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Estudo mostra o impacto da enxaqueca no rendimento do funcionário

Uma semana ao mês é a média de falta de quem sofre da doença, revela pesquisa -- saiba como evitá-la

Por Letícia Passos - Atualizado em 14 set 2018, 19h12 - Publicado em 14 set 2018, 14h09

Trabalhadores que sofrem com enxaqueca perdem, em média, uma semana de trabalho por mês, aponta a pesquisa My Migraine Voice, realizada pela Novartis e a European Migraine and Headache Alliance (EMHA). Os resultados mostraram que a enxaqueca tem grande impacto laboral, incluindo redução da produtividade e aumento do absenteísmo, caracterizado por padrão habitual de ausências no trabalho, seja por falta ou atraso.

De acordo com a pesquisa, as pessoas que sofrem com a enxaqueca chegam a perder cerca de uma semana por mês em decorrência do problema. Apesar disso, apenas 18% das empresas oferecem apoio ao funcionário. Esse foi o maior estudo global de pacientes com enxaqueca, envolvendo mais de 11.266 pessoas de 31 países, incluindo o Brasil.

Os dados foram coletados entre setembro de 2017 e fevereiro de 2018 através de um questionário on-line. As perguntas avaliaram o impacto social, econômico e emocional da enxaqueca, assim como a convivência das pessoas com a doença e de que maneira ela pode afetar o ambiente de trabalho. 

O que causa a enxaqueca?

A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por episódios recorrentes de dor de cabeça grave acompanhada de sintomas como náuseas e vômitos, sensibilidade à luz, cheiro e som, formigamento e dormências no corpo e alterações na visão, como pontos luminosos, escuros, linhas em ziguezague que antecedem ou acompanham as crises de dor.

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Segundo Mário Peres, do Centro de Cefaleia São Paulo, as causas da enxaqueca são diversas, mas estão geralmente vinculadas a alterações nos neurotransmissores, na genética, nos hormonais ou no Peptídeo Relacionado com Gene da Calcitonina (CGRP, na sigla em inglês), uma molécula presente em todo o mundo, mas que, em alguns indivíduos, pode ser uma das responsáveis por deflagrar as crises. 

A predisposição do indivíduo e fatores externos, como excesso de cafeína, por exemplo, também propiciam o aparecimento da enxaqueca, que pode se manifestar em duas formas: a crônica, caracterizada por quinze ou mais dias com dor durante o mês; e a episódica, em que as dores se manifestam menos de quinze vezes por mês.

Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a enxaqueca a sexta doença mais incapacitante do mundo; no Brasil, a versão crônica afeta cerca de 31 milhões de brasileiros, a maioria entre os 25 e 45 anos, faixa etária considerada o auge dos anos produtivos. O Ministério da Saúde informa que o índice de ocorrência no sexo feminino atinge os 25%, mais que o dobro da manifestação em homens. No entanto, depois dos 50 anos, a taxa costuma diminuir, especialmente nas mulheres. 

Problemas no rendimento

A pesquisa revela que 60% dos trabalhadores afetados pela versão crônica da doença perdem, em média, uma semana de trabalho por mês; cerca de 37% deles informaram que convivem com a enxaqueca há dezesseis anos ou mais. Os dados ainda revelaram que a enxaqueca reduz a produtividade em 53%, número que sobe para 56% no caso de indivíduos cujo tratamento preventivo falhou mais de duas vezes. Entre os entrevistados, 90% disseram já ter utilizado pelo menos um tratamento preventivo e 80% precisaram alterá-lo uma ou mais vezes.

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Peres diz que o stress no ambiente de trabalho pode ser fator desencadeante das crises, por isso, é preciso evitá-lo na medida do possível. “Muitas vezes existe a sobrecarga externa, do trabalho, e a interna, das próprias cobranças. O perfeccionismo é um traço muito comum dos pacientes com enxaqueca. As pessoas precisam avaliar os limites pessoais e não passar deles”, alerta. Caso não seja possível, a recomendação é buscar válvulas de escape para o stress, como formas de relaxamento que trabalhem corpo e mente.

Sem apoio

Apesar de ser um problema conhecido da população, assim como das  empresas – 63% das pessoas afirmaram que os empregadores estão cientes de que os funcionários têm a doença –, o apoio recebido no trabalho não é o bastante (18%). O número é relativamente pequeno se considerarmos que 47% dos participantes trabalham em período integral, portanto, diante dos episódios de enxaqueca, eles podem perder até um dia inteiro de trabalho. 

Essa ausência ainda gera outro problema: a estigmatização do funcionário, que é julgado – por colegas e chefes – por tirar licenças médicas devido à doença. De acordo com Peres, a falta de acolhimento também pode se tornar um fator agravante, questão que salienta a necessidade da conscientização e do apoio no local de trabalho. 

Tratamentos atuais

Segundo Peres, atualmente, existem duas abordagens de tratamentos disponíveis no mercado: agudo e preventivo. No agudo, o objetivo é combater a dor no momento em que ela aparece com o uso de analgésicos e anti-inflamatórios (para combater as dores), ou de triptanos e ergotaminas (classes de medicamentos usada especificamente para tratar a enxaqueca).

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No entanto, o principal tratamento e também o mais efetivo é o de caráter preventivo, já que reduz o número de crises. Alguns dos tratamentos mais comuns são o Botox – também usado em procedimentos estéticos , além de orientações não farmacológicas, como realização de atividades físicas, psicoterapias, acupuntura e ioga.

Recentemente, o FDA aprovou o Aimovig, nome comercial do erenumabe, anticorpo monoclonal desenvolvido especificamente para localizar e bloquear os receptores de CGRP. De caráter preventivo, o novo tratamento é injetável e funciona de forma semelhante à da insulina para o diabetes, podendo ser aplicada pelo próprio paciente (na barriga, no braço ou na perna). 

Desenvolvido pela farmacêutica Novartis, o medicamento foi disponibilizado para os pacientes americanos no fim de maio e custa cerca de 6.900 dólares (aproximadamente 28.000 reais) por ano. A medicação já foi aprovada também na Europa. No Brasil, a aprovação deve acontecer no primeiro semestre de 2019, devendo ser comercializada com o nome de Pasurta.

Novas alternativas

Além do ioga e da acupuntura, outra forma de medicina não medicamentosa útil para tratar a enxaqueca é a osteopatia, terapia manual que promove alívio imediato das dores. Apesar de ter sido criada no fim do século XIX, a técnica chegou ao Brasil apenas na década de 80, sendo reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) em 2001.

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A osteopatia busca identificar a origem do problema, que pode ser neurológica, vascular, metabólica, referida (problema de uma região que dói em outra parte, como é o caso da sinusite), ou tensional (quando o músculo tensiona algumas áreas da cabeça, provocando dor), por exemplo, e trabalha a região detectada como ponto de partida da dor para tentar regularizar o organismo.

“Com estímulos manuais, o profissional consegue melhorar e otimizar a região para controlar a dor. Para o tratamento de cefaleias, que incluem a enxaqueca, a osteopatia consegue em 90% dos casos um alívio que varia de 70% a 100% da dor”, explica Rogério Queiroz, diretor-geral da Escuela da Osteopatia de Madrid e membro da Associação dos Osteopatas do Brasil. No entanto, a utilização desse método para o tratamento da enxaqueca – mesmo em casos de urgência – ainda é pouco conhecida pelo público.

Por ser uma especialidade da fisioterapia, quem determina a frequência das sessões é o próprio fisioterapeuta osteopata, ou seja, para a realização do tratamento, não é necessário recomendação médica, embora o tratamento conjunto seja normalmente a melhor opção para o paciente. As sessões podem começar semanais e, conforme o paciente demonstra uma melhora, elas podem se tornar quinzenais, mensais ou até semestrais.

Desde o ano passado, a osteopatia está disponível para os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). A medida faz parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). No Rio de Janeiro, a Escola de Osteopatia de Madrid, em parceria com o Hospital Gafree e Guinle, oferece à população atendimentos gratuitos.

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