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O Brasil emagrece na clandestinidade: consumo de canetas dispara, mas mais de 50% delas são irregulares

Pesquisa registra aumento de 244% no uso das medicações, só que mercado informal vende mais que as farmácias

Por Carlos Eduardo Barra Couri Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 ago 2026, 08h43 | Atualizado em 26 ago 2026, 10h29
O Brasil emagrece na clandestinidade: consumo de canetas dispara, mas mais de 50% delas são irregulares Priorizar nos meus resultados Google

O Brasil vive hoje um cenário curioso e preocupante: o remédio mais comentado e procurado do país é, em mais da metade das vezes, comprado fora do circuito oficial de farmácias.

Um levantamento da Scanntech mostra que o consumo de medicamentos à base de GLP-1 (a classe que inclui semaglutida e tirzepatida) cresceu 244% no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, somando mercado formal e a estimativa de consumo informal. O ritmo variou ao longo do ano: alta de 281% no primeiro trimestre e de 217% no segundo, sempre na comparação anual.

E o canal oficial não ficou parado: as vendas em farmácias avançaram 67% no semestre, com um salto adicional de 20% do primeiro para o segundo trimestre.

O problema é que o informal cresceu mais rápido. No primeiro semestre de 2026, 53,8% das doses de GLP-1 em circulação no país tiveram origem fora dos canais formais de comercialização, contra 46,2% vendidas em farmácias regularizadas. Pela primeira vez, o que era exceção virou maioria.

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Como se mede o que não aparece

Não existe um jeito direto de contar o que circula por fora do sistema — e é aí que mora a parte mais delicada do estudo. A Scanntech não observa diretamente o mercado informal; ela infere sua existência observando um efeito colateral: as vendas de seringas de insulina em farmácias, que cresceram muito além do que a evolução natural do tratamento de diabetes explicaria.

Esse excedente virou um meio de estimar o volume de aplicações informais de GLP-1, feitas com produtos manipulados, importados sem registro ou adquiridos por canais não regulados.

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É um método indireto, e vale reforçar isso: a metodologia estima um comportamento de mercado a partir de uma correlação, não mede o consumo informal dose a dose. A tendência identificada em junho, quando a fatia informal já superava 50%, se confirmou e se aprofundou na atualização mais recente — mas o número exato de 53,8% deve ser lido como uma estimativa, não como um censo.

A queda da patente e o novo apetite por preço

Parte da aceleração do segundo trimestre tem uma explicação mais tangível: a perda da patente da semaglutida, ocorrida em março de 2026, abriu caminho para novos medicamentos comercializados a valor abaixo do praticado pelas marcas de referência até então. A entrada de opções mais baratas parece mexer com o comportamento do consumidor por dois caminhos ao mesmo tempo: reduz a distância de preço entre o remédio formal e o informal, o que pode empurrar parte da demanda de volta para as farmácias, e ao mesmo tempo amplia a base total de interessados no tratamento.

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Uma pesquisa qualitativa da própria Scanntech, feita com mais de 2 mil consumidores adultos antes da queda de preços, já sinalizava esse movimento: 37% dos que nunca haviam usado canetas emagrecedoras disseram que ficariam mais propensos a iniciar ou retomar o tratamento diante de opções mais acessíveis no mercado.

O prato muda, o carrinho também

O efeito do GLP-1 não fica restrito à farmácia — ele atravessa o carrinho de compras. O levantamento mostra redução em categorias associadas à indulgência, como bebidas e itens de mercearia, enquanto o consumo se desloca para produtos ligados à saúde e ao bem-estar: alimentos frescos sobem 11,5%, academia e bem-estar avançam 9,6%, suplementos proteicos crescem 9,1%, água com e sem gás ganha 7,9%, e vitaminas e suplementos avançam 7,4%. É um retrato de como um único hábito farmacológico consegue reorganizar hábitos de consumo em cadeia.

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O preço da informalidade

A fatia que escapa das farmácias não é apenas uma estatística de mercado: é também um problema de saúde pública. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem intensificado alertas contra sites e perfis falsos que usam o nome da agência para vender canetas emagrecedoras, além de reforçar que o único caminho seguro é a compra em farmácias regularizadas, com embalagem original e nota fiscal.

Somente entre 2018 e março de 2026, foram registradas quase três mil notificações de eventos adversos ligados a essa classe de medicamentos, boa parte associada a uso fora das indicações aprovadas e sem acompanhamento médico.

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As apreensões de produtos irregulares também dispararam: de poucas centenas de unidades em 2024 para dezenas de milhares em 2025, ritmo que segue acelerado neste ano. Entre os riscos mapeados pela agência estão problemas de esterilização, insumos sem origem comprovada, dosagem incerta e, em casos extremos, produtos falsificados que continham substância diferente da anunciada no rótulo. A promessa de emagrecer mais barato, fora do sistema regulado, carrega um risco que nenhuma estatística de crescimento consegue capturar sozinha.

Como médico, deixo aqui uma pergunta para reflexão dos leitores e pacientes: você aceitaria aplicar um tratamento de câncer que fosse de origem duvidosa?

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