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Esperando transplante, mulher vive 6 dias sem pulmão

A canadense Melissa Bernot, de 33 anos, sobreviveu 6 dias sem os pulmões, em um feito inédito na medicina, enquanto esperava por um transplante

A canadense Melissa Benoit, de 33 anos, sobreviveu seis dias sem os pulmões enquanto esperava por um transplante. Segundo o Toronto General Hospital, onde Melissa ficou internada e o procedimento foi realizado, o método é inédito e foi a única solução encontrada para salvar a vida da canadense, que estava à beira da morte devido a uma grave infecção. O caso, ocorrido em abril de 2016, foi descrito em um artigo publicado recentemente na revista científica Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery.

Melissa nasceu com fibrose cística, doença crônica que entope os pulmões com muco, e já estava na fila de transplante. Entretanto, enquanto aguardava o surgimento de um doador compatível, ela contraiu uma grave infecção nos pulmões e precisou ser internada. Mesmo com sedação, a bactéria que se instalou no órgão de Melissa era resistente aos antibióticos e a grave infecção se espalhou pelo corpo, deixando-a em risco de choque séptico.

Embora os médicos já estivessem “ensaiando” esse tipo de procedimento há tempos, ele nunca havia sido realizado. Mas, diante da grave situação de Melissa, essa era a única alternativa e sua melhor – e única – chance de sobrevivência. Niall Ferguson, diretor do Departamento de Cuidados Críticos do hospital, contou à rede britânica BBC que ela tinha acessos de tosse tão fortes que fraturara costelas. 

Procedimento inédito

Após conseguirem a autorização do marido de Melissa, os médicos decidiram retirar os pulmões – onde a infecção estava alojada – e a mantiveram viva com a ajuda de um pulmão artificial, aparelho que ajudava a oxigenar e circular o sangue.

“Ela estava morrendo, tínhamos que fazer algo. Foi uma decisão difícil porque faríamos algo nunca antes tentado. Havia uma série de riscos”, disse Niall Ferguson, diretor do Departamento de Cuidados Críticos do hospital.

O procedimento durou nove horas e envolveu um equipe cirúrgica de treze pessoas. Shaf Keshavjee, um dos médicos envolvidos, disse à BBC que a sorte da canadense começou a mudar naquele momento. “Vinte minutos depois de tirarmos os pulmões, a pressão arterial de Melissa tinha se normalizado. Mas não sabíamos quanto tempo poderíamos mantê-la viva. E tampouco se levaria um dia ou um mês para termos novos pulmões”, explicou Keshavjee.

Felizmente, em apenas seis dias apareceu um doador e Melissa foi submetida ao transplante. Quando acordou após a cirurgia, ela estava tão fraca devido à inúmera infecções e à internação, que só conseguia mostrar a língua. “Era a única maneira de nos comunicarmos com ela. Pedi que ela nos desse algum sinal de que podia nos ouvir e ela pôs a língua para fora”, contou Sue Dupuis, mãe de Melissa, ao ao jornal canadense The Globe and Mail.

Melissa só soube quando acordou

Foi apenas um mês depois do transplante que Melissa percebeu o que era ter novos pulmões. “Foi quando percebi que podia respirar novamente em vez de tossir o tempo todo.” Desde então, ela está em processo de recuperação e, em breve, deverá ser submetida a um transplante de rim, que será doado por sua mãe, já que os seus foram danificados durante o tratamento.

Como estava em coma induzido, Melissa só soube de tudo o que aconteceu quando despertou após a cirurgia. “Não acreditei quando meu marido e meu pai me contaram e demorei bastante para entender tudo”, disse ao The Globe and Mail.

Em uma entrevista coletiva realizada no hospital, Melissa pediu que os canadenses doem mais órgãos. “Sem meu doador e sua família, nada poderia me salvar. A doação me deu uma segunda chance de viver”, afirmou.