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Governo testa remédio ‘secreto’ contra Covid-19; especialista pede cautela

Ministro Marcos Pontes anuncia que droga teve 94 % de eficácia in vitro. Agora, serão realizados testes em humanos internados por coronavírus

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 15 abr 2020, 20h45 - Publicado em 15 abr 2020, 18h53

O Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações anunciou nesta quarta-feira, 15, a realização de testes de um “remédio promissor”, cujo nome não foi revelado, que pode ser eficaz no combate ao coronavírus. De acordo com o ministro Marcos Pontes, a droga já foi testada in vitro e demonstrou 94% de eficácia em ensaios com células infectadas pela Covid-19. Especialistas ouvidos por VEJA, no entanto, pregaram cautela e alertaram que resultados de testes em humanos costumam ser diferentes daqueles feitos em laboratório.

Marcos Pontes informou que o medicamento será analisado em uma fase de testes clínicos que deve durar um mês, com um grupo de 500 pacientes internados por coronavírus. “Temos uma esperança boa. A grande probabilidade é que esse negócio funcione bem.”

Segundo o ministro, o medicamento desenvolvido por cientistas brasileiros tem formulação pediátrica e preço acessível nas farmácias. “Esse remédio tem muito pouco efeito colateral e, portanto, pode ser empregado em uma grande faixa da população.”

Ele afirmou que não menciona o nome da droga “para evitar uma correria em torno de um medicamento sem ter certeza de que ele irá funcionar.” Especula-se entre infectologistas que possa se tratar da nitazoxanida, um medicamento utilizado contra vermes e parasitas.

Especialistas contestam otimismo do ministro

Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia explica que “funcionar in vitro não significa obrigatoriamente que funcionará em humanos. É bem comum que os resultados sejam diferentes.” O pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, lembra que outros medicamentos vêm sendo testados em laboratório, ainda sem comprovações de sua eficácia em humanos.

“Da mesma maneira que a cloroquina (citada constantemente pelo presidente Jair Bolsonaro), ou a ivermectina (um remédio contra piolho testado na Austrália), esse remédio precisa repetir os bons resultados em humanos. Normalmente, deveriam ser feitos testes em animais antes de partir para humanos, mas como estamos correndo contra o tempo diante de uma pandemia, o processo foi acelerado.”

Ambos criticam o fato de o nome do medicamento não ter sido revelado. Segundo Leonardo Weissmann, isso traz insegurança para o paciente que será testado. “Não sabemos se os danos colaterais podem ser maiores que os danos da doença. A questão da segurança deve ser obrigatoriamente levada em consideração.“, diz. “Tomara que dê certo, nossa torcida é sempre por isso, mas por enquanto estamos opinando no escuro”, completa Elie Fiss.

O Ministério garante que os testes em humanos foram aprovados pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e serão realizados em sete hospitais no Brasil. Os pacientes que serão selecionados precisam obrigatoriamente ter testado positivo para a Covid-19 e ter acima de 18 anos. De acordo com o protocolo adotado no trabalho científico, todos os envolvidos nos testes terão de assinar um termo de consentimento e nem paciente nem médico terão acesso ao nome do medicamento administrado.

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