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Anticorpos de lhama podem gerar terapia mais acessível contra a COVID-19

Pesquisa mostra que proteínas produzidas pelos animais neutralizam o vírus SARS-CoV-2 e poderiam ser aplicadas diretamente nas vias aéreas

Por Simone Blanes 23 set 2021, 16h55

Um anticorpo produzido pelas lhamas pode servir de base para um potente tratamento contra a Covid-19. É o que mostra uma pesquisa feita pelo Instituto Rosalind Franklin, na Inglaterra, sobre os nanocorpos – uma forma menor e mais simples de anticorpo produzido por lhamas e camelos – que, ao se conectarem com o vírus SARS-CoV-2, conseguem neutralizá-lo. De acordo com os cientistas do centro de pesquisa médica, as cadeias curtas dessas moléculas, que podem ser produzidas em grandes quantidades em laboratório, reduziram significativamente os sinais da doença ao serem introduzidas em animais infectados. “Os nanocorpos têm uma série de vantagens sobre os anticorpos humanos”, disse o professor Ray Owens, chefe de produção de proteínas da instituição e principal autor do estudo. “Eles são mais baratos de produzir e podem ser aplicados diretamente nas vias aéreas por meio de um nebulizador ou spray nasal. Portanto, podem ser administrados em casa pelo próprio paciente. Além da facilidade de uso, o tratamento chega diretamente ao local da infecção no trato respiratório”, completa.  Vale ressaltar que os anticorpos humanos têm sido um tratamento fundamental para casos graves durante a pandemia. Porém, normalmente precisam ser administrados por infusão endovenosa.

A equipe de pesquisa, cujas descobertas foram publicadas na revista Nature Communications, conseguiram extrair os nanocorpos de uma lhama chamada Fifi, que faz parte da unidade de produção de anticorpos da Universidade de Reading. Parte da proteína spike do SARS-CoV-2 – encontrada na parte externa do vírus e responsável pela ligação às células humanas para infectá-las – foi inoculada no animal. Fifi não ficou doente e teve seu sistema imunológico acionado, gerando nanocorpos que, combinados em três cadeias, apresentaram maior capacidade de ligação e consequente anulação do vírus. Em testes in vitro, os nanocorpos foram capazes de neutralizar as cepas originais do SARS-CoV-2 e a variante Alpha, identificada pela primeira vez em Kent, no Reino Unido. Uma quarta cadeia de nanocorpos neutralizou a variante Beta, encontrada pela primeira vez na África do Sul. Na etapa seguinte, com testes em cobaias, os nanocorpos continuaram a demonstrar eficácia. Após sete dias de inoculação, roedores infectados com SARS-CoV-2 apresentaram melhora significativa da doença, além de redução de carga viral nos seus pulmões e vias aéreas se comparados aqueles que permaneceram sem tratamento.

Esses resultados animam os cientistas, que já pensam em novos tratamentos. “Ter medicamentos que possam tratar a doença será muito importante, até porque nem todo o mundo está sendo vacinado na mesma velocidade”, afirma o professor James Naismith, diretor do Instituto Rosalind Franklin, que ajudou a liderar a pesquisa. O pesquisador disse ainda que se o tratamento mostrar-se de fato eficaz após os testes clínicos, representará uma opção acessível especialmente aos países mais pobres. “Eles são mais fáceis de produzir do que os anticorpos humanos e não precisam ser armazenados em câmaras frigoríficas”, disse.

A equipe de pesquisa, que incluiu cientistas das Universidades de Liverpool e de Oxford, além do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, espera obter financiamento para dar continuidade às pesquisas. Segundo o órgão público inglês, os nanocorpos estão entre os agentes neutralizantes de SARS-CoV-2 mais eficazes que o grupo já testou.

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