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Injeção semestral baixa o colesterol sem aumentar o risco de efeitos colaterais como dores musculares

Medicação é uma terapia genética já disponível no país e representa uma estratégia para pessoas que têm intolerância às tradicionais estatinas

Por Carlos Eduardo Barra Couri Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 jul 2026, 07h30 | Atualizado em 3 jul 2026, 08h40
Injeção semestral baixa o colesterol sem aumentar o risco de efeitos colaterais como dores musculares Priorizar nos meus resultados Google

Controlar o colesterol ruim, o famoso LDL, parece simples no papel: medir com exames, tratar com mudanças de estilo de vida e comprimidos, ajustar doses e repetir o processo até chegar à meta. Mas, na vida real, essa conta raramente fecha tão bem. Muitos pacientes de alto risco cardiovascular seguem acima dos níveis recomendados, mesmo usando estatinas e outros remédios. Outros reduzem ou abandonam o tratamento por causa de dores musculares, um dos efeitos adversos mais temidos por aí.

É nesse cenário que desponta um novo estudo concebido para avaliar uma terapia chamada inclisirana que já tem aprovação das agências regulatórias. Trata-se de um medicamento à base de RNA e aplicação subcutânea de uso semestral capaz de reduzir a produção de uma proteína envolvida no controle do LDL circulante.

A pesquisa acaba de ser publicada no European Heart Journal e teve como principal centro acadêmico associado o Deutsches Herzzentrum der Charité, em Berlim, na Alemanha.

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Ela comparou duas abordagens terapêuticas em 1.770 adultos com colesterol elevado e risco cardiovascular alto ou muito alto. De um lado, os participantes receberam inclisirana somada a medicamentos usuais para baixar o colesterol de forma otimizada. Do outro, receberam placebo (injeções sem princípio ativo) mais essa mesma otimização de tratamento, incluindo doses de rosuvastatina e, quando necessário, outras medicações para reduzir os níveis de colesterol, como ácido bempedoico e ezetimiba.

O resultado chama a atenção: em apenas 90 dias, 84,9% dos pacientes do grupo da inclisirana atingiram sua meta individual de taxas de LDL, contra 31% no grupo de tratamento otimizado sem o medicamento inovador. Em outras palavras, a estratégia com inclisirana aumentou de forma expressiva a chance de chegar ao alvo terapêutico em uma população justamente marcada pela dificuldade de controle.

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Por dentro do colesterol e do tratamento

O colesterol LDL não ganhou o apelido de “ruim” à toa. Ele participa diretamente da formação das placas de gordura nas artérias, processo que pode levar a infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares. Por isso, quanto maior o risco do paciente, mais baixa costuma ser a meta recomendada pelas diretrizes. O desafio é transformar essa meta em realidade — e mantê-la ao longo do tempo.

Nesse ponto, o VICTORION-Difference trouxe outro dado relevante. Ao fim de 360 dias, a redução média do LDL foi de 59,5% no grupo inclisirana, em comparação com 24,3% no grupo de terapia otimizada isolada. A queda começou cedo e se manteve ao longo do acompanhamento, sugerindo um efeito sustentado.

A inclisirana funciona de modo diferente das estatinas. Enquanto estas atuam reduzindo a produção de colesterol no fígado, a inclisirana usa uma tecnologia chamada RNA de interferência pequeno, ou siRNA, para “silenciar” uma mensagem genética ligada à produção de uma proteína-chave nessa história, a PCSK9. Com menos PCSK9 circulando, o organismo consegue remover mais LDL do sangue.

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Após as doses iniciais, o esquema prevê aplicações semestrais, o que pode facilitar a adesão em pacientes que têm dificuldade com remédios diários.

Outro ponto forte do estudo foi olhar não apenas para números de exame, mas também para a tolerabilidade do tratamento. Eventos adversos, incluindo as dores musculares relatadas por pacientes que tomam estatinas, foram menos frequentes no grupo da inclisirana: 11,9% contra 19,2% no grupo de terapia otimizada sem o medicamento. Também houve sinais favoráveis em medidas de dor e interferência da dor nas atividades, embora alguns resultados tenham sido modestos.

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Isso importa porque dor muscular não é um detalhe. Ela interfere no trabalho, no sono, na prática de exercícios e na confiança no tratamento. Mesmo quando não há lesão muscular grave, o desconforto pode levar ao abandono ou ao uso irregular das estatinas. E, quando o tratamento perde constância, o risco cardiovascular volta a subir.

Em resumo, os dados desse trabalho reforçam uma mudança de mentalidade na cardiologia preventiva: tratar colesterol elevado em pacientes de alto risco talvez exija menos espera e mais ação precoce. Para quem já teve infarto, AVC, doença arterial periférica ou acumula múltiplos fatores de risco, ficar meses ou anos acima da meta pode significar exposição prolongada a um inimigo silencioso.

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Não se trata de abandonar as estatinas. Elas seguem a base do tratamento medicamentoso, são seguras e têm eficácia demonstrada. Mas, para alguns pacientes, combinar estratégias, inclusive as mais modernas, tende a ser mais eficiente na proteção cardiovascular.

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