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Cardápio infantil é assunto de adultos

Passar horas diante da TV pode provocar dois tipos de alterações nos hábitos alimentares de crianças e adolescentes. O primeiro é a maior propensão à ingestão de alimentos não saudáveis – um fruto da propaganda. O segundo é o consumo exagerado de comida, já que a sensação de saciedade pode ser suprimida enquanto se está com os olhos grudados na telinha. Para reverter esse quadro, a nefrologista pediátrica Noêmia Perli Goldraich, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aposta no poder dos educadores, pais e médicos: eles devem orientar os jovens acerca da alimentação inapropriada. Noêmia faz parte do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, organização sem fins lucrativos que pretende alertar pais e profissionais sobre os impactos do consumo na sociedade. Confira a seguir a entrevista que ela concedeu a VEJA.com.

Uma das conclusões da recente compilação da Academia Americana de Pediatria sobre os efeitos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos sobre a saúde dos jovens é que os adultos sofrem do “efeito de terceira pessoa”. Ou seja, eles acreditam que os meios eletrônicos influenciam todos, exceto eles próprios ou seus filhos. Isso também ocorre no Brasil?

Sim. Esse é um tema recorrente nos periódicos americanos, mas que no Brasil ainda é pouco discutido. Já está na hora de falar sobre isso aqui. As escolas e os pais precisam perceber a influência que a TV, por exemplo, tem nos hábitos de alimentação das crianças. Vivemos uma epidemia de obesidade no mundo. Doenças frequentes no adulto como hipertensão, diabetes e cálculos renais estão se tornando comuns em crianças devido à presença de obesidade desde os primeiros anos de vida. Certamente a propaganda de alimentos ricos em sal, açúcar e gorduras, o tempo que as crianças ficam na frente da TV e os videogames contribuem para essa epidemia. Crianças obesas têm três vezes mais chances de se tornarem hipertensas ainda na infância. Esse risco é maior ainda se houver histórico familiar de hipertensão nos pais e avós. Os dispositivos eletrônicos também têm responsabilidade nessa situação.

Estudos afirmam que a propaganda pode influenciar as crianças. Contudo, não cabe aos pais colocar limites para a compra de determinados alimentos?

Está comprovado que as crianças influenciam a escolha dos pais. Mas elas não deveriam ser vistas como um potencial mercado. Elas precisam da oportunidade de um mundo melhor e mais saudável. Um levantamento do Ministério da Saúde, que analisou 4.108 horas de televisão e 128.525 peças publicitárias, mostrou que predominam as propagandas de alimentos com alto teor de gordura e prejudiciais à saúde. Esses anúncios correspondem a 9,7% do total de propagandas e ocorrem entre 14h30 e 18h30 – exatamente no horário em que as crianças estão em casa.

Esse é um tema que deveria estar no roteiro de uma consulta médica?

A Academia Americana de Pediatria já publicou as recomendações que profissionais da área devem fazer. Porém, segundo a pesquisa publicada na compilação, metade dos pediatras americanos não se interessou por esse assunto e não acredita que seja interessante aprender mais sobre a influência da TV, videogame, celular e internet em seus pacientes. O que ocorre é que os médicos não estão suficientemente sensibilizados para isso. Esse é um problema dos médicos americanos. No Brasil, ainda não temos recomendações a respeito. Temos outro agravante: em geral, as consultas frequentes pelo SUS (Sistema Único de Saúde) ocorrem durante o primeiro ano de vida, quando ainda é muito cedo para dar esse tipo de recomendação. No momento em que os pais mais precisam receber esses conselhos, o atendimento que as crianças mais velhas recebem ocorre só em casos de emergência.

A TV pode trazer algo positivo?

Tudo que estamos vivenciando até agora são os efeitos maléficos. Não existe propaganda falando sobre o benefício da cenoura. Nós precisamos reverter essa situação e usar o efeito muito poderoso da TV para construir atitudes positivas. Enquanto isso não acontece, as crianças não podem ser largadas na frente da tela. Elas incorporam tudo aquilo como verdade absoluta. Além disso, não podemos esquecer do exemplo de alimentação vindo dos próprios pais: não adianta exigir que a criança coma um prato de salada se eles comem fritura.

A senhora faz parte de um projeto que fala sobre criança e consumo. Qual o objetivo desse trabalho?

Tentamos sensibilizar professores e profissionais que lidam com crianças a ajudar na formação de pessoas mais críticas em relação ao que é exibido nos meios de comunicação. Até os oito anos, as crianças não conseguem distinguir publicidade de ensinamento.

Como os professores podem ajudar?

Eles podem ensinar, por exemplo, a analisar o rótulo dos alimentos. A criança tem que aprender que bolacha doce também tem sal. A partir do momento que elas começarem a olhar a composição dos alimentos, poderão obter uma refeição mais adequada, do ponto de vista nutricional.