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Coronavírus: médicos comentam erros de Bolsonaro durante pronunciamento

Infectologistas apontam entendimentos equivocados do presidente sobre isolamento da população, grupos de risco e histórico de atleta

Por Mariana Rosário - Atualizado em 25 mar 2020, 21h58 - Publicado em 25 mar 2020, 17h12

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na terça-feira, 24, sobre a pandemia de Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, não foi bem recebido pela comunidade médica. A fala — que ‘traz preocupação’, de acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) — foi direcionada, principalmente, às ações de distanciamento social, como fechamento de escolas e de serviços não essenciais determinados por governadores e prefeitos em todo o país. Na gravação, ele ainda criticou a imprensa, falou em histeria e chamou a doença, mais uma vez, de “gripezinha”.

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A comunidade médica, inclusive, notou alguns pontos conceitualmente equivocados na fala de Bolsonaro. A pedido de VEJA, os infectologistas Sergio Cimerman, diretor científico da SBI, e José David Urbaez, consultor de infectologia da DASA e diretor científico da Sociedade de Infectologia do DF, comentaram alguns pontos específicos do pronunciamento de ontem. Confira:

Jair Bolsonaro: “O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará”
Sergio Cimerman: “Não é possível dizer isso ainda, é um vírus novo e estamos aprendendo sobre ele. Precisamos descobrir ainda se haverá tratamento específico, vacina.”
José David Urbaez: “Tem diferentes cálculos para medir esse tempo, o que sabemos agora é que nossa curva de crescimento de casos ainda é controlada. Com as medidas de restrição de contato social, estamos diminuindo o máximo a possibilidade do vírus se espalhar, mas ainda assim o número de casos está dobrando a cada dois dias e meio ou três.”

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JB: “Devemos voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércios e o confinamento em massa.”

SC: “É preciso deixar as pessoas isoladas para diminuir a circulação do vírus. É uma forma de conter o pico de casos, que deve acontecer em meados de abril. Quando chegarmos lá, precisamos ter um sistema de saúde bem azeitado para receber esses pacientes que vão necessitar de cuidados. Uma vez que confirmamos a transmissão comunitária no país, o aumento do vírus pode ser acompanhado por uma progressão matemática, ou seja, o número de casos vai aumentando gradativamente. Evitar a circulação das pessoas faz com que “achatemos” a curva de crescimento de pessoas contaminadas, o que é de extrema importância, pois não temos como atender todo muito em leitos de hospitais de uma única vez.”

JDU: “Ninguém decreta esse tipo de medida confortavelmente, ela só existe porque foi comprovada cientificamente por meio de uma modelagem muito séria levando em conta a possibilidade de contato entre as pessoas. Isso vai refletir nos índices de contágio e no controle do vírus. São medidas não farmacológicas, que devem ser tomadas enquanto não temos vacinas nem tratamentos específicos. A Itália aparentemente agora começou a lentamente diminuir os seus casos por meio de medidas como essas. Se todos os grandes grupos populacionais ficarem doentes ao mesmo tempo, aqui no Brasil será catastrófico. Não teremos recursos de infraestrutura, de equipamentos, nem de humanos para atender todo mundo.”

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JB: “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar as escolas? Raros são os casos das pessoas sãs, sem doenças crônicas e com menos de 40 anos de idade.”

SC: “As pessoas acima dos 60 anos não representam o único grupo de risco. Pessoas com comorbidades, ou seja, que podem ter problemas cardiovasculares, diabetes ou serem transplantados, também correm maior risco de agravamento da infecção. Isso não quer dizer que atingirá somente os idosos. Nos Estados Unidos, pesquisas apontam que 38% dos hospitalizados por Covid-19 têm entre 20 e 54 anos.  A importância de fechar as escolas ocorre porque a criança é um portador assintomático do vírus, se ela tossir ou espirrar, pode contaminar outras pessoas ao seu redor. Não é possível praticar o isolamento com as escolas funcionando, trata-se de um local onde as crianças ficam aglomeradas, as carteiras, por exemplo, são colocadas uma do lado da outra. É impossível guardar a distância entre 1 e 2 metros do colega, as janelas são fechadas. Pensando mais a frente, essas escolas podem até servir de pequenos hospitais temporários, conforme ocorrer o aumento de casos.”

JDU:  “Além dos idosos, as pessoas com comorbidades também são afetadas e compõem grandes volumes populacionais. Quando falamos em fechar as escolas, estamos também levando em conta o imenso número de deslocamentos que envolvem esse processo:  pais, professores, motoristas, estudantes que pegam o transporte público. As crianças podem disseminar essa infecção, saindo da escola e levando para casa, onde podem estar pessoas muito vulneráveis. Essa medida é muito poderosa, uma vez que as crianças são vetores desse vírus. É claro que não adianta cancelarmos as aulas e deixá-las em casa com pessoas idosas. Nesse momento em que vivemos, é muito importante dizer que devemos mostrar o maior carinho e respeito com os idosos, eles construíram o que nós somos hoje e não podem pagar com a vida os efeitos dessa pandemia.”

JB: “90 % de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. Devemos ter extrema preocupação em não transmitir aos outros, em especial aos nossos queridos pais e avós. Respeitando as orientações do Ministério da Saúde.”

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SC: “Não é bem isso, o que sabemos é que cerca de 80% das pessoas que entrarem em contato com o vírus terão sintomas leves: febre, tosse seca, coriza, dor de cabeça. Esses casos podem confundir-se com gripes e resfriados, mas a partir do momento em que a pessoa teve falta de ar, deve procurar o serviço médico”.

JDU: “Cerca de 85% da população terá casos leves e outros 15% terão casos graves. Se todos esses 15% procurarem o serviço médico ao mesmo tempo será uma catástrofe, é um volume de pessoas muito alto. Destas 5% ainda precisará de leitos de UTI, com respiradores. É algo extremamente sério, basta fazer as contas para saber o quanto isso representa”.

JB: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho.”

SC: “Isso não faz diferença nenhuma. Ter histórico de atleta não te dará maior imunidade ao ser infectado pelo vírus. Há, inclusive, atletas que estão infectados e em isolamento.”

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JDU: “Do ponto de vista biológico quando um vírus novo tem interação com um corpo humano, esse processo será agressivo e conforme nós envelhecemos, esses mecanismos de interação ficam desfavoráveis para nós. O tanto de exercício que você faz fica pouco importante em termos de defesa do corpo.”

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