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No Reino Unido, principal remédio para gonorreia deixa de fazer efeito

Pela primeira vez no país, a bactéria da doença se mostrou resistente ao antibiótico mais usado em seu tratamento

Por Da Redação 10 out 2011, 19h25

No Reino Unido, o antibiótico mais usado na última década para o tratamento de gonorreia não é mais recomendado. Testes laboratoriais demonstraram que a sensibilidade da bactéria Neisseria gonorrhoeae em relação ao medicamento diminuiu, segundo dados publicados pela Health Protection Agency nesta segunda-feira. Em alguns casos, essa queda da suscetibilidade levou ao fracasso do tratamento em pacientes.

Saiba Mais

GONORREIA

A gonorreia é uma doença sexualmente transmissível causada pela bactéria Neisseria gonorrheae, que provoca infecção no revestimento mucoso da uretra, do colo uterino, do reto, da garganta ou da membrana ocular. Apesar de a doença poder se propagar pelo resto do corpo, causando problemas reprodutivos, as lesões costumam ser provocadas no local da infecção.

A publicação divulgou dados analisados em testes em laboratórios. A diminuição da sensibilidade das bactérias em relação ao antibiótico cefixima em 2009 foi de 10,6%, enquanto esse número em 2010 subiu para 17,4%. Até o ano de 2005, entretanto, nenhuma bacteria de gonorreia que fosse resistente à cefixime havia sido identificada na região.

Diante desse quadro, os médicos do Reino Unido agora são recomendados a usar uma combinação de duas drogas: a ceftriaxona, um antibiótico injetável mais forte que a cefixima, e a azitromicina, que é oral.

Até então, a gonorreia tem sido uma infecção de tratamento fácil. Porém, o organismo que causa a infecção tem uma habilidade incomum de se adaptar e ganhar resistência em relação a vários antibióticos, como a penicilina, tetraciclina e ciprofloxacina.

Opinião do especialista

Stefan Cunha Ujvari

Médico infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

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“A bactéria da gonorreia, apesar de ser a mesma ao redor do mundo, apresenta tipos diferentes e variações na resistência dependendo do país. Portanto, a diminuição da sensibilidade da Neisseria gonorrhoeae no Reino Unido não se aplica necessariamente ao Brasil.”

“O tratamento da doença no Brasil ainda é efetivo, mas isso não descarta a possibilidade de a bactéria se tornar resistente aos medicamentos usados aqui, que são dois: um injetável e um via oral.

“Essa situação no Reino Unido é útil para os outros países ao sublinhar a importância de cada região monitorar o desenvolvimento de suas bactérias, uma vez que a gonorreia é uma doença extremamente dinâmica, mas não acredito que chegará um dia que a gonorreia não tenha cura.”

A Organização Mundial da Saúde recomenda que antibióticos usados para esse tipo de doença sejam mudados quando a falha nos tratamentos alcance 5%. Entretanto, a mudança da cefixina está sendo feita de maneira mais preventiva e com base nos testes laboratoriais, que são indicadores que antecipam do desenvolvimento da resistência.

“Nossos testes têm mostrado uma dramática redução na sensibilidade da droga que mais usamos no tratamento da gonorreia, e isso mostra uma real ameaça de uma doença intratável no futuro”, diz o professor Cathy Ison, especialista em gonorreia da HPA.

Para Ison, as diretrizes do tratamento da gonorreia devem ser revistas, embora isso não necessariamente resolva o problema. Para ele, a história já mostrou que conforme os medicamentos se desenvolvem, também se desenvolve a resistência das bactérias. “Na ausência de qualquer terapia alternativa para quando isso acontecer, nós enfrentaremos a situação de que a gonorreia no poderá ser curada. E isso somente nos lembrará da importância do sexo seguro como, quem sabe, o único jeito de controlar essa infecção no futuro”, completa.

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