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Com 63% da população vacinada, por que Israel passa por onda de Covid-19?

Cientistas apontam hesitação às vacinas e relaxamento de medidas restritivas como possíveis causas do avanço da doença no país

Por Simone Blanes 20 set 2021, 17h18

Um dos primeiros países a implementar um extenso programa de vacinação contra a Covid-19, Israel conseguiu grandes feitos no combate à doença. Um deles era ter, já em fevereiro deste ano, 50% de sua população imunizada com pelo menos a primeira dose. Atualmente, já são cerca de 63% da população israelense com esquema vacinal completo. Consequência disso era a nação já viver quase como era antes da pandemia, em junho: sem medidas restritivas e com pouquíssimos casos. Isso até julho, quando novamente começaram a aumentar infecções pelo novo coronavírus, chegando no início de setembro com mais de 10 mil novos casos diários da Covid-19.

Com a situação tornando-se grave novamente, as autoridades de saúde lançaram mais um programa de vacinação de reforço, começando pelos idosos com mais de 60 anos até chegar aos mais jovens. Israel também não descarta uma quarta dose, caso seja necessário, como sinalizou Nachman Ash, diretor-geral do Ministério da Saúde e principal autoridade de saúde do país.

De acordo com Micheal Head, pesquisador de saúde global da Universidade de Southampton, na Inglaterra, uma parte relevante do problema em Israel tem sido a cobertura de vacinação no país. Em artigo recente no site acadêmico The Conversation, o especialista aponta que a imunização desacelerou. “Não houve interrupções claras no fornecimento de vacinas. Fatores como hesitação à vacina ou acesso a cuidados médicos podem ter sido um problema. Por exemplo, há evidências de que a aceitação dos imunizantes é menor entre grupos árabes e judeus ultraortodoxos”, diz Head.

Com cerca de 2,7 milhões, a proporção da população que recebeu pelo menos uma dose da vacina teve um aumento baixo no período de fevereiro a setembro: de 50%, foi para apenas 68%. E 30% de sua população não está vacinada. Mesmo assim, há alguns meses, o nível de cobertura parecia ser suficiente para controlar os casos. O que mudou, então?

Uma das causas pode ser a diminuição da imunidade, em especial tratando-se da variante Delta, altamente contagiosa.

De acordo com o professor Eran Segal, assessor especial do governo israelense para assuntos relacionados à pandemia da Covid-19, o nível de proteção individual é de 30% a 40%, de cinco a seis meses depois da imunização, comparado com a proteção de mais de 90% logo após a inoculação. Cientistas indicam que a redução da imunidade criada pela vacina é uma das causas do novo avanço do coronavírus na nação. Vale ressaltar, porém, que, apesar dessa diminuição, a vacina ainda previne um número significativo de casos graves. Em média, os não vacinados acima de 60 anos têm nove vezes mais chances de ficarem gravemente doentes do que os imunizados.

Outro fator relevante é a rapidez com que Israel descontinuou as medidas restritivas para controlar a pandemia. “Israel é o caso mais recente de uma longa lista de exemplos que mostram como a transmissão comunitária da Covid-19 é facilitada quando a política nacional encoraja a mistura de pessoas suscetíveis com pouca ou nenhuma restrição”, diz o cientista. Há ainda a questão da terceira dose, que o país implementou em seu programa de imunização desde 29 de agosto, primeiramente para idosos maiores de 60 anos, e depois estendida à população mais jovem. Atualmente, a dose de reforço em Israel está disponível para qualquer pessoa com 12 anos de idade ou mais que tenha recebido a segunda dose pelo menos cinco meses antes. “A terceira dose é a solução para interromper o atual surto de infecção”, diz Head. O pesquisador alerta, porém, que essas conclusões ainda são preliminares, ou seja, não foram revisadas por pares, e por isso, existem tantos debates globais sobre programas de reforço quando tantas pessoas no mundo nem mesmo receberam uma única dose. O que se tem certeza é que sem uma vacina, a infecção carrega o risco de doenças graves com complicações de longo prazo ou morte. E para Michael Head, o programa de vacinação em Israel tem sido muito bem-sucedido. “Mas o país também é um exemplo do que pode acontecer quando as restrições são relaxadas muito rapidamente”, diz. “Isso mostra que todos os países, independentemente de seu status atual de vacinação, devem manter planos de longo prazo sobre como mitigar o impacto da Covid-19”, finaliza o pesquisador.

 

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