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‘Botox preventivo aos 25 anos é distopia; médico tem que saber dizer não’, diz Brandão, a ‘Rainha do Bisturi’

Em série da HBO Max, dermatologista atende lesões de pele complexas; a VEJA, ela comenta bastidores e critica banalização de procedimentos nas redes sociais

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 set 2026, 16h00 | Atualizado em 17 set 2026, 10h54
‘Botox preventivo aos 25 anos é distopia; médico tem que saber dizer não’, diz Brandão, a ‘Rainha do Bisturi’ Priorize VEJA no Google

De inflamações severas a deformidades causadas por câncer de pele, os casos que mais marcaram a rotina da dermatologista e cirurgiã dermatológica Carol Brandão envolvem pacientes que tiveram a vida profundamente afetada pelas lesões. Um deles é um jovem que tinha um tumor grande na pele, motivo de chacota e olhares estranhos na escola. A cirurgia para a retirada da lesão devolveu a vontade de frequentar o ambiente escolar, e o menino voltou a ter qualidade de vida, assim como sua mãe, que acompanhava de perto o sofrimento do filho.

O caso está entre os que são apresentados na série ‘A Rainha do Bisturi‘, que estreou na quinta-feira, 10, na HBO Max, na qual a médica acompanha histórias complexas de pacientes com lesões de pele que impactam não apenas a saúde, mas também o bem-estar emocional.

Para Brandão, o cenário contrasta com uma tendência recente observada nas redes sociais: jovens buscando, cada vez mais cedo, procedimentos estéticos controversos, como o famoso “botox preventivo“.

A médica diz que há uma fronteira entre tratar uma doença e atender a um desejo estético. Os pacientes da série convivem, em sua maioria, com condições graves que exigem tratamento e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos de alta complexidade. É o caso também de uma mulher de 43 anos com câncer localizado na ponta do nariz, região que exige grande precisão durante a cirurgia. 

A câmera acompanha os atendimentos e os procedimentos indicados pela equipe, além da recuperação de cada paciente, mostrando como essas condições também afetam a rotina e a autoestima de cada um. Todos os casos são reais e foram selecionados a partir de um anúncio feito pela médica em um grupo de colegas da área, para os quais ela havia dado aulas de dermatologia em uma plataforma de ensino.

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Junto à produção da série, que descobriu Brandão por meio de suas redes sociais, onde ela tem mais de 30 mil seguidores, foram encontradas pessoas que buscavam tratamento para suas condições dermatológicas.

Um cenário bem diferente do observado entre jovens de 25 anos ou menos que buscam aplicações de toxina botulínica ou lifting facial. Para Brandão, a precocidade dessa busca chega a ser uma “distopia”.

“Como médica, tenho muitas ressalvas e dificuldade de enxergar isso e não me posicionar contra”, diz ela. “Claro que a gente quer envelhecer bem e tem várias formas de você fazer isso, mas existe um limite muito tênue que passa pela mão do injetor, do cirurgião, da pessoa que vai cuidar. E, às vezes, é preciso olhar para essa pessoa de uma forma muito mais profunda e saber dizer ‘não’ e botar limites”, afirma.

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A dermatologista reconhece que procedimentos estéticos também podem ter efeitos que vão muito além da aparência. “Às vezes, diminuir a mama de uma mulher que tem uma mama volumosa e que não usa uma roupa por causa disso é algo que vai melhorar a vida dela não só na estética”, comenta.

Para Brandão, porém, cada demanda levada ao consultório carrega camadas nem sempre visíveis, inclusive emocionais, que devem ser levadas em consideração para que médico e paciente decidam, juntos, a melhor opção de tratamento.

A dermatologista defende a escuta como ferramenta fundamental para exercer a medicina, profissão que ela herdou do pai e do avô obstetras. “Tem estudos que falam que o médico interrompe um paciente depois de ele ter falado 11 segundos. É impossível ouvir uma pessoa que tem algum problema em 11 segundos”, diz.

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Além da série, a parceria com a HBO Max terá uma extensão no YouTube, com vídeos curtos sobre mitos e dúvidas relacionadas à dermatologia, entre eles o “botox preventivo”. Os episódios devem ser publicados aos sábados. Veja abaixo a íntegra da entrevista com Carol Brandão, de ‘A Rainha do Bisturi’, que também está disponível no canal Discovery Home & Health.

VEJA: Na série, você trata casos complexos que vão desde inflamações severas a deformidades causadas por câncer de pele. Esses casos são todos reais? Como esses pacientes foram encontrados?

Carol Brandão: Sim, os casos são todos reais. Antes de ser chamada para apresentar a série, eu tive uma plataforma de ensino de coisas muito básicas da dermatologia, como dar ponto, fazer curativo…Então, por também ser professora de dermatologia, tenho uma rede de contatos grande na comunidade médica. E aí, no dia 5 de agosto de 2025, a gente soltou essa informação de que seria gravada a série e eu divulguei junto à essa comunidade, para que a gente pudesse saber casos de outros colegas, de pessoas que tinham situações como essas que você descreveu e que queriam ser tratadas. 

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VEJA: Como foi a experiência de participar da série? Qual foi o caso que mais te marcou?

Carol Brandão: Foi minha primeira vez gravando uma série. Eu vim dessa plataforma de ensino que eu tive durante três anos, tempo em que passei gravando e falando para outros médicos, e eu sempre percebia muito que, na gravação dos meus cursos, era tudo na minha mão. Então, a série abriu esse cenário: começaram a aparecer eu e as pessoas, então foi desafiador, claro.

O caso que foi mais forte para mim, porque eu sou mãe de duas crianças, foi a de um rapaz, que é um adulto jovem que tinha uma lesão, um tumor benigno, mas que causava um prejuízo estético muito grande para ir para a escola, as pessoas ficavam apontando…A gente teve que fazer toda uma preparação, porque ele já tinha sido operado outras vezes, e ele estava com medo da agulha e da anestesia.

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Então, teve toda uma relação ali que a gente teve que construir para que ele, na câmera, ficasse calmo com a anestesia e conseguisse resolver toda a situação. Tive que fazer uma preparação grande, porque era um tumor que podia sangrar muito, tive que estudar bastante o caso para saber como a gente ia resolver aquilo e, no final, deu tudo certo. É muito legal você poder ser essa pessoa que ajuda outras pessoas a viverem melhor. Digo ‘pessoas’, no plural, porque não foi só ele, a mãe dele também ficou muito realizada com tudo, por exemplo.

Mulher de cabelos castanhos ondulados e óculos redondos roxos, sorrindo abertamente com a boca escancarada, em um ambiente interno com fundo desfocado
Condições e lesões de pele: a dermatologista Carol Brandão acompanha pacientes desde o diagnóstico até a recuperação (HBO Max/Divulgação)

VEJA: Você diz que a medicina está no seu sangue. Seu avô era médico, enquanto sua avó era costureira. Que influência seu avô médico teve na sua escolha profissional e o que você herdou da sua avó costureira?

Carol Brandão: O meu avô era médico e o papai também, meu pai e meu avô eram obstetras. Eu entrei na faculdade com 17 e comecei a trabalhar com meu pai quando fiz 18. A medicina foi quase automática, porque eu vivia muito naquele universo; estava quase que convidada a fazer medicina. 

Eu sou de uma família em que o meu avô e minha avó só tiveram três filhos homens, que só tiveram filhos homens, então eu sou a única mulher. Por isso, eu era muito próxima dessa minha avó, que costurava em casa, de brincadeira, mas sempre me deu essas aulas muito femininas. Eu carrego comigo essa oportunidade da vida, que eu considero que as mulheres tiveram dentro da própria história. Hoje em dia, as mulheres estão cada vez mais na medicina, e eu acho que é uma grande oportunidade para mim ter trazido um pouco do que eu aprendi com a minha avó, uma certa delicadeza na profissão voltada ao cuidado de pessoas.

VEJA: Plástica e estética são duas palavras que têm uma associação quase automática na cabeça da maioria das pessoas. Em que momento uma cirurgia plástica deixa de ser apenas uma questão de aparência?

Carol Brandão: O que a gente está vendo nas telas das redes sociais e que todo mundo nos leva a achar é que a estética é algo muito superficial e que é só um desejo. Eu não concordo com isso. Às vezes, até mesmo para uma mulher que tem uma mama volumosa e que não usa uma roupa por causa disso, diminuir a mama dela é algo que vai melhorar a vida dessa mulher, não só na estética. É muito mais do que isso.

Então, eu acho que os profissionais médicos que são dedicados a essa parte humana e profunda da vida das pessoas, seja na estética, seja na dermatologia, que é a minha área, têm que ter esse olhar. Eu me sinto realizada ao fazer isso, porque o que a gente recupera vai muito mais profundo do que aquilo que está aparente. E sim, às vezes, um bem-estar, uma forma de se sentir mais segura, de usar uma roupa ou de sair na rua e por aí vai. Então, abre um leque de possibilidades. 

VEJA: Existe uma fronteira entre tratar uma doença e atender a um desejo estético? Como você estabelece esse limite com o paciente?

Carol Brandão: Existe muito e é difícil. Eu acho que, quando a gente assume uma postura como profissional, isso acaba te ajudando, porque o público acaba sendo selecionado pela forma como você ou fala ou aparenta.

Então, eu, por exemplo, tenho poucas pacientes que têm esse desejo estético mais superficial e que chegam com essa coisa muito frívola da estética. Por uma questão de posicionamento mesmo. Claro que é uma coisa que a gente sabe que acontece, que tem muito isso. Eu considero um grande desafio, porque, às vezes, a gente sabe que um paciente que vem por um desejo estético tem outros problemas muito mais profundos.

Então, não é fácil ser essa pessoa que, às vezes, quer acessar outras coisas desse paciente e o paciente também não quer falar sobre isso. E está tudo bem, porque a gente também não pode forçar as coisas. Mas ter a oportunidade de ser essa pessoa que vê essas queixas e pode tocar em alguns pontos faz parte da medicina, que é muito maior do que a dermatologia, do que a cirurgia plástica. E é justamente essa comunhão que acaba nos fazendo um profissional melhor: você poder, às vezes, dizer um não; dizer: ‘olha, e se a gente olhar por outro lado?’. É difícil, mas é o que a nossa profissão nos pede.

Uma mulher de blusa listrada e calça jeans deitada em uma cadeira reclinável, com a mão na testa, enquanto uma médica de óculos e uniforme azul se inclina para conversar com ela em um consultório
Bisturi: câmera acompanha os atendimentos e os procedimentos indicados pela equipe, incluindo cirurgias (HBO Max/Divulgação)

VEJA: As redes sociais mudaram a relação das pessoas com a própria aparência. Você acha que elas aumentaram a demanda por cirurgias dermatológicas?

Carol Brandão: Eu acho que as redes sociais aumentaram a demanda por absolutamente tudo, porque a gente está muito mais suscetível a se ver e ver a vida dos outros: o que a pessoa está aparentando, vestindo, para onde está viajando…

Então, certamente, a gente vai olhar para frente, daqui a 150 anos, e enxergar as redes como algo que mudou a nossa sociedade como um todo. A gente vive muito essa fase de se olhar muito, olhar muitos outros e por aí vai. A gente ainda não sabe, porque estamos no meio do processo, tudo que isso vai acarretar, mas a gente já tem algumas coisas positivas, como mulheres se cuidando e ficando cada vez mais com um aspecto bom ao longo do tempo.

Mas a gente também tem as coisas negativas, que são pessoas se injetando demais, até com dificuldade, às vezes, de se reconhecer, e a gente já até caminha um pouco para as pessoas querendo tirar alguns procedimentos. Então, para a gente ver como o tempo está realmente passando e as tendências estão mudando. 

VEJA: Há algum procedimento ou tendência estética que você considera estar sendo banalizado?

Carol Brandão: Olha, a coisa que eu mais vejo estar banalizado é a idade com que as pessoas estão considerando se tratar, como a tal ‘toxina botulínica preventiva’. Inclusive, a gente vai lançar uma web série junto com a série sobre mitos e dúvidas que as pessoas têm em relação à dermatologia, e em um dos vídeos eu comento essa fama de mulheres que dizem: “Ah, eu tenho 25 anos, vou fazer botox preventivo”. Então, você imagina uma pessoa de 25 anos querer fazer um tratamento para ruga…Isso já faz parte dessa vida que a gente vive vendo os outros.

Tem também uma moda de lifting facial em pessoas cada vez mais jovens. É uma distopia. Eu, como médica, tenho muitas ressalvas e tenho muita dificuldade de enxergar isso e não me posicionar contra, e mostrar que o processo de envelhecimento, na verdade, a gente quer envelhecer, porque se a gente não envelhecer, a outra outra opção é pior.

Claro que a gente quer envelhecer bem e tem várias formas de você fazer isso, mas existe um limite muito tênue que passa pela mão do injetor, do cirurgião, da pessoa que vai cuidar. E, às vezes, é preciso olhar para essa pessoa de uma forma muito mais profunda e saber dizer “não” e saber botar limites.

VEJA: No trailer você diz que, desde muito cedo, aprendeu que curar não é só tratar o corpo, mas também a mente e o que existe de mais profundo em cada pessoa. Como você faz isso na prática?

Carol Brandão: Ouvindo os pacientes. Alguns estudos falam que o médico interrompe um paciente depois de ele ter falado apenas 11 segundos. É impossível você ouvir uma pessoa que tem algum problema em 11 segundos. Então, acho que a medicina verdadeira, raiz,  é sobre você saber que uma pessoa, quando busca o teu cuidado, aquilo é só um pedacinho, tem muita coisa atrás, tem uma bagagem…E faz parte da medicina você ser essa pessoa que está ouvindo. Às vezes, eu atendo um paciente que diz assim: “Nossa, mas eu nem me lembrava que eu falei isso para você”.

Então, eu realmente pratico, busco me cuidar para eu poder ser essa pessoa que vai ouvir, às vezes a pessoa nem imagina que ela vai me falar e que aquilo vai ter alguma coisa a ver com o que ela está me trazendo. Eu acho que essa parte do exame que a gente pode fazer das pessoas, escutar o que trouxe aquela pessoa até ali e como eu posso ajudar vai muito além da queixa. 

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