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Médicos são principal produto de exportação de Cuba

Segundo o jornal espanhol 'El País', os programas de exportação de médicos servem para ajustar as contas da ilha. Envio de profissionais ao Brasil seria parte desse processo

Por Da Redação - 23 ago 2013, 19h44

A formação rápida de um grande número de médicos e seu envio ao exterior por meio de parcerias com outros países se tornou o maior produto de exportação de Cuba. Segundo uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El País em maio, os profissionais de medicina são para a economia da ilha o mesmo que o petróleo é para a Venezuela: a matéria-prima de exportação que financia a maior parte de seu orçamento e sustenta sua política externa. A recente parceria com o Brasil seria uma tentativa de diversificar o seu mercado, que esteve, nos últimos anos, focado na Venezuela.

Segundo o jornal, o envio de médicos a outras nações é uma prática do regime cubano – nos últimos 50 anos o governo local já trocou ajuda médica por empréstimos e acordos comerciais com 107 países de todo o mundo. O que começou como um princípio idealista do governo revolucionário – saúde como direito básico da população – se tornou um objetivo econômico e pragmático. Na última década, foi a parceria com a Venezuela que ajudou a sustentar a economia cubana. Em fevereiro de 2012, havia 44.804 profissionais cubanos da área de saúde no país, entre eles médicos, enfermeiros e terapeutas. Em troca desse serviço, Caracas enviava 105.000 barris de petróleo por dia à ilha.

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O governo Chávez também foi importante por ter ajudado na expansão dessas missões médicas cubanas por outros países da América do Sul, como Bolívia, Argentina, Nicarágua, Equador, Haiti, Guatemala, Peru, Honduras, Paraguai, e Uruguai. O El País calcula que, na época da reportagem, 42.000 médicos cubanos trabalhavam fora do país, com as universidades cubanas sendo capazes de formar 5.000 novos profissionais todos os anos para esse tipo de missão.

O jornal compara a dependência atual de Cuba em relação à Venezuela com a dependência que o país tinha em relação à União Soviética durante a Guerra Fria. A morte de Chávez e uma decorrente crise política e econômica venezuelana poderiam representar para a ilha o mesmo que o colapso do socialismo em 1991: caos econômico. A saída encontrada pelo governo local foi, justamente, diversificar seus clientes. Os 4.000 médicos que serão enviados ao país fariam parte dessa estratégia.

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Deserção – O jornal El País ainda entrevistou o médico cubano Julio César Alfonzo, formado em 1992 na Universidade de Havana e diretor atual da Organização Solidariedade Sem Fronteiras, grupo com sede em Miami que pretende dar apoio econômico e logístico aos cubanos que quiserem desertar durante missões médicas internacionais. “Eles estão formando médicos em tempo recorde para suprir as necessidades de exportação e isso tem sido feito em detrimento da qualidade de formação dos médicos e da medicina de Cuba, que costumava ser de primeira. Isso está ocorrendo desde que começou a parceria com a Venezuela entre 2003 e 2004”, disse o médico.

Segundo Alfonzo, nos últimos anos 5.000 profissionais da saúde cubanos desertaram durante missões internacionais, a maioria fugindo para o sul da Flórida – justamente a região onde fica Miami. A cada semana, sua organização recebe entre sete ou oito telefonemas de médicos que querem fazer o mesmo. “Pelo menos 95% deles nos ligam da Venezuela. Lá eles vivem em condições muito ruins, são enviados aos piores lugares, onde estão todos os delinquentes, sem nenhuma garantia para sua vida”, afirmou Alfonzo ao El País.

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