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Bolsonaro: os cinco erros em relação à ciência no discurso de Chapecó

Presidente esteve na cidade catarinense e fez grande defesa do tratamento precoce contra a Covid-19 entre outros tipos de condutas médicas

Por Mariana Rosário Atualizado em 7 abr 2021, 21h47 - Publicado em 7 abr 2021, 19h31

Nesta quarta-feira, 7, o presidente Jair Bolsonaro  ao longo de um discurso feito em viagem à cidade de Chapecó, em Santa Catarina, defendeu, mais uma vez, o tratamento precoce contra a Covid-19. O município — considerado “modelo” na lida contra à pandemia, de acordo com o presidente — teve neste abril ocupação de 100% das UTIs em decorrência do novo coronavírus. Em discurso data de hoje, ao defender seu posicionamento que, reafirme-se, não conta com lastro na ciência, Bolsonaro falou de outras doenças como a AIDS e a hanseníase. Nas declarações, o presidente cometeu ao menos cinco equívocos ao falar sobre o trabalho da ciência. VEJA selecionou os trechos, confira:

“Se um paciente tem uma certa doença e não tem um remédio específico comprovado cientificamente tem que buscar uma alternativa. Na guerra do Pacífico, o soldado chegava ferido e não tinha sangue para transfusão começou ali a injetar água de coco na veia do ferido e deu certo. É uma realidade ou não é?”

Em guerras antigas, época de pouco conhecimento científico, apostava-se em qualquer tipo de socorro emergencial, inclusive transfusões perigosas. Hoje não. Neste momento da pandemia já está comprovado que os tratamentos precoces não funcionam. Esse entendimento foi compartilhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No último dia 1º de março, a entidade desaconselhou o uso da hidroxicloroquina de modo preventivo em acordo com anúncios anteriores que desestimulavam o uso do medicamento como forma de tratamento contra à infecção.

“Na época de Cristo, quando ele nasceu, o grande mal daquele momento era a lepra. O leproso era isolado. Distancia dele. Hoje em dia temos lepra também, continua. Mas o mundo não acabou naquele momento”

Não é possível fazer uma comparação cabível entre a Covid-19 e a hanseníase — nome também dado à enfermidade que foi conhecida como lepra. “O contágio das doenças se dá de forma absolutamente diferente. No caso da hanseníase, é preciso contato prolongado e íntimo com a pessoa doente e, em alguns casos, a pessoa acaba tendo resistência à bactéria causadora. No caso da Covid-19 a transmissão é muito mais rápida e se dá sem contato íntimo”, diz a médica Luciana Conrado, da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Portanto, diante dessa forma de transmissão, não há como imaginar uma pandemia de lepra sendo causada pela circulação e aglomeração de pessoas. Com a Covid-19, essa é a realidade.

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“O que se usava para combater a AIDS, o coquetel de AZT, era comprovado cientificamente? Não. (…)  Por que que não se combateu também, porque era o HIV mais voltado para uma classe específica, que tinham comportamentos sexuais diferenciais e também se contra via compartilhamento de agulhas. E ninguém foi contra. Isso foi ou não algo off-label.”

Diferente do que sugere o presidente Bolsonaro, houve, sim, esforços científicos para que se comprovasse a eficácia e segurança do medicamento AZT diante da epidemia de AIDS. Em seus primeiros usos, ele ainda não havia sido autorizado pela Food and Drug Administration (FDA), mas suas aplicações legais se deram no âmbito de testes para analisar sua eficiência no decorrer da epidemia da infecção. Por conta da demora das etapas de estudos e aprovação, porém, algumas pessoas tentavam obter o produto de maneira clandestina, comprando em outros países. Os indicativos da época eram de que o medicamento era promissor, em processo de evolução, mas muito tóxico. E, por isso, os estudos foram prolongados. Não houve, nesse cenário, um incentivo de que a população em massa utilizasse um medicamento comprovadamente ineficaz, como é o caso da hidroxicloroquina. Um dos grandes especialistas por trás desses estudos do AZT foi o médico Anthony Fauci, coordenador da resposta dos Estados Unidos à Covid-19. Ressalvando-se ser um antiviral, e mesmo para Covid-19 antivirais têm utilidade já estudada e aceita.

“Não tem vacina hoje em dia para todo mundo. Na África não existe nada. Existe ivermectina para combate as cegueiras do rio, combater outras coisas. Junto com a Hidroxicloroquina para combater a malária”

Ainda que a oferta de vacinas seja, sim, escassa, o Brasil chegou a embarreirar compras de imunizantes contra a Covid-19 em mais de uma ocasião. Conforme VEJA divulgou, uma carta do presidente da Pfizer oferecendo 70 milhões de doses do antígeno em 2020 nunca foi respondida e, em um primeiro momento, até a intenção de compra da vacina CoronaVac — a mais usada no país desde janeiro — chegou a ser suspensa. Além disso, o uso de hidroxicloroquina para malária foi estudado e aceito, mas para Covid-19, comprovadamente, não funciona. A ivermectina tampouco conta com evidências robustas de que funcione e esse raciocínio foi ratificado pela produtora do medicamento, a farmacêutica Merck, em comunicado em fevereiro deste ano.

“Eu prometo não falar em Proxalutamida porque se eu falar já vai ser criminalizada a partir de agora”

A proxalutamida é um remédio usado no tratamento de alguns tipos de câncer. Os dados sobre o uso do remédio em relação à infecção respeito a um estudo divulgado ao longo de vídeo transmitido ao vivo no qual foi dito que a droga teria mais de 90% de eficácia. O trabalho foi feito pelo grupo hospitalar brasileiro Samel, de Manaus. A análise, porém, ainda não foi publicada em revista científica, nem revisada pelos pares, ou seja, por outros especialistas médicos. Ainda são necessárias mais informações para que se compreenda melhor a eficácia contra a Covid-19. Considerá-lo um tipo de bala de prata ou tratamento vitorioso para a doença é extremamente precipitado.

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