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Criada em intestino animal, E. coli pode ter chegado a brotos após contaminar água

Infecção, que se espalha pelas fezes de gado, se iniciou, provavelmente, em fazenda vizinha a Gaertnerhof

Por Aretha Yarak 10 jun 2011, 18h16

A Alemanha anunciou nesta sexta-feira que o surto de infecções pela Escherichia coli foi causado por brotos contaminados da fazenda Gaertnerhof, localizada ao norte do país. O local, no entanto, havia acabado de receber um aval sanitário contra infestações de E. coli. De acordo com especialistas ouvidos por VEJA, a contaminação poderia, então, ter sido causada pelo contato pontual com excrementos de animais contaminados, com água contaminada ou mesmo durante o manuseio, ensacamento ou transporte desses alimentos.

As cepas de Escherichia coli que causam contaminações alimentares se desenvolvem, normalmente, dentro de intestinos animais – sendo o gado o hospedeiro mais frequente. Isso significa que as infecções têm início nas fezes desses animais, que contaminam leitos de rios, riachos ou plantações. Uma vez que o alimento esteja contaminado, a ingestão pelo homem sem os procedimentos adequados, como aquecimento a mais de 70 graus Celsius, pode causar infecções.

Segundo Stefan Cunha Ujvari, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é mais provável, então, que o agente contaminante no caso do surto da Alemanha esteja na vizinhança da fazenda produtora, já que essa bactéria não se desenvolve em plantas, embora possa ficar latente por meses nos vegetais. “A contaminação pode ter tido origem no gado que pastou em uma fazenda vizinha ou que divide o reservatório de água, mesmo que a uma distância considerável”, diz.

Para Ujvari, alguns fatores pontuais podem ainda ter sido decisivos na contaminação, como uma possível chuva forte seguida de pequenos alagamentos. “Normalmente, as fazendas de criação bovina são intensivas. Pode ser, então, que a água da chuva tenha arrastado essa contaminação até um riacho comum à fazenda Gaertnerhof e, assim, contaminado os brotos”, diz. Segundo David Uip, diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a contaminação pode ainda ter acontecido através de excrementos de roedores.

Investigação – O primeiro passo para descobrir como um surto de contaminação acontece é delimitar qual o agente contaminante, para só então se descobrir como a contaminação aconteceu. Foi o que fizeram os investigadores alemães. Para chegar aos brotos da Gaertnerhof, eles mapearam um grupo de 17 pessoas que ficaram doentes após comer no restaurante Kartoffelkeller (Porão da Batata, em português), em Luebeck, a nordeste de Hamburgo, no dia 13 de maio. Os pacientes foram, então, questionados sobre quais pratos haviam pedido. O denominador comum de todos os pedidos foram os brotos. Em seguida, os investigadores perguntaram aos cozinheiros a origem desses ingredientes.

As investigações feitas na fazenda alemã não mostraram, no entanto, nenhuma evidência de E. coli. De acordo com autoridades locais, isso não significa que as suspeitas estavam erradas, uma vez que os brotos já não estavam mais na cadeia de abastecimento da fazenda. “A contaminação deve ser fruto de uma quebra de procedimento bem pontual da produção do alimento, do momento que vai da plantação ao manuseio da pessoa que vai ingerir aquele vegetal”, diz Artur Timerman, infectologista do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos.

Simbiose – A Escherichia coli é uma bactéria que pode ser encontrada também no intestino humano. “Em casos triviais, ela não causa problema algum. A presença dela na flora intestinal do homem é muito importante para a manutenção da saúde”, diz Timerman. Mas, apesar de viver em harmonia com o organismo humano, a E. coli frequentemente é a causa de um problema comum às mulheres: a infecção urinária. “Essa bactéria coloniza a região do períneo e acaba entrando na uretra”, diz o infectologista Stefan Cunha Ujvari.

A cepa encontrada nos brotos da Alemanha, no entanto, é resultado de uma mutação em que a E. coli inócua adquiriu genes de duas outras cepas de nocividade conhecida; Cerca de 90% dos genes da nova cepa são iguais aos de uma encontrada na África, que produz diarreia grave. Além disso, a bactéria mortal possui material genético semelhante ao de outra E. coli, causadora de síndrome hemolítico-hurêmica – variação também mortal.

Em 2010, uma agressiva variação da E. coli já havia sido encontrada na carne de hambúrgueres nos Estados Unidos – e foi batizada de O150. “A E. coli está evoluindo para formas causadoras de doenças cada vez mais graves. Enquanto a variante dos Estados Unidos causou problemas graves em 10% dos casos; a alemã evoluiu para 30%”, afirma Uip.

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