Aplicativos de namoro se tornam ‘terreno fértil’ para predadores sexuais
Estupros após contatos iniciados nas plataformas estão se tornando numerosos, mais violentos e miram vítimas com doenças mentais
Não é segredo que os aplicativos de namoro são um sucesso, mas o ambiente virtual pode não ser totalmente seguro para os usuários. Novas pesquisas sugerem que predadores sexuais violentos estão usando esses apps como locais de caça para vítimas vulneráveis. No maior estudo desse tipo, uma equipe de enfermagem da Universidade Brigham Young (BYU) descobriu que 14% dos 1.968 estupros cometidos por conhecidos se iniciaram dentro dos aplicativos de namoro. Esses casos se destacaram de forma perturbadora: vítimas com doenças mentais e outras vulnerabilidades foram os principais alvos e os ataques foram significativamente mais violentos.
O estudo teve como base prontuários de exames médicos das vítimas de agressão sexual de 2017 a 2020 em Utah, nos Estados Unidos. “O que descobrimos é incrivelmente preocupante”, disse a professora de enfermagem da BYU, Julie Valentine. “Começamos a ver um aumento de vítimas relatando que foram estupradas depois de conhecer alguém em um aplicativo de namoro e queríamos saber se os estupros facilitados por meio de aplicativos de namoro diferiam de outros estupros por alguém conhecido. Eles são realmente muito diferentes.”
Pesquisas anteriores mostram que indivíduos com alguma doença mental são mais propensos a serem agredidos sexualmente. No estudo, 47% das vítimas de estupro praticado por alguém que não era usuário de apps de relacionamento tinham alguma doença mental. Entre as abusadas no primeiro encontro marcado por aplicativo, o índice foi de 60%.
“Em um aplicativo de namoro, as pessoas podem se moldar da maneira que quiserem para atrair vítimas vulneráveis. Aqueles com doenças mentais, como depressão, podem ser mais suscetíveis a um predador que pode, por exemplo, bajulá-los e persuadi-los a se encontrarem pessoalmente”, disse Valentine.
Estudantes universitários também eram mais propensos a serem vítimas de agressões facilitadas por aplicativos de namoro e vítimas do sexo masculino sofreram quase duas vezes mais agressões iniciadas no aplicativo de namoro do que fora.
De forma preocupante, as hostilidades são mais numerosas e mais violentas dentro do mundo virtual. Os ataques produziram mais ferimentos nas vítimas do que em outros estupros; um quarto das vítimas teve lesões nas mamas, por exemplo. Além disso, cerca de 33% das vítimas relataram ter sido estranguladas durante a agressão.
Os aplicativos de namoro são um “terreno fértil” para predadores em parte porque existem poucos meios para a vítima saber se a pessoa com quem está conversando é segura. “Antes, as pessoas se encontravam por meio de amigos em comum, no trabalho ou na escola, e havia um certo grau de verificação antes do encontro. Os aplicativos de namoro eliminaram completamente esse processo”, disse Valentine.
A medida de segurança atual em aplicativos de namoro – um conjunto escrito de diretrizes para encontros seguros – é inadequada, porque coloca o ônus da segurança nas vítimas em potencial, argumentam os pesquisadores. As vítimas podem se culpar por serem influenciadas por um predador a não seguir as diretrizes ao pé da letra e sua autoculpa pode dissuadi-las de denunciar o ataque. “As empresas de aplicativos de namoro podem aumentar a inteligência artificial para identificar os perpetradores, ter requisitos de identificação mais rígidos para os usuários, realizar pesquisas de histórico criminal sem custo adicional e se conectar com outras empresas para garantir que os perpetradores não fiquem apenas pulando de um aplicativo para outro.”, sugeriu Valentine.
Essas mudanças podem estar no horizonte. A equipe da BYU colaborou com empresas de aplicativos de namoro e legisladores para redigir um projeto de lei da Câmara de Utah patrocinado pela deputada Angela Romero, intitulada “Requisitos de segurança de namoro online”, para melhorar a segurança em aplicativos de namoro. Eles acreditam que o projeto de lei tem uma boa chance de passar durante a próxima sessão legislativa e esperam que outros estados sigam seu exemplo.







