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Novos tratamentos prometem silenciar de vez a apneia do sono, que está por trás de roncos

Ela já afeta quase um terço da população e pode derrubar a qualidade de vida

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 | Atualizado em 20 mar 2026, 11h07
Novos tratamentos prometem silenciar de vez a apneia do sono, que está por trás de roncos Priorize VEJA no Google

Os ruídos emitidos pela garganta, entrecortados por engasgos e cortes temporários na respiração, não estorvam apenas o descanso da parceira ou do parceiro de colchão. Na calada da noite, representam uma sonora ameaça ao organismo. Mas os roncos, na verdade, são apenas a ponta do iceberg da apneia obstrutiva do sono, distúrbio marcado por interrupções no fluxo de oxigênio durante o repouso que atinge algo em torno de 1 bilhão de pessoas pelo mundo. Por trás disso existe um corpo submetido a um alto estresse fisiológico, que poderá punir, com os anos, o coração, o cérebro e a qualidade e expectativa de vida. Tamanho sufoco já é reconhecido de longa data pela medicina. Mencionada na Antiguidade, a apneia chegou a ser remediada com um buraco na traqueia para liberar a passagem de ar — sim, uma traqueostomia. Felizmente, o tratamento avançou, oferecendo máquinas de grande porte para restabelecer o fluxo de oxigênio. Nos últimos anos, a tecnologia deu um salto de minimalismo, lançando novos dispositivos high-tech e possibilitando controlar o problema com um medicamento.

MINIMALISMO - Aparelhos de CPAP: o tratamento padrão ouro, hoje em versões de mais fácil adaptação
MINIMALISMO - Aparelhos de CPAP: o tratamento padrão ouro, hoje em versões de mais fácil adaptação (./Divulgação)

No meio dessa virada histórica, apenas uma coisa não mudou: o ronco continua sendo o sinal mais ruidoso da condição — presente em até 94% dos casos. Mas ele, sozinho, não fecha o diagnóstico. Com frequência, é apenas o som do ar tentando passar por uma via aérea mais estreita. A diferença é que, na apneia, o problema não é só o barulho, mas também o silêncio. Em determinados momentos, a via aérea colapsa por completo, o ar deixa de passar e a respiração simplesmente para por alguns segundos. O organismo, então, reage com um microdespertar para retomar o fluxo de ar — um processo que pode se repetir dezenas, centenas de vezes ao longo da noite sem o sujeito perceber. É esse ciclo que define a apneia do sono. “E ele ativa uma cascata de consequências, que vão desde o cansaço diurno até a maior propensão a doenças como hipertensão, arritmia cardíaca, diabetes e AVC”, diz a pneumologista Erika Treptow, pesquisadora do Instituto do Sono, em São Paulo.

Para vencer o bloqueio imposto pela apneia, mais comum com o ganho de peso e o envelhecimento, na década de 1980 um médico australiano desenvolveu um aparelho que mudaria o tratamento. Conhecido pela sigla CPAP, ele mantém, por meio de uma máscara acoplada ao rosto, um fluxo de ar contínuo nas vias aéreas durante a noite. No início, era uma máquina com cara de hospital. Hoje, nas versões menores e ultratecnológicas, está bem mais discreto. É o tratamento padrão ouro da apneia. Estudos mostram que reduz a sonolência diurna, os perigos para o coração e até a mortalidade precoce. “O problema, muitas vezes, é a adesão”, afirma o otorrinolaringologista Edilson Zancanella, presidente da Academia Brasileira do Sono. Uma pesquisa recente indica que apenas 45% dos pacientes usam o equipamento diariamente. “Mas é um tratamento de uso contínuo”, reforça o especialista. Se, por um lado, a novíssima geração de CPAPs facilitou a rotina conectada ao aparelho, por outro, o preço pode ser uma barreira.

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arte ronco

O grande obstáculo para controlar a apneia, no entanto, começa antes: é a falta do diagnóstico, que normalmente exige um exame de polissonografia, em que a pessoa passa uma noite monitorada numa clínica, embora existam hoje tecnologias para realizar os testes em casa. O diagnóstico é crítico para definir o melhor caminho terapêutico. “Antes todo mundo era tratado com uma única solução. Hoje a ideia é personalizar e combinar abordagens”, diz Zancanella. No arsenal dos médicos, há desde a prescrição das regras de higiene do sono até mudanças no estilo de vida, como perda de peso, por exemplo. Em alguns casos, exercícios fisioterápicos são indicados; em outros, aparelhos bucais. Fora do país, uma nova tecnologia que emite estímulos elétricos para ativar o tônus da língua está em estudo. E há o bom e velho CPAP, agora em opções que facilitam a adaptação e diminuem, portanto, a rejeição.

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Na esteira desse progresso, desponta o primeiro medicamento com indicação em bula para a apneia do sono. É ninguém mais, ninguém menos que o Mounjaro, a caneta de tirzepatida usada contra o diabetes e a obesidade. Aprovada pela Anvisa para o distúrbio do sono, a injeção semanal desenvolvida pelo laboratório Eli Lilly propicia, além de uma perda de peso na casa dos 20%, uma redução expressiva nas interrupções respiratórias motivadas pelo problema. Não se trata de bala, ou melhor, caneta mágica. Outros cuidados no dia a dia são recomendados para manter as noites em paz.

ATÉ A CANETA - Mounjaro: primeiro remédio aprovado para o distúrbio
ATÉ A CANETA - Mounjaro: primeiro remédio aprovado para o distúrbio (Coldsnowstorm/Getty Images)
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No fim das contas, a principal mudança em relação à apneia do sono não é a modernização do tratamento, apesar de ela ser inegável. É a conscientização de que essa é uma doença séria, que atrapalha muito mais do que o repouso do companheiro. Piadas à parte, ela pode roubar a disposição e anos de vida pela frente. Ainda bem que, graças à engenhosidade humana, as medidas para silenciar a sinfonia noturna estão cada vez menos drásticas — e já oferecem o tão sonhado alívio.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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