo que tomou a vacina controle vai poder receber gratuitamente a vacina candidata.

Quais são os efeitos colaterais da vacina? Até agora não observamos reações graves. Os efeitos adversos apresentados foram os mesmos de qualquer outra vacina, que é uma reação local caracterizada por calor no local da injeção e uma reação sistêmica, com febre e mal estar. Mas isso em menos de 10% dos vacinados.

Como funciona a vacina? A vacina de Oxford usa um adenovírus como vetor viral. A função desse vírus é servir de carreador. Ele simplesmente carrega um pedaço da proteína que fica na coroa do coronavírus, a proteína S. Quando isso é injetado no ser humano, o organismo desencadeia uma resposta imune. Ou seja, o corpo começa a desenvolver células de defesa. E é isso o que conseguimos provar até o momento, que a vacina suscitou resposta imune. Agora estamos observando quais são as células de defesa produzidas, quanto tempo elas duram e se elas são suficientes para proteger contra a doença. Oxford só conseguiu produzir essa vacina tão rápido porque eles já tinham uma vacina pronta nessa plataforma para outro coronavírus, o causador da Mers. A vacina de Mers já tinha sido testada em mais de 6.000 pessoas e isso acelerou não só o desenvolvimento, mas a aprovação dos estudos, porque já tinham estudos anteriores toxicológicos e pré-clínicos. Essa vacina de Mers foi desenvolvida dentro de uma iniciativa chamada CEPI, que centraliza, viabiliza e financia estudos e desenvolvimento de vacinas para doenças que estão na lista da OMS como doenças possíveis de causar epidemias. A instituição foi criada há alguns anos para promover foco no desenvolvimento de vacinas e conta com o financiamento de vários países e instituições supranacionais, como a Fundação Bill & Melinda Gates.

Quais são as vantagens e desvantagens dessa tecnologia? Na última década, tivemos um avanço tecnológico muito grande no tocante a vacinas. Um deles é a plataforma de vetor viral, usada por Oxford [Universidade Oxford] no desenvolvimento dessa vacina. A vantagem dessa plataforma é a agilidade de você formular uma vacina. A vacina de Oxford saiu na frente porque foi uma das primeiras a conseguir ser formulada e testada. Quanto à desvantagem, eu não diria que é uma desvantagem, mas o fato é que ainda não temos nenhuma vacina registrada nessa plataforma de adenovírus, o que significa que estamos aprendendo com ela. O mesmo acontece com outras vacinas, como a da alemã Curevac, que eu participo do comitê científico, e da Moderna, que usam mRNA. Essa também é uma plataforma nova, sem vacinas aprovadas.

Existe a possibilidade de outros estudos virem para o Brasil? Eu tenho todo interesse em trazer outros estudos porque eu acho que o Brasil só tem a ganhar ao testar diferentes vacinas e aprender com diferentes plataformas. Como eu disse, isso mostra não só que estamos aptos a receber estes testes e que temos qualidade para conduzi-los, mas também capacita nossos profissionais. Estamos aprendendo diferentes tecnologias. São tecnologias novas que estão chegando e eu acho que é importante participarmos deste desenvolvimento. Eu faço parte do comitê científico de outras duas vacinas que eu pretendo trazer os estudos para o Brasil. Não só para o Brasil, mas para a América Latina. Por isso, estou preparando centros na América Latina como parte de um projeto da Fundação Bill & Melinda Gates. É uma força tarefa que vai investir na preparação de 15 centros na região, incluindo outros centros no Brasil, para receber estudos que vão chegar à fase 3 entre outubro e fevereiro de 2021.

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