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Criação em laboratório de vírus híbrido da gripe desperta temor até entre cientistas

Pesquisadores na China desenvolveram uma nova versão do vírus ao misturar genes da "gripe das aves" H5N1 e o da "gripe suína" H1N1

Por Da Redação 6 Maio 2013, 11h22

Imunologistas expressaram preocupações nesta sexta-feira sobre o “perigoso” trabalho de cientistas na China, que criaram um vírus híbrido de gripe aviária e suína. A nova versão do vírus é capaz de se disseminar pelo ar entre cobaias – ainda é mantida em laboratório. A equipe da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas e da Universidade Agrícola Gansu escreveu em um artigo na revista científica Science que havia criado um novo vírus misturando os genes da “gripe das aves” H5N1 e o da “gripe suína” H1N1.

Transmitido às pessoas pelas aves, o H5N1 é letal em 60% dos casos, mas não é transmitido entre humanos, característica que até agora evitou uma pandemia. Alguns especialistas argumentam que estudos híbridos como esse esclarecem como o vírus consegue sofrer mutação na natureza para causar uma epidemia humana, e podem ajudar as pessoas a se preparar.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o H5N1 já infectou 628 pessoas e matou 374 desde 2003. O H1N1, que surgiu no México, é altamente transmissível e infectou um quinto da população mundial em uma pandemia registrada entre 2009 e 2010, mas é quase tão letal quando uma gripe comum.

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O novo vírus mutante foi transmitido facilmente entre cobaias por meio de gotículas respiratórias. Com isso, a equipe chinesa afirmou ter provado que o vírus mortal H5N1 pode precisar apenas de uma simples mutação genética para “adquirir transmissibilidade entre mamíferos”. Híbridos de gripe podem aparecer na natureza quando duas cepas infectam a mesma célula e trocam genes em um processo conhecido como reagrupamento. Não existem, no entanto, evidências de que o H1N1 e o H5N1 tenham feito isso até agora.

Risco – Alguns observadores temem que a ciência esteja colocando a humanidade em risco ao criar tais mutantes. “Esses vírus feitos pelo homem nunca estiveram na natureza. Agora, estão armazenados em um freezer”, diz o professor de virologia Simon Wain-Hobson, do Instituto Pasteur, da França. Wain-Hobson citou um vazamento em laboratório de febre aftosa, uma doença que afeta o gado e que causou um surto na Grã-Bretanha seis anos atrás.

Ainda não ficou claro como o híbrido da gripe, que não é mortal para as cobaias, poderia afetar as pessoas. Mas os cientistas estão inquietos. “Esses vírus podem causar pandemias”, diz Wain-Hobson. “Se acontecer algum erro e eles escaparem ou coisa parecida, isso pode afetar as pessoas e provocar entre 100.000 e 100 milhões de mortes.”

Wain-Hobson e outros especialistas temem que o risco possa ser ainda maior que o valor científico da pesquisa. As descobertas, argumentam, têm pouco valor para a produção de uma nova vacina. “O registro de retenção nos mais importantes laboratórios de contenção não é bom. Tem havido repetidos vazamentos”, diz Robert May, ex-presidente da Sociedade Real de Ciência britânica. “Você não faz essas coisas a menos que exista alguma emergência extrema”, diz. “Estamos enfrentando um perigo presente e real com benefícios extremamente dúbios para o público”.

O virologista John Oxford, da Universidade Queen Mary, de Londres, no entanto, diz que o experimento é um alerta importante. Ele demonstrou como dois vírus, ambos que ainda infectam pessoas ao redor do mundo, podem trocar genes. “A matemática dirá que cedo ou tarde uma pessoa será coinfectada”, afirmou, provavelmente levando a um vírus híbrido “que começará a se disseminar”. “Precisamos nos reorganizar, rever nossos planos de pandemia e estar certos de que temos estoques de vacina para o H5N1”, afirmou Oxford.

Vírus mutante – Em janeiro, cientistas dos Estados Unidos e da Holanda retomaram a controversa pesquisa sobre seus próprios vírus híbridos. O novo vírus criado pelos cientistas conseguiu ser transmitido entre furões, considerados bons modelos de pesquisa para a disseminação de doenças entre seres humanos. As equipes americana e holandesa citaram uma “responsabilidade de saúde pública” para retomar o trabalho, interrompido após um clamor público e sondagens sobre segurança global.

Jeremy Farrar, diretor da Unidade de Pesquisa Clínica da Universidade de Oxford, no Vietnã, disse à Nature News que o novo estudo demonstrou que o H5N1 continuava a representar uma ameaça muito real. “Acredito que esta pesquisa é crítica para a nossa compreensão do influenza. Mas este trabalho, onde quer que seja no mundo, precisa ser estritamente regulado e realizado nas instalações mais seguras, que sejam registradas e certificadas com padrão internacional”, afirmou.

(Com agência France-Presse)

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