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“É o que me faz não deixar a doença ganhar”, afirma nadadora

A nadadora e ex-pentacampeã brasileira de triatlo Susana Ribeiro luta contra o avanço da Atrofia de Múltiplos Sistemas

Para chegar à Paralimpíada do Rio de Janeiro, a nadadora gaúcha Susana Schnarndorf Ribeiro precisou provar que sua coordenação motora piorou e mudar de categoria. Agora, a atleta chega à Rio-2016  sabendo que seu desempenho está pior do que há dois anos e, mesmo sabendo que continuará sendo assim, mas que não vai desistir, segundo informações da  BBC Brasil. “Minha vida é isto aqui. É o que me faz não deixar a doença ganhar”, disse.

Suzana é ex-pentacampeã brasileira de triatlo e há doze anos convive com a atrofia de múltiplos sistemas (MSA), uma doença degenerativa rara que limita gradualmente o movimento, a respiração e outras funções autônomas do organismo. “Atualmente, tenho 40% de capacidade respiratória. Agora diminuiu muito o número de braçadas que eu dou sem respirar. Já cheguei a passar mal, ter queda de pressão. É complicado para uma nadadora não ter ar. Sei que não faço mais o tempo que fazia antes, mas me preparei muito para estes Jogos. Farei o melhor que consigo agora”, afirmou.

O diagnóstico

Os primeiros sinais da doença apareceram em 2005, quando Susana tinha 37 anos, era pentacampeã brasileira de triatlo e havia acabado de dar à luz a terceira filha, Maila. “Eu comecei a sufocar, não conseguia engolir a comida, comecei a perder movimentos das mãos. Eu desmaiava até dormindo.”, contou.

Depois dos mais variados diagnósticos — de síndrome do pânico a tumor no cérebro e mal de Parkinson –, ela descobriu a MSA. O próximo passo, no entanto, foi o mais difícil: Suzana decidiu separar-se dos filhos, que foram morar com o pai. “Minha filha era bebê e eu não conseguia cuidar dela, os outros dois sofriam de me ver daquele jeito. Foi por amor a minha decisão de não fazê-los passar por isso comigo.”

Aliás, os filhos também foram sua principal motivação para voltar ao esporte. “Eu não queria que meus filhos me vissem desistir”, relembrou. A decisão foi tomada depois que ela encontrou atletas da seleção paralímpica brasileira em uma aula de hidroginástica.

Na primeira competição Susana já bateu três recordes brasileiros. No ano seguinte, estava nos Jogos Parapan-Americanos e em pouco tempo começaria a sonhar em disputar uma Paralimpíada em casa, diante dos filhos e da família. “Agora teu sonho não é mais só teu, é nosso também”, disse o filho mais velho, Kaillani, de 18 anos, quando Suzana contou que enfrentaria a reclassificação de categoria para os jogos.

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Reclassificação

Por ter uma doença que avança com o passar do tempo, Susana precisa ser reavaliada a cada dois anos por profissionais do Comitê Paralímpico Internacional, que decidem se ela pode continuar na categoria em que está. O objetivo é que as provas continuem sendo competitivas e justas. A natação, por exemplo, tem mais categorias do que a olímpica, porque os atletas se dividem não apenas pelo tipo de nado, mas também pelo grau de eficiência que a sua limitação os permite ter.

Depois de ser campeã mundial em 2013, Susana passou a fazer tempos piores e foi ficando para trás na sua categoria. “Entre 2014 e 2015 eu tive uma grande piora da doença, era difícil continuar competitiva. Foi um ano muito ruim”, relembra. Por isso, no início deste ano, ela foi submetida a um mapeamento detalhado do cérebro que comprovou a piora de sua coordenação motora.

Por causa disso, ela passou da categoria S6 para a S5 – quanto menor o número, maior a dificuldade motora do atleta. Essa é a quarta vez que ela muda de categoria desde que começou na natação paralímpica. Na nova posição, conseguiu a classificação para a Rio- 2016. “É ruim receber um diagnóstico assim, mas eu fiquei feliz porque tinha como provar minha piora para os classificadores, deu um alívio. Todo mundo me falava antes da reclassificação que, se não desse certo, a vida continua. Mas a minha vida é isto aqui. É o que me faz não deixar a doença ganhar.”, diz.

Avanço da doença

“Meu corpo está parando de funcionar comigo viva. Eu tenho que brigar com ele”, conta. Nessa briga, o esporte é sua principal arma. Segundo Susana, a prática de alto rendimento retardou o avanço da doença. Por isso, ela luta ano a ano para continuar competindo. “Eu não penso hoje se vou estar andando ou conseguindo falar no ano que vem. Eu penso que ano que vem tem mundial, tem competição. Literalmente, o esporte me salvou.”

Ela treina quase seis horas por dia, seis dias por semana, para enfrentar as mudanças inevitáveis no próprio corpo. Mas deixa claro que não vai parar no Rio. “Quem tem essa doença normalmente morre depois de sete ou oito anos. Eu vou completar doze e estou aqui ainda. É isso que o esporte faz por mim. Eu vou até Tóquio (em 2020).”

Enquanto dentro das piscinas Susana precisou adaptar-se à redução da capacidade respiratória, fora delas precisa lidar com dificuldades cotidianas cada vez maiores, como comer, vestir-se ou escovar os dentes. “Preciso fazer força para falar, por exemplo. Já não é natural para mim. Também tenho que caminhar prestando muita atenção, pensando no que estou fazendo”, explica.

Há cerca de oito anos ela deixou de sentir o cheiro das coisas e o gosto dos alimentos. Agora, começa a perder até mesmo a memória deles. “Outro dia alguém comentou que sentiu cheiro de churrasco. E eu fiquei pensando: ‘Como era mesmo o cheiro de churrasco?’. Dá uma agonia”, conta.

Apesar dos incômodos, ela prefere encarar o lado bom da vida. “Não sinto cheiro de churrasco, mas estou aqui treinando e fazendo o que eu mais gosto. É até melhor não sentir o cheiro para não sentir a tentação de comer”, ri.

A nadadora também dá palestras motivacionais sobre a convivência com a doença, mas não gosta de falar em “superação” quando o assunto é Paralimpíada. “O maior legado da Paralimpíada vai ser perdermos o rótulo de ‘coitadinhos’. Aqui é esporte de alto rendimento, a superação já ficou para trás”, afirma.