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Estudo sugere que frutose pode favorecer disseminação do câncer de ovário; especialista esclarece relação

Pesquisa foi realizada apenas em células e camundongos, e não justifica retirar frutas da dieta; entenda

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 ago 2026, 16h00 | Atualizado em 7 ago 2026, 09h41
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Câncer de ovário e frutose, o açúcar das frutas, não são termos que costumam aparecer na mesma frase. Soa inusitado, mas pesquisadores têm investigado como substâncias presentes no organismo e na alimentação poderiam interferir no comportamento de células tumorais. O objetivo é encontrar pistas sobre os mecanismos que favorecem o crescimento, a disseminação e a recorrência do câncer.

É o caso de um estudo publicado no final de julho na revista científica Nature Aging, que identificou um possível papel da frutose na disseminação do câncer de ovário. Mas vale um alerta desde já: os achados derivam de testes em animais e células cultivadas em laboratório e, portanto, ainda não podem ser extrapolados para os humanos. Além disso, a pesquisa não analisou o consumo de frutas, por isso os resultados não justificam mudanças na alimentação de quem tem a doença.

A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Wistar, nos Estados Unidos, focou justamente em um possível mecanismo envolvido na disseminação do tipo mais frequente de câncer de ovário, o carcinoma seroso de alto grau.

Um dos objetivos era entender por que o câncer de ovário frequentemente volta e se espalha mesmo após uma boa resposta inicial à quimioterapia. Em experimentos com células e camundongos, os pesquisadores identificaram um mecanismo em que altas concentrações de frutose parecem facilitar o desprendimento de células tumorais.

Uma vez soltas do tumor original, essas células conseguem se espalhar com mais facilidade pela cavidade abdominal.

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“Esse é justamente um dos mecanismos de disseminação do câncer de ovário”, explica Agnaldo Lopes da Silva Filho, diretor científico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). “O grande problema da doença é que essas células se espalham pelo peritônio, a membrana que reveste a cavidade abdominal. O estudo propõe um mecanismo metabólico em que a alta concentração de frutose seria um dos fatores que poderia modificar a membrana da célula e facilitar esse desprendimento”.

Filho pondera, no entanto, que o experimento utilizou frutose muito concentrada na água, o que não corresponde ao nosso padrão alimentar. “Ou seja, o estudo não avaliou o padrão humano de consumo de frutas, e os resultados ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos antes que possam influenciar recomendações alimentares ou a prática médica”, diz o ginecologista.

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A descoberta chama atenção porque o câncer de ovário continua sendo um dos tumores ginecológicos mais letais. Não há um método de rastreamento eficaz, como a mamografia para o câncer de mama ou o papanicolau para o câncer de colo do útero. Cerca de 80% das pacientes são diagnosticadas com doença avançada, e a sobrevida em cinco anos gira em torno de 20%.

O que o estudo descobriu

Os pesquisadores analisaram células tumorais que sobreviveram à quimioterapia. Em vez de morrer, parte delas entrou em um estado conhecido como senescência celular: elas deixam de se dividir, mas permanecem vivas e metabolicamente ativas, motivo pelo qual também são chamadas de “células-zumbi”.

Essas células passam a liberar um conjunto de proteínas e outras moléculas para o ambiente ao seu redor, um “coquetel” tecnicamente conhecido como fenótipo secretor associado à senescência (SASP).

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Ao analisar esse material, os pesquisadores observaram que a frutose fazia parte desse conjunto de moléculas. Nos experimentos, esse ambiente criado pelas células senescentes foi suficiente para aumentar a capacidade de disseminação de outras células do câncer de ovário.

Segundo os autores, a frutose pode atuar como uma das moléculas envolvidas nessa comunicação entre as células tumorais. Ela parece ter ajudado as células a perderem parte da capacidade de permanecer aderidas umas às outras, tornando mais fácil seu desprendimento.

“Mas a concentração de frutose avaliada não é a que encontramos habitualmente na nossa dieta”, reforça Filho. “Além disso, nós somos humanos. Isso foi em camundongos. Existe um efeito dentro desse modelo experimental, mas não dá para extrapolar para os humanos”.

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Pacientes com câncer de ovário deveriam parar de comer frutas?

A dúvida que naturalmente surge é se pessoas com câncer de ovário deveriam evitar frutas. E a resposta é não.

“Esse estudo não avaliou o consumo de frutas. Ele não oferece base para recomendar retirar frutas da alimentação. Na verdade, elas fazem parte de uma dieta saudável, contêm fibras, vitaminas e outros nutrientes importantes. O experimento utilizou frutose muito concentrada na água, o que não corresponde ao nosso padrão alimentar”, afirma o diretor da FEBRASGO.

Na avaliação de Filho, a principal contribuição da pesquisa está em ampliar o conhecimento sobre a biologia do câncer de ovário, e não em orientar mudanças de comportamento.

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“Eu não diria nem que é um sinal de alerta, mas uma sinalização de um mecanismo que ainda tem vários passos para ser validado“, afirma. “É o primeiro passo, como acontece no desenvolvimento de um medicamento: primeiro surge uma plausibilidade biológica, depois vêm novos testes.”

Os próprios autores do estudo reconhecem que ainda há perguntas sem resposta. A principal delas é se esse mecanismo também acontece em seres humanos. Outra é entender de onde vem a frutose envolvida nesse processo: quanto dela poderia estar relacionado à alimentação e quanto seria produzido pelo próprio organismo ou pelo tumor.

“Embora nossos dados impliquem um papel da frutose atuando diretamente sobre as células malignas vizinhas, o metabolismo da frutose pode indiretamente apoiar o crescimento tumoral por meio do microbioma ou da lipogênese hepática, e estudos futuros determinarão a contribuição dessas vias para a disseminação metastática”, diz o estudo.

Para Filho, a mensagem central é que esse estudo ajuda a explicar um mecanismo de disseminação de uma doença muito importante, que continua sendo um grande desafio.

“Tudo o que acrescenta ao melhor entendimento dessa doença merece ser investigado. Mas ainda é muito preliminar para estabelecer qualquer recomendação alimentar baseada nesses resultados”, pondera.

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