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Mineiros poderão ter depressão e pesadelos durante a readaptação

Processo para a construção da nova vida deve ocorrer de forma gradual, com apoio de familiares e especialistas em saúde mental

Cada um dos 33 mineiros presos há mais de dois meses na mina de San Jose, no Chile, experimentou a sensação de renascimento na operação de resgate. A história heróica de superação não acaba, porém, no momento em que os homens apontam na superfície. Depois de vencerem a prisão forçada, a convivência com os parceiros e as conhecidas condições limites de saúde e alimentação, os mineiros terão que lidar com um novo desafio: o mundo do lado de fora. “Não dá para retirar uma pessoa que sobreviveu a uma situação limite como essa e colocá-la de volta no mundo como se nada tivesse acontecido”, explica José Toufic Thomé, coordenador do programa de intervenções em catástrofes da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Será um retorno gradual a uma nova situação, diferente do que eles viviam antes, do ponto de vista pessoal, familiar, profissional e relacional.”

Marcelo Feijó de Mello, psiquiatra do programa de atendimento e pesquisa em violência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o período de adaptação à nova realidade deve ocorrer nos primeiros 30 dias. “A família pode perceber que o mineiro está em um estado alterado. Nesse período, uma pessoa que passa por uma situação traumática desse tipo pode ter insônia, pesadelos, momentos de tristeza e irritabilidade. Mas são reações normais, que depois passam”, diz.

Especialistas consultados pelo site de VEJA reconhecem que é impossível prever quais serão as consequências para a saúde mental de cada um deles. O psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos explica que pessoas que passam por situações limites podem ser divididas em dois grupos: as que assimilam a experiência que elas passaram e sentem-se fortalecidas e capazes de enfrentar as adversidades da vida; e aquelas que desenvolvem o transtorno do estresse pós-traumático. “É uma condição que pode surgir a partir do segundo mês do trauma e até cinco anos depois. Aparentemente eles podem parecer bem, mas de um dia para o outro podem surgir sintomas como insônia, medos, angústia, quadros depressivos e desânimo”, diz Ferreira-Santos. Quando não tratado, segundo ele, um quadro de estresse pós-traumático pode incapacitar o paciente, que se afasta da família, dos amigos e do trabalho.

Suporte e prevenção – De acordo com Ferreira-Santos, não há como prevenir o transtorno, já que depende dos traços da personalidade de cada um e de como é a repercussão do trauma na vida de uma pessoa. “No momento inicial, alguns podem ter sintomas agudos, que depois passam. O transtorno pode aparecer depois de um tempo”, afirma.

Ele lembra que, na fase inicial, o papel da família, que também foi abalada, é crucial para a adaptação. “É extremamente necessário ter uma rede de apoio na família, nos amigos. Até os próprios mineiros, que serviram como um time para garantir a sobrevivência, podem se reunir depois para se apoiarem”, diz.

Inicialmente, os especialistas consultados pela reportagem não recomendam que ocorra uma intervenção psicológica ou psiquiátrica, que force os mineiros a relatarem como se sentem em relação à tragédia. “Estudos mostram que fazer essa intervenção sobre o trauma, logo na sequência, é prejudicial. Nessas situações de catástrofes, é preciso de um suporte social e físico – não ficar cutucando a ferida”, afirma Mello.

Celebridades do momento, os mineiros terão que lidar com os questionamentos dos familiares, amigos e jornalistas sobre a difícil experiência. O relato espontâneo do sentimento, no entanto, não deve ser reprimido. “Quanto mais você reprimir, pior é. Quanto mais você puder explicar e colocar para fora o sentimento, melhor”, diz Ferreira-Santos.