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As fake news mais preocupantes sobre as vacinas contra a Covid-19

A imunidade dura pouco? Os fármacos podem provocar outras doenças? VEJA explica por que algumas informações que circulam nas redes são perigosas

Por Giulia Vidale 19 dez 2020, 18h40

As primeiras vacinas contra a Covid-19 estão sendo aprovadas por agências regulatórias renomadas e em diversos países. Isso significa que a contagem regressiva para dias melhores já começou. Ao mesmo tempo, esse progresso inédito da ciência tem sido vergonhosamente ameaçado pelo compartilhamento de notícias falsas que colocam em xeque a confiança da população na segurança das doses.

A pandemia de coronavírus só será controlada quando uma grande parcela da população – acima de 70% – estiver imunizada contra a doença. Isso depende diretamente da adesão da população à vacina.

Uma das grandes dificuldades para definir se as notícias são fake news ou não é o fato de ser comum esses falsos compartilhamentos misturarem informações reais com afirmações falsas. Em outras palavras, as fake news se sofisticaram e aumentaram seu alcance. O dano desse tipo de informação para a saúde pode ser tão grande que a Organização Mundial da Saúde (OMS) batizou essa nova características das notícias falsas de “infodemia”.

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    Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) descobriu que “as notícias falsas se propagam mais rapidamente no Twitter que as reais”. A razão, informam os pesquisadores, é que as fabulações inspiram sentimentos fortes como surpresa, pavor e nojo — atraentes e curiosos demais para ser negligenciados.

    Para conter contrassensos desse quilate, especialmente depois da eclosão da nova cepa do coronavírus, a OMS criou um grupo de trabalho, o EPI-WIN (acrônimo, em inglês, de WHO Information Network for Epidemics), destinado a frear a engrenagem enganadora. Há solução? “Precisamos de uma vacina contra a desinformação”, afirma Mike Ryan, chefe dos serviços de emergência da OMS.

    Abaixo, VEJA destaca as principais notícias falsas e explica o por que as alegações não procedem. Confira.

    Vacinas alteram o DNA

    Circulam nas redes sociais boatos de que as vacinas contra Covid-19, em especial as genéticas, alteram o DNA. A teoria teve origem em uma declaração da osteopata americana Carrie Madej, que afirmou em um vídeo na internet que “esta tecnologia vai criar uma nova espécie e, talvez, destrua a nossa”. Entretanto, a alegação é completamente sem fundamento. Em relação às vacinas de RNAm, como a da parceria Pfizer-BioNTech e a da Moderna, especialistas afirmam que este tipo de vacina não é capaz de modificar nosso material genético porque a substância não chega ao núcleo da célula, onde fica o DNA. Elas são metabolizadas pelo nosso organismo fora do núcleo da célula, no citoplasma. Já as vacinas de DNA entram no núcleo da célula humana, mas também não são capazes de alterar o DNA porque o plasmídeo, molécula que entrega o fragmento de DNA que codifica para a proteína Spike do coronavírus, não é capaz de se integrar ao DNA humano. De qualquer forma, essa possibilidade teórica de integração é rigorosamente testada em estudos pré-clínicos, realizados em animais. Desde a década de 1990 esse tipo de vacina já foi utilizado para tratar uma variedade de doenças, incluindo alergias, doenças autoimunes e câncer.

    A vacina da Covid-19 contém chips implantados para controle das pessoas

    Uma teoria da conspiração afirma que a pandemia do novo coronavírus não passa de um plano de Bill Gates para possibilitar a implantação de microchips rastreáveis nas pessoas. Para começar, as vacinas não possuem microchips e não há qualquer evidência de que o fundador da Microsoft tenha qualquer intenção semelhante. Os rumores surgiram em março, quando o fundador da Microsoft mencionou em uma entrevista que, no futuro, existiram “certificados digitais” que mostrariam quem se recuperou, foi testado e recebeu a vacina. Em nenhum momento, Gates menciona microchips ou qualquer tipo de dispositivo de controle injetado no corpo, muito menos que isso possa acontecer por meio de uma vacina. Também circulam mensagens afirmando que a vacina “chinesa”  contra a Covid-19 contêm microchips que recebem sinais 5G, e permitem o controle externo do corpo humano. Primeiro, não há nenhuma vacina em desenvolvimento que contém qualquer tipo de microchip. Segundo, não é possível controlar pessoas através de microchips usando a tecnologia 5G.

    A vacina CoronaVac não é segura simplesmente porque é chinesa

    Desde a divulgação de que a fase 3 de testes clínicos da vacina chinesa CoronaVac seria realizada no Brasil, produzida em parceria com o Instituto Butantan e aplicada na população brasileira, as redes sociais foram inundadas com alegações infundadas de que a vacina não seria segura simplesmente por ser chinesa. A segurança e eficácia da vacina foram colocadas em xeque inclusive pelo presidente Jair Bolsonaro. Há também um vídeo do pediatra e diretor médico e chefe do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo, Anthony Wong, com fatos distorcidos sobre efeitos colaterais da vacina. O médico afirma que a taxa de incidência de efeitos adversos de 5,37% da CoronaVac é “inadmissível”. No entanto, a taxa de segurança relatada no estudo é aceitável e é similar à de outras vacinas eficazes. Além disso, as reações adversas relatadas foram leves e passageiras, como dor no local de aplicação, febre moderada e perda de apetite. A vacina também foi desenvolvida sob o rigoroso protocolo internacional de condução de estudos clínicos exigidos para a aprovação de vacinas. Logo, se ela for aprovada, significa que ela é não só eficaz, mas principalmente segura para ser usada na população.

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    A vacina pode causar outras doenças, como autismo ou doenças autoimunes

    Mensagens nas redes sociais afirmam que as vacinas de mRNA, como a da Pfizer/BioNTech, podem causar doenças autoimunes. Outras, afirmam que vacinas em geral causam autismo. Nada disso é verdade. As vacinas são um marco na história da humanidade. Graças a elas foi possível erradicar a varíola e controlar doenças que causam milhões de mortes anualmente, como poliomielite e sarampo. A segurança é o ponto fundamental para a aprovação de qualquer vacina, já que elas são aplicadas em pessoas saudáveis para prevenir – e não para tratar – doenças. Portanto, as vacinas não causam doenças. Exceto em raros casos, quando as vacinas que usam vírus atenuado podem causar sintomas similares ao da doença que foi destinada a combater. A crença na teoria de que vacinas causam autismo são uma prova de como rumores podem ser destruidores e duradouros. Em 1998 o médico charlatão britânico Andrew Wakefield, inventou uma conexão entre a vacina tríplice (rubéola, caxumba e sarampo) e o autismo em crianças. O absurdo foi denunciado e Wakefield, proibido de usar seu diploma. No entanto, a bobagem se espraiou e assombra as vacinas até hoje. A repercussão iniciou e alimenta até hoje o criminoso movimento antivacinas.

    Vacina causa infertilidade em mulheres

    Viralizou nas redes sociais uma mensagem afirmando que a vacina da Pfizer em parceria com a alemã BioNTech causa infertilidade em mulheres. Segundo o texto, uma resposta imunológica contra a proteína spike poderia levar à infertilidade em mulheres por um período não especificado. A proteína spike é a estrutura usada pelo novo coronavírus para invadir as células humanas e nada tem a ver com a fertilidade humana ou com a capacidade de afetar o desenvolvimento de uma gestação.

    Vacinas são derivadas de células de fetos abortados

    Circula pelas redes sociais um vídeo que alerta para possibilidade de vacinas derivadas de células fetais. Além disso, essas vacinas também causariam modificações na composição genética das pessoas. De fato, na história da humanidade algumas vacinas continham vírus atenuados ou inativados que foram cultivados em células fetais humanas. Porém, fetos abortados nunca fizeram e não fazem parte da composição de nenhuma vacina. Não se usam fetos abortados nesse processo, as células humanas fetais, como a HEK-293, são cópias de células imortalizadas de um tecido coletado em 1972. Hoje, as células usadas na produção de algumas vacinas não são mais as mesmas das originais, o tecido coletado em 1972 deu origem a outras gerações, que são chamadas de células imortalizadas, são replicadas apenas in vitro, sendo usadas na produção do agente infeccioso. Essas células são utilizadas na produção dos vetores virais de vacinas, como os adenovírus modificados.

    A vacina contra a Covid-19 tem que ter pelo menos 90% de eficácia para ser aprovada

    A taxa mínima de eficácia de um imunizante contra a Covid-19 é outro alvo de boatos. Em situações comuns, órgãos internacionais e agências reguladoras nacionais exigem que as vacinas apresentem uma alta eficácia para serem aprovadas – mínimo 70% a 80%, dependendo do caso. Mas, diante de uma pandemia, chegou-se ao consenso de que uma vacina com uma eficácia mais baixa já seria capaz de trazer algum alento e ajudar a controlar a situação. Assim, órgãos como a OMS e a FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, definiram que uma vacina contra a Covid-19 precisa ter uma eficácia mínima de 50% comprovada para ser aprovada.

    A imunidade conferida pelas vacinas contra a Covid-19 dura pouco

    O tempo de duração da imunidade gerada pelas vacinas contra Covid-19 e a possibilidade da pessoa contrair a doença, mesmo vacinada, também são pontos divulgados massivamente por quem busca desencorajar a população a se vacinar. De fato, a duração da imunidade gerada pela vacina é um ponto ainda desconhecido. Isso acontece porque essa é uma resposta que só aparece com o tempo, então é preciso esperar a continuação dos testes clínicos. De qualquer formas, as empresas à frente do desenvolvimento das vacinas esperam que a imunidade dure pelo menos um ano. A estimativa é baseada na experiência com coronavírus anteriores, como o Sars. Em relação à possibilidade de pegar a doença, isso de fato existe. A vacina que mostrou maior eficácia até o momento é a da Pfizer/BioNTech, com uma taxa de 95%. Isso significa que a cada 100 pessoas que tomaram a vacina, apenas cinco desenvolveram a doença. Logo, por mais baixo que seja, de fato, existe um risco.

    Neste sábado, 19, o Brasil registrou uma média móvel de 45.797,3 novos casos e 726 mortes pela Covid-19.

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