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Depois de operar 3 000 obesos, médico relata como foi a própria bariátrica

'Percebi quanto deve ser angustiante para uma pessoa que não é médica lidar com uma situação desse tipo', conta Felipe Koleski

Por Felipe Koleski - Atualizado em 31 jul 2019, 21h26 - Publicado em 26 jul 2019, 07h00

Sou cirurgião do aparelho digestivo e, nos últimos vinte anos, venho me dedicando especialmente à cirurgia bariátrica. Já realizei mais de 3 000 procedimentos do gênero. Depois de terminar a faculdade, gradativamente, passei a ganhar peso. Como qualquer pessoa, tenho angústias, ansiedades, momentos de stress e tensão. Meu modo de buscar alívio era comer, e muito. Adorava comidas altamente calóricas: churrasco, feijoada, dobradinha, rabada e muita Coca-Cola zero. Nunca fui fã de doces e não gosto do sabor do álcool, então disso estava livre. Conheci bem o efeito ioiô: cheguei aos 125 quilos e, após uma rigorosa dieta e muita atividade física, consegui estabilizar o peso em 100 quilos, um nível mais aceitável.

Fiz dietas da moda e pratiquei atividade física com regularidade. Posso dizer que não existe medicação que eu não tenha utilizado. Sei de cor todos os benefícios e efeitos cola­terais de cada uma delas. Nada trazia o resultado necessário. Muitas vezes comentei com minha esposa, também médica, que queria ser operado. Ela dizia que eu estava maluco, que não conseguiria viver sem comer bastante e que eu ficaria um chato sem minha muleta, a comida. Com o tempo, comecei a ter vários problemas de saúde. Estava roncando muito, e alto. O barulho era tanto que eu chegava a acordar com meu ronco. Meu filho, mesmo dormindo em outro quarto e com a porta fechada, reclamava. Eu tinha também refluxo gas­troe­sofágico, esteatose hepática (a popular gordura no fígado), aumento da glicemia, colesterol, triglicerídeos e ferritina. Resumindo, começava a apresentar o que chamamos de síndrome metabólica. Além disso tudo, passei a ter fortes dores na coluna lombar como consequência da obesidade grave.

Em agosto de 2018, com os indicativos para cirurgia, e depois de tentar tudo o que podia, decidi que estava na hora. Sabia que era o que eu precisava fazer para ter mais qualidade de vida.

Com o passar dos dias, meu receio aumentou. Procurei um amigo advogado, pedi que fizesse meu testamento e o registrei em cartório. Na noite anterior à viagem para me submeter à cirurgia, entreguei a minha mulher o documento e todas as minhas senhas de bancos. Meu medo não era morrer, mas não deixar tudo organizado caso algo ocorresse.

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Lembro bem de olhar para o teto no trajeto entre o quarto e o centro cirúrgico, e de mais uma longa espera na sala de preparo. Depois de muito aguardar, fui para a sala de cirurgia. Aí caiu a ficha, e comecei a imaginar como se sentiam meus pacientes nessa hora tão ruim. Se para mim já estava sendo angustiante — e eu sei como tudo funciona —, imagine para um leigo. Deu tudo certo. Mas no décimo dia tive meu primeiro problema, uma dor insuportável acompanhada da sensação de que meu abdômen iria explodir — tudo porque, escondido da minha mulher, havia comido duas azeitonas. Mais uma vez percebi quanto deve ser angustiante para uma pessoa que não é médica lidar com uma situação desse tipo. A sensação é horrível. Não sabia se me sentava, se me deitava ou se ficava em pé.

O mais chato foi cumprir rigorosamente os horários de alimentação — no início, ingeria líquidos a cada trinta minutos. As mudanças são muito rápidas: logo, eu não estava mais roncando e dormia melhor, sem refluxo. As roupas foram ficando largas, eu me cansava menos durante as cirurgias e passava o dia muito mais disposto. Recentemente, ao me pesar, vi que estou com 89 quilos. De forma alguma quero fazer apologia de uma cirurgia milagrosa: a operação é a primeira etapa, talvez a mais difícil, de um tratamento contínuo contra uma doença grave e incurável, a obesidade. Sei que essa primeira parte foi vencida com sucesso.

Depoimento dado a Natalia Cuminale

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2019, edição nº 2645

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