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Covid-19: Corrida para a primeira vacina chegar ao mercado ganha força

O anúncio da eficácia de medicamento americano em humanos traz esperança para o controle da doença

Por Adriana Dias Lopes - Atualizado em 22 maio 2020, 11h44 - Publicado em 22 maio 2020, 06h00

Raríssimas questões são tão unânimes na medicina epidemiológica: a vacina é a arma mais potente contra uma pandemia. Trata-se do único remédio capaz de brecar novas infecções. Desenvolvida em 2009, a vacina contra o H1N1, por exemplo, foi determinante para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciasse o fim da pandemia provocada pelo vírus no ano seguinte. Das 118 fórmulas contra a Covid-19 registradas atualmente pela OMS, oito já estão sendo testadas em seres humanos. Entre elas, há três com tração suficiente para chegar à reta final ainda neste ano, em louvável ineditismo. Até hoje, o tempo recorde tinha sido com o sarampo — o tratamento foi aprovado em 1963, dez anos depois de o vírus ter sido identificado. No que se refere ao prazo de início dos estudos, a data é ainda mais espantosa. Passaram-se apenas três meses desde a identificação do novo coronavírus, na China, e as primeiras pesquisas.

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Um passo fundamental foi dado nesta semana. Na segunda-feira 18, a empresa americana de biotecnologia Moderna revelou um sucesso: as oito primeiras pessoas imunizadas com duas doses do fármaco estavam protegidas. “Esses dados, embora iniciais, demonstram que a vacinação provoca uma resposta imunológica ao vírus semelhante à produção de anticorpos que ocorre no sangue de pacientes já recuperados da doença”, disse Tal Zaks, diretor médico da Moderna. O estudo faz parte da chamada fase 1, ainda restrito, afeito a avaliar a segurança da vacina. O grupo de voluntários saudáveis que recebeu a imunização desde março não apresentou efeitos colaterais graves. Serão necessários testes de maior abrangência para comprovar a eficácia em larga escala.

EXEMPLO – H1N1: a imunização é fundamental para o fim do alastramento do vírus Mauro Pimentel/AFP

Os testes em humanos, é claro, brotam depois de vasto trabalho com animais. Em ratos, verificou-se que a vacina, ancorada no material genético do Sars-CoV-2, consegue impedir a replicação do vírus nos pulmões. As boas notícias aceleram os trabalhos. A Moderna prevê para julho o início de uma etapa de avaliação com milhares de voluntários. O laboratório Pfizer e a BioNTech desenvolvem um produto com potencial para ser lançado em setembro. A Universidade de Oxford, na Inglaterra, concluirá os testes de seu medicamento em um grupo grande de pessoas em três meses. A agilidade é atribuída à urgência, é óbvio, bem como à experiência dos pesquisadores com o desenvolvimento das vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, durante suas respectivas epidemias, em 2003 e 2012 — elas nunca chegaram ao mercado porque, quando ficaram prontas, depois de longa jornada de investigação, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos foram suspensos. No Brasil, há dois estudos em andamento. O do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), que começou os testes em camundongos, a caminho de ser aplicado em humanos, e o da Fiocruz Minas.

Considerada a bala de prata contra o coronavírus, a movimentação científica em torno da vacina mexe com os mercados financeiros, em evidente reflexo dos humores da sociedade, especialmente agora, com o mundo paralisado. As ações da Moderna subiram 20%, em média, nas bolsas americanas, com a animadora notícia. O nó, ainda longe de ser desfeito: a vacina, quando aprovada pelas autoridades sanitárias, será distribuída com a patente quebrada ou será controlada pelo fabricante? Não se sabe, mas estima-se que possa ser distribuída rápida e globalmente, a valores de custo. Há, portanto, uma boa e ampla avenida para seguir.

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Publicado em VEJA de 27 de maio de 2020, edição nº 2688

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