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Crianças de cidade grande são mais solitárias, afirma pesquisa

Entre os fatores principais identificados como desencadeadores do isolamento infantil estão os ligados ao ambiente escolar

Crianças que crescem em regiões metropolitanas são quatro vezes mais solitárias do que aquelas que vivem em cidades pequenas ou áreas rurais, revela pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estatísticas do Reino Unido (ONS, na sigla em inglês). Segundo os resultados, cerca de 19,5% das crianças de cidade grande relataram se sentirem sozinhas com frequência; esse percentual sobe para 27,5% entre as crianças com renda mais baixa. 

Para especialistas, o isolamento urbano pode ser um dos principais fatores para a solidão infantil já que grande parte dos pais têm receio de deixar os filhos brincarem fora de casa, onde haveria maior possibilidade de entrarem em contato com crianças da mesma idade.

Outro motivo que levam os pequenos a se isolarem ou serem isolados são as redes sociais. “O cyberbullying é um grande problema na minha escola no momento. Tem um garoto que acabou de ser atacado [nas redes]. Ele fica sozinho o tempo todo”, revelou um garoto de 12 anos que participou do levantamento. Os pesquisadores ainda apontaram que crianças com problemas de saúde ou relacionamentos ruins com amigos e familiares também estão mais propensas a se sentir solitárias.

Os participantes da pesquisa, que tinham entre 10 e 24 anos, indicaram algumas soluções para o problema, como discutir o assunto nas escolas, preparar os jovens para entender e falar sobre a solidão que eles e as pessoas ao redor sentem e encorajar o uso positivo das mídias sociais.

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‘Eu me sinto sozinha’

Os resultados da pesquisa mostraram que as crianças entre 10 e 12 anos parecem ser as que mais enfrentam a solidão (14%), especialmente porque encontram muita dificuldade em fazer novas amigos no ensino fundamental, principalmente em períodos de transição, como do fundamental I para o II. Segundo depoimentos, foi durante estes períodos que muitos deles passaram a usar as redes sociais.

Para os adolescentes entre 13 e 15 anos, a solidão é um pouco menor (9%), mas ainda é preocupante. “Na época [quando eu mudei de escola], eu não tinha amigos, então me senti deslocada. Não havia ninguém para eu conversar sobre isso. Acho que ninguém realmente entendeu. E então, sim, eu me senti sozinha”, declarou uma jovem de 15 anos. Segundo os pesquisadores, a vergonha de se sentir sozinho também pode ser um fator que contribui para tornar o sentimento ainda mais profundo.

Na faixa etária 16 e 24 anos, a realidade não é muito diferente: a pesquisa registrou solidão em um em cada 10 participantes, sendo mais comum nas mulheres. Apenas um terço das meninas disse “quase nunca ou nunca ter se sentido sozinha” em comparação com quase metade dos meninos.

Entre os fatores mais identificados como desencadeadores do isolamento estão ligados ao ambiente escolar, principalmente quando as instituições utilizam políticas segregacionistas como punição por mau comportamento (detenção, suspensão ou expulsão, por exemplo). De acordo com Dawn Snape, da ONS, a pesquisa demonstrou que a solidão é um fator importante à medida que as crianças passam por “estágios transitórios da vida, como a mudança da escola primária para a secundária e, depois, para o ensino médio ou ensino superior”. 

Pobreza e solidão

Em algumas escolas inglesas, crianças de baixa renda têm direito a receber refeição de graça, mas para muitas delas, essa necessidade as coloca em evidência pela condição financeira. Dados da pesquisa revelaram que 27,5% afirmaram se sentir solitários; entre os que não recebiam o benefício – por não precisarem – o índice caiu para 5,5%.

Diante do resultado, Bernadka Dubicka, do Royal College of Psychiatrists, na Inglaterra, destacou que a solidão infantil está muito relacionada à sociedade, ou seja, com os problemas sociais que aprofundam o distanciamento social baseado na renda. “A relação com a pobreza parece ser importante. Crianças de famílias mais pobres terão menos oportunidades”, disse ela ao Telegraph

Redes sociais

Dubicka ainda ressaltou que as mídias sociais – consideradas por muitos um meio de desfazer fronteiras – não têm contribuído para diminuir os sentimentos de solidão entre a população mais jovem. “Apesar do acesso mais fácil às pessoas através das mídias sociais, isso não parece estar ajudando em termos de solidão. Isso enfatiza a necessidade do contato cara a cara e do apoio social de maneira física, em vez de apenas online”, comentou. 

Além disso, muitas crianças e adolescentes utilizam redes sociais, como Facebook e Instagram, para mascarar os próprios sentimentos e fingir que suas vidas não são solitárias. Isso pode tornar o problema ainda pior já que pode encorajar comparações críticas – com os jovens se sentindo inferiores por causa da “falsa felicidade” propagada por outras pessoas.

Para solucionar o problema, os participantes sugeriram que o tema solidão seja estimulado para discussão nos ambientes escolar e familiar; o mesmo vale para o uso das redes sociais de forma mais benéfica.