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Cientistas conseguem observar processo de formação de anticorpos eficazes contra vírus HIV

Descoberta pode representar avanço na busca por uma vacina contra a aids

Por Da Redação 5 abr 2013, 09h38

Cientistas conseguiram acompanhar pela primeira vez a cadeia completa de produção de anticorpos eficazes contra todos os tipos de HIV. A descoberta, feita com análises periódicas em um paciente infectado com o vírus que conseguia neutralizar a doença, foi descrita em um artigo publicado na revista Nature nesta quarta-feira e pode representar uma etapa importante para estudos que buscam uma vacina contra a aids.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Co-evolution of a broadly neutralizing HIV-1 antibody and founder virus

Onde foi divulgada: revista Nature

Quem fez: Hua-Xin Liao, Rebecca Lynch, Lillian M. Tran, Yue Chen, Fangping Cai, Sheri Chen, Stephanie Moquin, Xiulian Du, M. Gordon Joyce, Sanjay Srivatsan, Baoshan Zhang, Anqi Zheng, George M. Shaw, Beatrice H. Hahn e Barton F. Haynes

Instituição: Universidade de Duke, EUA

Dados de amostragem: Amostras de sangue de um paciente infectado pelo HIV coletadas durante três anos

Resultado: Os pesquisadores conseguiram observar as mutações que levaram à formação dos anticorpos amplamente neutralizadores, eficazes contra diversas cepas do vírus HIV.

Analisando ao longo de três anos amostras de sangue de um homem africano infectado com o HIV, os pesquisadores conseguiram acompanhar toda a produção dos chamados “anticorpos amplamente neutralizadores” (BnAbs), aqueles capazes de atacar diferentes cepas do vírus. De acordo com Barton Haynes, diretor do Instituto de Vacina Humana da Universidade Duke, que chefiou a pesquisa, essa informação poderá ser usada como uma diretriz para induzir a produção desses anticorpos, nos moldes de uma vacina preventiva.

Dificuldades – Um dos maiores obstáculos aos desenvolvedores de vacinas contra a aids é que, como o vírus HIV sofre mutações muito rapidamente, ele fica menos exposto ao ataque de anticorpos e é difícil criar uma vacina que reconheça formas do vírus suficientes para ser eficaz.

O indivíduo estudado pertence ao grupo de cerca de 20% das pessoas infectadas com o HIV cujo sistema imunológico naturalmente produz os anticorpos amplamente neutralizantes. Porém, isso só acontece de dois a quatro anos após a infecção e não ajuda o hospedeiro que irá desenvolver a doença se não for tratado com medicamentos antirretrovirais.

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“Quando os anticorpos neutralizadores são produzidos, eles não ajudam a pessoa já infectada. A ideia, no entanto, é: se estiverem presentes antes da infecção, eles podem evitar a infecção ou a inserção do material genético do vírus no material genético do hospedeiro”, explicou Haynes.

Nesta pesquisa, os cientistas isolaram um anticorpo denominado CH103 e descobriram que ele foi ativado por um envoltório de proteína específico encontrado em uma forma de baixa mutação do vírus HIV. Isso significa que os anticorpos podem ser estimulados para responder à presença desta proteína ou outras similares no vírus.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 34 milhões de pessoas no mundo estão infectadas com o HIV.

Opinião do especialista

Ricardo Shobbie Diaz

Infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

“As pessoas que se infectam com vírus HIV produzem anticorpos neutralizantes contra o vírus. Mas o vírus sofre mutações, deixando de ser neutralizado pelo anticorpo. Então o organismo desenvolve um novo anticorpo, mas o vírus também muda novamente. Por isso ainda não se obteve sucesso na fabricação de uma vacina para a aids.

Os pesquisadores descobriram um vírus que gera a produção de um anticorpo que atua em uma região do vírus HIV que se liga com as células humanas. Essa região é preservada em grande parte das mutações do vírus, porque se ela sofrer muita alteração o vírus pode não conseguir mais se ligar às células do organismo. Ou seja, esse vírus consegue fazer com que a pessoa infectada produza anticorpos com um espectro de neutralização mais amplo.

Os pesquisadores sugerem usar esse vírus que para fazer a vacina, que poderia ser reaplicada ao longo do tempo com as mutações desse mesmo vírus. Ter um candidato [vírus] melhor para a confecção da vacina é uma hipótese inovadora nessa área.

Seria formidável ter uma vacina que funcionasse contra a aids, mas isso ainda não está próximo de acontecer. Nenhuma vacina oferece 100% de proteção contra nenhuma doença, mas existem algumas que estão bem perto disso. Como até hoje ninguém que foi infectado pelo HIV conseguiu eliminá-lo totalmente, desenvolver essa vacina seria fazer com que ‘a arte seja melhor do que a vida’, no sentido de que seria possível fazer algo que a natureza ainda não faz. No caso de outras doenças, como o sarampo, o próprio organismo é capaz de produzir os anticorpos, uma vez que é infectado pelo vírus. Não é algo impossível, mas por enquanto continua sendo muito difícil.”

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*O conteúdo destes vídeos é um serviço de informação e não pode substituir uma consulta médica. Em caso de problemas de saúde, procure um médico.

(Com agência France-Presse)

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