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Brasileira desconhece relação entre câncer de colo de útero e HPV

Segunda pesquisa, 31% das brasileiras nunca fizeram, ou realizaram apenas uma vez na vida, o exame papanicolau — principal método preventivo

Levantamento brasileiro mostra que 83% das mulheres já ouviram falar do HPV (papiloma vírus humano), principal causa do câncer de colo de útero. Dessas mulheres, no entanto, 66% não relacionam o vírus ao desenvolvimento desse câncer. O dado alarmante foi divulgado nesta terça-feira pela Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC), em parceria com o Instituto Ibope. Segundo a pesquisa, 38% das brasileiras desconhecem os fatores de risco para o câncer de colo de útero, e 31% nunca fizeram, ou realizaram apenas uma única vez na vida, o exame ginecológico papanicolau – usado para o diagnóstico do câncer, que deve ser feito anualmente.

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CÂNCER DO COLO DO ÚTERO

O câncer de colo de útero é o segundo mais comum em mulheres, atrás apenas do câncer de mama. Dados do Inca estimam que, em 2012, houve 17.540 novos casos do câncer para cada 100.000 mulheres – e mais de 4.800 mortes em decorrência da doença. “Acredito que esses números estejam subestimados”, diz José Fochi, professor adjunto do Departamento de Ginecologia da Unifesp. Segundo o especialista, uma hipótese para isso é a falta de atestados de óbito e o registro errado, que assinala apenas câncer no útero (sem especificação).

Os fatores de risco para o desenvolvimento do câncer são grande número de gestações, uso de anticoncepcionais, tabagismo, HIV, coinfecção com outras doenças sexualmente transmissíveis, dieta inadequada e fatores genéticos. Praticamente todos os casos de câncer de colo de útero estão relacionados à presença do HPV. O diagnóstico da doença é feito com o exame papanicolau, que faz a coleta de células do colo do útero para análise laboratorial.

O HPV (papiloma vírus humano) é um vírus sexualmente transmissível, também responsável por cerca de 40% dos casos de câncer de pênis. Não é preciso, no entanto, que haja penetração para que uma pessoa seja infectada – por isso, a camisinha não é um método 100% seguro de prevenção. Apesar de existirem mais de 100 cepas diferentes desse vírus, apenas 15 são consideradas de alto risco – entre elas, 16 e 18.

O levantamento da ABPTGIC teve como objetivo descobrir qual o nível de informação das brasileiras sobre o câncer de colo de útero. Participaram da pesquisa 700 mulheres de seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Recife), com idades entre 16 e 55 anos. “No Brasil ainda há o desconhecimento de que esse câncer é uma doença que pode ser prevenida, e que existe uma vacina para ajudar nessa prevenção”, diz Garibalde Mortoza Junior, presidente da ABPTGIC.

Resultados – Os dados mostraram ainda que 17% das brasileiras nunca ouviram falar em HPV e que 14% nunca ouviram falar em papanicolau. “Desconheço um plano de saúde que tenha programa específico para a prevenção do câncer de colo de útero”, diz Mortoza. Entre as mulheres que conhecem a doença, 45% delas acreditam que o câncer afeta mulheres em todas as idades – sua prevalência, na verdade, é entre as mulheres de 40 e 50 anos (38% sabiam dessa informação).

A vacinação, um dos métodos de prevenção mais eficazes contra os tipos 16 e 18 do HPV (responsáveis por 70% dos cânceres), também é conhecida por apenas metade das mulheres. “Cerca de 80% da população mundial entra em contato com o vírus HPV em algum momento da vida. Desses, 90% vão eliminar o vírus espontaneamente do organismo”, diz José Fochi, professor adjunto do Departamento de Ginecologia da Unifesp. Mulheres com um bom sistema imunológico têm, em tese, mais chances de eliminar o vírus do corpo sem maiores danos à saúde.

Para aquelas mulheres que terão mais problemas com o vírus, a vacina se torna, portanto, um importante mecanismo de prevenção. Apesar de ser indicada em bula para mulheres com menos de 30 anos, a vacina pode ajudar na prevenção do câncer em mulheres de quaisquer idades. “Ela é eficiente ao extremo antes do início da vida sexual. Depois disso, a proteção cai, mas ainda está protegendo a mulher”, diz José Fochi.

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Brasil – De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), 25% das brasileiras têm o vírus do HPV. “Em casos nos quais é eliminado do corpo, o vírus pode ser expulso de maneira lenta. Por isso, é importante salientar que uma mulher que tem o HPV não vai necessariamente ter câncer”, diz Fochi. Segundo o médico, desde 1979, quando houve a primeira notificação, a mortalidade do câncer de colo de útero não sofreu alterações. “Ela é uma reta, não houve melhoras, não se morre menos.”

Um dos principais métodos preventivos, o exame papanicolau é desconhecido por 14% das brasileiras – apenas 53% das mulheres fazem o exame anualmente, a periodicidade indicada. De acordo com Newton Sérgio Carvalho, chefe do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná, a baixa adesão ao tratamento pode ser explicada pelo desconhecimento da importância do exame. “Uma pesquisa recente mostrou ainda que as mulheres relatavam não ter dinheiro para ir até os postos de saúde ou com quem deixar seus filhos durante o exame”, diz.

Outro problema pontual do Brasil é a falta de especialistas laboratoriais. Faltam citologistas, especialista que faz a análise das células colhidas durante o papanicolau, no país. De acordo com José Fochi, um levantamento apontou que seriam necessários aproximadamente 1.300 especialistas para suprir a demanda nacional. “Existem, no entanto, apenas 300 sócios na sociedade de citologia.”

Prevenção – Para tentar suprir a falta de informação sobre o câncer de colo de útero, a ABPTGIC lançou na noite desta segunda-feira a campanha “Mulheres Semeiam a Vida“. O intuito da iniciativa é conscientizar sobre a importância da prevenção do câncer, além de levar informação de qualidade às brasileiras. “A cada 25 likes que a página tiver no Facebook, plantaremos uma árvore”, diz Garibalde Mortoza Junior, presidente da ABPTGIC.

*O conteúdo destes vídeos é um serviço de informação e não pode substituir uma consulta médica. Em caso de problemas de saúde, procure um médico.