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Implante cerebral ajuda paciente com ELA a se comunicar

Implante cerebral devolveu à holandesa Hanneke a capacidade de se comunicar de forma independente após ser diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica

Por Da redação - 15 nov 2016, 14h38

A holandesa Hanneke de Bruijne, 59 anos e mãe de três filhos, foi diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehrig, em 2008. Desde então, sua vida mudou completamente. À medida que os nervos que controlam seus movimentos corporais iam se degenerando, ela foi perdendo a habilidade de mover as pernas, braços, dedos e até mesmo seu rosto, deixando-a ‘presa’ dentro de seu corpo, quase incapaz de se comunicar e respirando com a ajuda de um ventilador mecânico.

Felizmente, em 2015 ela recebeu um implante cerebral que mudaria sua vida, devolvendo-lhe a capacidade de se comunicar onde quer que estivesse. Segundo informações da rede americana CNN, a tecnologia, conhecida como interface cérebro-computador, foi implantada em Hanneke em outubro de 2015 e permitiu que ela tivesse o controle preciso e independente de um programa de digitação que reúne suas mensagens, com base apenas em sua atividade cerebral .

O sucesso do caso da holandesa com o dispositivo foi publicado sábado no periódico científico New England Journal of Medicine, por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda. A equipe desenvolveu a tecnologia para atuar como uma linha eficaz de comunicação entre os pacientes como Hanneke, que estão presos em seu corpo, e o mundo exterior.

“Este é o mundo primeiro do mundo. Nós queríamos dar a esses pacientes de volta a sua dignidade. É um sistema totalmente implantável que funciona em casa sem a necessidade da presença de especialistas para fazê-lo funcionar.”, disse Nick Ramsey, professor de neurociência da Universidade de Utrecht e líder da pesquisa.

A esclerose lateral amiotrófica é uma doença degenerativa sem cura que ficou mundialmente conhecida na campanha de 2014 chamada “desafio do balde de gelo”, que tinha como objetivo angariar fundos para frentes de pesquisa sobre a doença. A ELA danifica as células nervosas do cérebro e da medula, inclusive os nervos motores. Com isso, a capacidade de o cérebro iniciar e controlar movimentos voluntários, inclusive os ligados à fala e deglutição, diminuiu progressivamente. Em estágios avançados, o paciente pode ter paralisia completa.

Segundo o neurologista Acary Oliveira, professor da Unifesp e um dos fundadores da Abrela, pessoas com a doença vivem, em média, três anos e meio a partir dos primeiros sintomas. No entanto, há casos mais raros de pessoas que conquistam uma longevidade maior. É o caso do cientista Stephen Hawking, hoje com 72 anos, mas que recebeu o diagnóstico de ELA aos 21 anos, e de Hanneke, que já vive há 8 anos com a doença. 

Comunicação

Antes do implante, Hanneke se comunicava por meio de ‘piscadas’ identificadas por um dispositivo de rastreamento de olho que sinalizava o que ela estava pensando ou queria dizer. O grande problema é que essa tecnologia é limitada por uma necessidade de iluminação adequada que permita o registro dos movimentos oculares. A paciente não conseguia se comunicar quanto estava ao ar livre, por exemplo, porque o excesso de iluminação atrapalha o funcionamento do dispositivo de rastreamento ocular. Já o novo implante pode funcionar em qualquer lugar.

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“O implante me dá liberdade, independência e segurança. Isso me permite desfrutar meu jardim e ir ao ar livre na natureza.”, escreveu de Hanneke em um e-mail escrito em um tablet ligado ao implante.

Ao compartilhar suas experiências, a paciente fala das coisas que mais sente falta. “Sinto falta de coisas espontâneas, sinto falta de sair com minha família e amigos, sinto falta de falar, comer e beber e todos os aspectos sociais. Sinto falta do meu trabalho, dos meus pacientes e da responsabilidade do meu trabalho, sinto falta de estar sozinha. Sinto falta de caminhar ao ar livre e muitas, muitas outras coisas.”, disse.

Como funciona o implante

A interface cérebro-computador está totalmente dentro do corpo. “É completamente invisível.”, disse Ramsey. Eletrodos são implantados na região do córtex motor do cérebro, que controla o movimento, e são ligados a um transmissor do tamanho de um marca-passo implantado no peito do paciente. Este transmissor se comunica com um receptor conectado a uma tela de computador mostrando letras em uma grade.

Para se comunicar, o paciente observa um quadrado movendo-se sobre as letras na tela. Quando o quadrado passa na letra escolhida, a pessoa deve tentar mover a mão direita como se pressionasse a letra naquele momento. Embora eles não possam realmente se mover, seu córtex motor ainda produz um sinal desse movimento, e isso é suficiente para que os eletrodos se comuniquem com o transmissor e sinalizem a letra. Uma a uma, as letras são escolhidas, e as palavras e frases ganham forma.

Hanneke  é capaz de se comunicar a uma velocidade de duas letras por minuto, que é mais lento do que com o rastreador ocular, mas Ramsey planeja aprimorar o implante para troná-lo mais rápido e sofisticado. “Agora, podemos começar a trabalhar em sistemas que têm 30 ou 60 eletrodos para decodificar linguagem de sinais … ou fala interna. Então você poderia soletrar à maneira que uma pessoa surda soletra.Essa é a meta.”, explicou o pesquisador.

Um longo caminho

A holandesa já usa o dispositivo há cerca de um ano e precisou de seis meses para se adaptar e conseguir usá-lo de forma independente.  No entanto, sua vida melhorou significativamente quando isso aconteceu. Ela pode ir sair, e ela tem sido capaz de viajar. Ela gosta de comandar sua família e está no comando de sua casa.”, disse Ramsey .

Apesar dos ótimos resultados, especialistas ressaltam que esse é um único caso e que mais estudos são necessários para saber será possível utilizar essa tecnologia em larga escala. Eles afirmam também que, embora o implante serja uma boa alternativa, a longevidade da maioria dos pacientes com ELA é pequena, o que impediria muitos pacientes de terem acesso ao dispositivo e lembram a importância de pesquisas para tratamentos eficazes contra a doença.

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