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Estudo da USP mostra que solução salina inibe replicação do coronavírus

Caso a eficácia seja comprovada em testes clínicos, a descoberta pode colaborar para a criação de estratégias de prevenção e tratamentos para a Covid-19

Por Simone Blanes 9 set 2021, 15h21

Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) que acaba de ser publicado na revista ACS Pharmacology & Translational Science pode ser um passo importante para a descoberta de um tratamento da Covid-19. Por meio de células epiteliais de pulmão infectadas com o novo coronavírus, os pesquisadores conseguiram desvendar o mecanismo bioquímico pelo qual a solução salina hipertônica inibe a replicação do SARS-CoV-2. Caso a eficácia seja comprovada em testes clínicos, a descoberta pode colaborar para novas estratégias de prevenção e até o desenvolvimento de tratamentos para a doença. “Acreditamos que seria importante avançar nesse estudo e realizar testes em humanos para verificar a eficácia do uso de spray e de nebulização com solução hipertônica de cloreto de sódio [NaCl] como forma de profilaxia, ajudando a diminuir a disseminação do vírus no organismo infectado e a reduzir as chances de uma inflamação mais grave”, diz Cristiane Guzzo, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, autora do trabalho.

Ao comparar diferentes concentrações do produto, os cientistas verificaram que o uso da solução a 1,5% de NaCl inibiu, in vitro,  a replicação do SARS-CoV-2 em 100% em células de cobaias. Já nos testes com células epiteliais de pulmão humano, a solução a 1,1% foi suficiente para impedir a replicação do vírus em 88%. “Ao conseguir explicar esse mecanismo intracelular de resposta à solução hipertônica, realizamos um estudo com aplicações claras na saúde e na compreensão de diferentes doenças respiratórias”, explica Henning Ulrich, do Instituto de Química (IQ-USP), também autor da pesquisa.

De acordo com Ulrich, é provável que esse resultado observado no caso do SARS-CoV-2 se repita com outros vírus, pois se trata de um mecanismo da célula hospedeira, de onde o micro-organismo tira proteínas e fontes de energia para se replicar. No estudo, os pesquisadores sugerem testar dois tipos de uso da solução hipertônica de NaCl. Na forma de spray nasal para a profilaxia das vias aéreas, porta de entrada do SARS-CoV-2 no organismo e por meio da nebulização para levar o soro até o pulmão. Nesse caso, é essencial a aplicação de concentrações certas de NaCl para a eficácia do método que só poderá ser avaliado por meio de testes clínicos em pacientes com Covid-19 – vale ressaltar que a nebulização com solução hipertônica já é utilizada para tratar crianças com bronquiolite, por exemplo. “Seria um tratamento utilizado nos primeiros dias da infecção. Reduzir a replicação do vírus significa reduzir a gravidade da doença e o agravamento inflamatório porque a Covid-19 é complexa”, ressalta Guzzo. “Tem a parte da replicação viral – que a solução salina teria efeito – e também a da inflamação sistêmica, que vai além. Esta segunda fase, quando iniciada, pode ser intensa e gerar uma série de outras complicações em diferentes órgãos”, alerta.

Com participação do pesquisador Edison Durigon e apoio da FAPESP, a pesquisa ressalta que, embora as evidências sugiram que o uso da solução de cloreto de sódio iniba a replicação do vírus, não representa proteção total contra a infecção. “É uma medida muito simples e barata, que poderia minimizar a gravidade da Covid-19 ao reduzir a carga viral. Ela poderia ser adicionada aos protocolos de segurança, sem substituir o uso de máscaras, distanciamento social ou a necessidade de vacinação”, finaliza a pesquisadora.

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