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Na pandemia, o conforto terapêutico dos animais domésticos

Os tradicionais companheiros do ser humano ganharam ainda mais destaque como apoio psicológico em tempos de isolamento

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 17 abr 2020, 09h41 - Publicado em 17 abr 2020, 06h00

Quando a pandemia de coronavírus passar — e ela há de passar — os livros de história e um lote de trabalhos científicos dedicarão bom espaço aos efeitos psicológicos provocados pelo isolamento social forçado — e, na quarentena, um grupo especial de moradores habituados a permanecer em casa tem chamado atenção: os animais de estimação. Há um duplo olhar, o dos bichos como companhia para seres humanos, os melhores amigos de gente isolada, e os cuidados com os próprios cães e gatos.

O primeiro reflexo pode ser medido pelo interesse, nos últimos dias, por centros de adoção. Não existe estatística oficial, mas um grupo de ONGs dedicadas à fauna acredita ter crescido 50% a procura no Brasil por cachorros, sobretudo, desde o início do confinamento — embora exista um movimento na contramão, o de pessoas que abandonaram os pets, supostamente incapazes de oferecer atenção. O movimento poderia ser ainda maior, não fossem as evidentes (e necessárias) dificuldades de circulação. “Não conseguimos realizar grandes feiras de adoção”, diz Luisa Mell, uma das mais respeitadas ativistas de direitos animais no Brasil, ela mesma recentemente recuperada da Covid-19. Numa outra ponta, como contrapartida, crescem os negócios virtuais. Os proprietários do canil Levy Bull, em Ibiúna (SP), que vende cães de raças enrugadas e “da moda” (pugs e buldogues franceses e ingleses) a preços que vão de 2 500 a 12 000 reais, já perceberam mudanças consistentes. “Nossas vendas pela internet cresceram de 30% a 40% nas últimas semanas”, diz o dono, Charles Levy. Outro canil, o Pomerânias, de Porto Alegre, está entregando os cachorros por via terrestre, sem o uso de aviões, meio de transporte habitual. Grandes redes, como a Petz e a Cobasi, revelam ter venda inédita, embora não apresentem cifras, com reforço na entrega de rações e acessórios por delivery.

Os efeitos positivos da aproximação entre humanos e bichos são conhecidos desde a Antiguidade – uma espécie evoluída de lobo teria sido o primeiro animal domesticado, entre 20 000 e 40 000 anos atrás, na Europa. A relação, no entanto, se desenvolveu exponencialmente nas últimas décadas. “Antes, os cachorros viviam presos em correntes, comiam restos da comida dos donos. Hoje, há humanização, o cachorro é tratado como um filho”, diz Fernando Baiardi, especialista em comportamento animal. De acordo com dados do Instituto Pet Brasil, o país tem 139,3 milhões de bichos caseiros, em sua maioria, cães. São terapêuticos, sem dúvida, como sempre foram, especialmente para pessoas solitárias — condição que agora abraçou o mundo. “Sentia a casa vazia, as meninas tristes, debruçadas no celular”, diz o gerente de vendas paulistano Marco Baúso. “O Thobias trouxe a alegria e a união familiar de volta.” Thobias é um adorável vira-lata adotado na semana passada, o novo ímã das filhas, Giovanna e Natalie, e da mulher, Solange. A publicitária Samila Ximendes e seu namorado, o editor de vídeos Paulo Goulart, recorreram à mesma artimanha para aliviar o desânimo. “Sentimos que era o momento ideal para incluir um cachorro em nossa vida”, diz ela, que batizou a cadelinha de Marrom. “Podemos educá-la com mais tempo e calma.”

Estabelecido, por experiências próprias, o benefício comportamental de cães e gatos para nós, impõe-se outra preocupação: e os bichos durante a pandemia? Não há evidência científica de que possam pegar o vírus (embora uma tigresa do zoológico do Bronx, em Nova York, tenha testado positivo). Os pelos dos animais, porém, podem ser depositários de microrganismos, como um corrimão ou uma maçaneta. Sabe-se que precisam de exercício. “Passear em matilha faz parte de sua programação genética, é um de seus instintos mais primitivos, e isso é algo que nem sempre é levado em conta”, diz Fernando Baiardi. “O cachorro precisa realizar atividades físicas e, se isso não acontece, essa energia pode ser transformada em ansiedade e incômodo e traduzida em latidos ou destruição de objetos.” É necessário, portanto, “cansar” o animal para manter seu bem-estar, embora a atual condição imponha restrições (veja o quadro na pág. ao lado). Gatos, nesse aspecto, são mais fáceis. Os felinos, por serem mais independentes e territoriais, tendem a ter uma adaptação mais tranquila à quarentena. E, desde já, é preciso olhar para a frente, para quando as portas se abrirem. “O coronavírus vai passar, mas os bichos ficam”, diz Glauce Castilho, idealizadora do projeto Adotados e Amados, de São Paulo. Ou seja, nada de tratá-­los como brinquedos infantis.

Publicado em VEJA de 22 de abril de 2020, edição nº 2683

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