Dois exames para os rins se tornam obrigatórios para quem tem problema no coração
Diretrizes europeias inéditas recomendam exame renal para pacientes com doenças cardíacas
Durante muito tempo, cardiologistas trataram do coração e nefrologistas cuidaram dos rins como se fossem territórios separados. Nesta semana, a Sociedade Europeia de Cardiologia rasgou de vez essa fronteira: publicou, em parceria com a Associação Europeia de Nefrologia, as primeiras diretrizes dedicadas exclusivamente à relação entre doenças cardiovasculares e doença renal crônica. O documento foi publicado no European Heart Journal e apresentado durante o Congresso da entidade, em Munique.
A recomendação central é direta: todo paciente diagnosticado com alguma doença cardiovascular deve ser testado para problemas nos rins — mesmo sem sintomas aparentes.
Um casal que adoece junto
A doença renal crônica é definida por alterações na estrutura ou na função dos rins que persistem por pelo menos três meses e trazem consequências para a saúde. Segundo as diretrizes, cerca de 100 milhões de pessoas convivem com a condição na Europa — todas com risco maior de desenvolver problemas cardiovasculares.
O médico holandês Kevin Damman, da Universidade de Groningen e um dos coordenadores do documento, descreve essa relação como uma via de mão dupla: a doença renal acelera a cardiovascular, e vice-versa, antecipando complicações graves e a necessidade de diálise. Segundo ele, a novidade é que já existem tratamentos simples capazes de reduzir esse risco.
Cinco letras para não esquecer
O grupo de especialistas resumiu a estratégia em um acrônimo: STAMP. Rastrear todo paciente cardíaco com exames de sangue e urina; classificar corretamente o risco de falência renal e cardiovascular usando escores validados; tratar precocemente com medicamentos que retardam a progressão da doença renal; ajustar os tratamentos cardiovasculares à função renal do paciente; e planejar os serviços de saúde para dar conta da demanda.
O britânico William Herrington, professor da Universidade de Oxford e também coordenador da força-tarefa, explica que muitos pacientes com doença renal já são acompanhados por cardiologistas — por isso, ampliar o pedido de exames de função renal e de albumina na urina dentro dos consultórios de cardiologia pode identificar precocemente quem está em risco.
Dois exames, uma nova rotina
Na prática, a proposta é incorporar dois testes à rotina de quem tem doença cardiovascular. Um exame de sangue estima a taxa de filtração glomerular, indicador da capacidade dos rins de filtrar o sangue. Um exame de urina mede a relação entre albumina e creatinina, sinal precoce de dano renal que pode aparecer antes de qualquer sintoma.
Remédio a gente tem
Entre os tratamentos recomendados estão os inibidores do sistema renina-angiotensina, os inibidores de SGLT2 (mesma classe usada no controle do diabetes) e as estatinas. Juntas, essas classes têm mostrado capacidade de reduzir a velocidade de piora da função renal e a chance de eventos cardiovasculares, segundo o documento.
As diretrizes também trazem orientações para adaptar o tratamento cardiovascular de pacientes cuja função renal reduzida dificulta a eliminação de certos medicamentos do organismo — ajuste que, segundo os autores, costuma ser negligenciado na prática clínica.
Coração e rim no mesmo time
O último pilar da estratégia é organizacional: garantir comunicação entre cardiologistas e nefrologistas e envolver pacientes e familiares nas decisões de tratamento. A força-tarefa elaborou ainda uma versão das diretrizes voltada ao público leigo, pensada para ajudar pacientes a participar ativamente das decisões sobre o próprio cuidado.
Para os autores, o documento europeu marca uma mudança de mentalidade: doença cardiovascular e doença renal crônica deixam de ser tratadas como problemas isolados e passam a ser encaradas como faces de uma mesma condição — o que pode significar diagnósticos mais precoces e menos complicações graves nos próximos anos.







