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É possível ficar zen mesmo em crises como a do Brasil, diz guru de Jobs

Em São Paulo para o BrainSpace, o monge Segyu Choepel Rinpoche conta como conheceu o fundador da Apple e explica por que a meditação vem ganhando adeptos

Por Fernanda Thedim - Atualizado em 18 nov 2019, 18h46 - Publicado em 18 nov 2019, 18h04

O carioca Antonio Carlos Silva mora nos Estados Unidos há mais de 20 anos, mas por lá ninguém o conhece pelo nome de batismo. A frente de um centro de meditação no Vale do Silício, na Califórnia, Silva virou Segyu Choepel Rinpoche, monge adepto da medicina tibetana com inúmeros seguidores famosos. Entre eles, o empresário Steve Jobs, fundador da Apple, falecido em 2011, a quem Rinpoche acompanhou durante toda sua batalha contra um raro câncer no pâncreas. No Brasil para participar do BrainSpace, evento que acontece em São Paulo na quarta (20) com debates voltados ao universo da neurociência, o guru de Jobs falou à VEJA:

Como o senhor conheceu Steve Jobs? Um dos meus alunos era o braço direito do Steve Jobs. Sabendo da relação que eu tinha com este aluno, Steve pediu para me conhecer. Fomos apresentados um ao outro no mesmo período em que o Steve foi diagnosticado com uma delicada enfermidade.

Onde vocês se encontraram pela primeira vez? O primeiro encontro entre nós ocorreu na minha casa, na Califórnia, quando ele veio para uma consulta comigo. Lembro claramente da ocasião, o Steve tinha uma grande expectativa pela cura completa da enfermidade que o acometia, e naturalmente almejava saber se eu poderia ajudá-lo neste sentido.

Como era a relação entre o monge e o magnata? A princípio era apenas uma relação entre médico e paciente. A medida que o tempo foi passando, nossa relação foi se aprofundando, mas de uma maneira geral se restringia apenas ao campo médico e espiritual.

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Quais eram os assuntos abordados durante as consultas? Falávamos muito sobre a medicina tibetana. Ou seja, a influência do corpo, da mente e da energia no estado de saúde. Outro debate recorrente dizia respeito ao fato de que pessoas com um perfil de extrema criatividade, como o de Steve, acabavam por se “perder” na vida, não desempenhando um papel coerente com suas posições e capacidades.

Como assim? Diante da tremenda capacidade que tais pessoas possuem, elas poderiam naturalmente ser uma força muito mais positiva para a humanidade. Uma das razões por não saberem reconhecer e desenvolver certos aspectos internos é por não conhecerem a natureza da própria mente.

Muito se fala sobre autoconhecimento hoje em dia. Na prática, o que isso significa? Apesar de falarem muito, vejo muitas vezes com uma interpretação equivocada daquilo que é o autoconhecimento. No budismo, o processo de autoconhecimento envolve a absorção da filosofia budista. Entender a natureza e funcionamento da mente é o primeiro passo para começar a desenvolver meios para atuar nos padrões internos de comportamento.

O que se ganha com isso? O budismo nos ensina a equilibrar as emoções, eliminar as emoções aflitivas e cultivar emoções que vão nos empoderar cada vez mais, e então duas características principais de nós seres humanos irão surgir, a compaixão e a sabedoria.

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É por isso que o budismo está atraindo cada vez mais seguidores? Um dos principais aspectos do budismo é que não há nada que não possa ser contestado. Inclusive ele estimula muito o desenvolvimento da capacidade de investigação minuciosa e profunda. Buda era um grande cientista que acreditava na evolução, no homem do futuro. No meu modo de ver, a abertura e aceitação que o budismo detém atualmente no mundo moderno é em virtude dessa característica.

Também teria a ver com o aumento dos distúrbios de saúde mental, como ansiedade e depressão? Por um lado, sim. O mundo em que vivemos hoje é muito agitado, a pressão é enorme, e isso acaba por estimular determinados padrões de comportamento causadores de conflitos internos como ansiedade, stress, depressão, etc. A natureza dos ensinamentos de Buda confere contrapontos, antídotos a esses fatores aflitivos e disfuncionais.

Qual a principal ferramenta usada no desenvolvimento de uma mente saudável? É a meditação, o ato de se concentrar em um objeto que vai empoderar a mente. Uma pessoa que medite com regularidade vai desenvolver habilidades mentais que o ajudam a cultivar estados interiores virtuosos ao mesmo tempo em que elimina os estados aflitivos.

O que o senhor quer dizer com isso? Que a meditação é uma ferramenta essencial para equilibrar as emoções, desenvolver a sabedoria e, principalmente, cultivar um bem-estar duradouro.

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Tem algum segredo para conseguir meditar de verdade? Não tem segredo, mas existem dicas úteis para o decorrer do processo. Seja paciente consigo mesmo e deposite energia constante, pois uma profunda transformação requer tempo e dedicação. Procure não comparar seu desenvolvimento interior ou sua prática com quem quer que seja, compartilhe suas realizações com sua família e amigos, e principalmente as coloque em prática.

O Brasil passa por um momento conturbado com o país completamente polarizado politicamente. É possível ficar zen diante desse quadro? Este é um problema mundial, é um problema da civilização atual. Mas se você é um praticante, sim é possível não se deixar levar pelo turbilhão. Mas não confunda isso com condescendência: desde o homo erectus os conflitos existem. Do ponto de vista histórico a civilização humana sempre esteve em guerra. A meu ver, tais conflitos muitas vezes tem como causa instintos primitivos. Precisamos antes de tudo entendê-los para que possamos transcendê-los.

Mas qual o segredo para se manter calmo e pacífico em situações de crise? Na verdade não tem segredo nenhum. As pessoas acreditam que existe uma fórmula secreta, mas não tem. Esse estado de calma, serenidade, paciência surge em decorrência do treinamento da mente.

Treinamento pressupõe… prática, repetição, um processo contínuo, lento e gradual de sujeitar a mente a esses estados até que se tornem naturais e espontâneos. Requer dedicação e constância. Minha mãe já dizia e a maioria dos brasileiros conhece esse ditado: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. É por aí.

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