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Meningite: surtos assustam, mas doença está em queda no Brasil

Em 2010, foram mais de 20.000 casos de meningite; até novembro deste ano, primeiro ano pós-vacinação, foram registrados 15.065 casos

Por Aretha Yarak - 9 dez 2011, 21h33

Em 2011, surtos isolados de meningite, principalmente no Nordeste, deram a entender que a doença estaria ganhando força no país. Na Costa do Sauípe, por exemplo, três funcionários de um complexo hoteleiro morreram, em setembro, devido à variante mais perigosa da enfermidade. Em Sergipe, outras sete mortes. Até celebridades foram vitimadas: a cantora Ivete Sangalo foi acometida pela forma mais branda da meningite, causada por vírus, e teve de ser internada, em dezembro. A impressão de que a doença está se espalhando, porém, não condiz com a realidade. No ano passado, o Ministério da Saúde incluiu duas novas vacinas contra formas bacterianas da doença no calendário básico de vacinação e conseguiu reduzir tanto o número de casos quanto o de mortes. Até novembro deste ano, foram registrados 15.065 casos, frente a 20.498 em 2010 (veja números abaixo).

Esses números devem cair ainda mais nos próximos anos. As vacinas que protegem contra a infecção bacteriana têm ajudado a reduzir o número de casos e mortes no país (veja gráfico). “A adoção da vacina tetravalente (DTP +9 Hib) no final de 1999 significou uma redução de 90% nas internações causadas pela bactéria Haemophilus influenzae“, diz Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Atualmente, no calendário nacional de vacinação, três tipos estão disponíveis: a tetravalente (contra a bactéria Haemophilus Influenzae), a pneumocócica 10 conjugada (meningites bacterianas pneumocócicas) e a meningocócica C conjugada (meningite do tipo C). Todas são dadas gratuitamente, em três doses, para bebês a partir dos dois meses de idade.

Os adultos costumam ser vacinados contra a doença apenas em situações de surto ou epidemias. A melhor maneira de tentar evitar o contágio é lavar sempre as mãos, evitar lugares fechados e o contato com pessoas doentes. No inverno, quando é comum a aglomeração em lugares fechados, os índices da meningite bacteriana geralmente aumentam.

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Infecção de risco – A doença, que se caracteriza pela inflamação das membranas que revestem e protegem o cérebro e a medula espinal, é causada principalmente por bactérias e vírus (veja gráfico abaixo). Em tese, qualquer vírus pode causar a doença. Uma vez dentro do organismo, esse microorganismo multiplica-se e, por razões ainda desconhecidas, pode chegar às meninges, inflamando-as. “O mesmo vírus que causa uma gripe em uma pessoa, pode levar à meningite em outra”, diz Sandra de Oliveira Campos, pediatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mas a inflamação das meninges também pode ocorrer por intoxicação medicamentosa ou como consequência de outra doença. A vacinação é importante justamente porque, apesar das diversas causas, as formas mais severas da doença são produzidas por bactérias. As mais comuns são a Neisseria meningitidis, a Streptococcus pneumoniae e a Haemophilus influenza. A mais frequente é a meningite causada pela N. meningitidis, sendo que o subtipo C desse vírus é o de maior incidência no país e responsável pela maioria dos surtos notificados desde 2006.

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O quadro clínico da doença é grave. Contagiosa, ela pode ser disseminada através de secreções respiratórias e da garganta (saliva). De 9% a 12% das pessoas com meningite bacteriana morrem, mesmo quando o tratamento é feito com o antibiótico apropriado. Dos pacientes que conseguem se recuperar, mais de 20% ficam com alguma sequela, como perda auditiva, cegueira ou dano cerebral. Em alguns casos, a infecção é tão severa que se espalha pelo corpo, causando quadros de septicemia e gangrena. “Há situações, não muito comuns, em que a evolução é tão rápida que o paciente vai a óbito em questão de horas”, diz Maria Claudia Stockler de Almeida, médica do departamento de Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP.

A versão viral da doença que infectou a cantora Ivete Sangalo, no entanto, é considerada benigna. Segundo Sandra, nesses casos tratam-se apenas os sintomas, como a forte dor de cabeça. “Alguns pacientes recebem analgésicos e são hidratados, outros nem precisam de internação”, diz. Na meningite viral os sintomas costumam durar de cinco a sete dias. Na bacteriana, a evolução dos sintomas depende de fatores como a agressividade da bactéria e a resposta do paciente ao tratamento adotado.

Sintomas e tratamento – Acredita-se que a sintomatologia da meningite já era conhecida desde os tempos dos médicos pré-renascentistas. A primeira descrição formal da doença, no entanto, teria sido feita apenas no século 18, pelo médico escocês Sir Robert Whytt. Os principais sintomas da meningite são febre, cefaleia, rigidez do pescoço e vômitos. Podem surgir ainda manchas avermelhadas na pele, devido à inflamação dos vasos, sonolência e fotofobia. Em bebês, é comum certa irritabilidade, recusa em se alimentar, choro muito agudo e, em alguns casos, o abaulamento da moleira.

O tratamento da meningite bacteriana exige a administração de antibióticos, que deve ser feita o mais rápido possível, para evitar lesões cerebrais. Por ser contagiosa, essa doença pode infectar qualquer um que tenha entrado em contato com o doente. Assim, familiares e pessoas próximas ao paciente recebem também o tratamento preventivo, chamado de quimioprofilaxia. “O doente deve ficar em isolamento até 24 horas após o início do tratamento, para garantir que não irá transmitir a doença”, diz Maria Claudia.

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