🔥 Mês do Cliente: Assine o Digital por R$ 5,99/mês e tenha conteúdo exclusivo na palma da sua mão!

Anabolizantes: em meio a mortes recorrentes, cresce o número de quem pede ajuda

Eles tentam vencer a dependência e se reabilitar física e mentalmente

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 25 jul 2026, 23h37
Anabolizantes: em meio a mortes recorrentes, cresce o número de quem pede ajuda Priorizar nos meus resultados Google

Nem a esposa nem o farmacêutico que lhe aplicava as injeções de esteroides deram crédito ao advogado José Luís Leite Vieira, de 53 anos, quando ele anunciou que ia parar de usar anabolizantes. O morador de Botucatu, no interior de São Paulo, convivia com aplicações dessas substâncias para turbinar os músculos havia duas décadas. Tudo começou, como de praxe, com a busca por resultados rápidos. E foi na academia que recebeu de colegas de malhação a sugestão de testar o “suco”, gíria que se refere a testosterona e outros hormônios sintéticos injetáveis. Vieira conta que, em questão de meses, ficou “seco e modelado”. Mas a transformação, impulsionada por drogas compradas clandestinamente, viria a cobrar um preço. Enquanto bíceps, peitoral e afins cresciam a olhos vistos, outro músculo se encorpava longe dos espelhos. Exames recentes revelaram que o advogado sofre de uma hipertrofia ventricular esquerda, quadro marcado pelo engrossamento da parede do coração e capaz de levá-lo à insuficiência. A “bomba”, que o fez gastar cerca de 50 000 reais pelas suas contas, ainda lhe rendeu um diagnóstico de hipertensão. Preocupado, Vieira recebeu o empurrão definitivo após mais uma tragédia envolvendo um fisiculturista e influenciador — desta vez, o carioca Gabriel Ganley, de 22 anos, que também tinha histórico de uso de hormônios e morreu em maio por insuficiência cardíaca. “Falei para mim mesmo: ‘Tenho família e filho pequeno para criar, agora já deu’”, contou Vieira a VEJA, sete dias depois de ter abandonado as agulhas e procurado um novo programa de apoio a usuários.

“A DROGA COBRA UM PREÇO” - O advogado José Vieira, de 53 anos, utilizou anabolizantes por duas décadas. Hoje, depois do diagnóstico de pressão alta e uma doença cardíaca, integra programa da Unifesp para largar os hormônios.
“A DROGA COBRA UM PREÇO” – O advogado José Vieira, de 53 anos, utilizou anabolizantes por duas décadas. Hoje, depois do diagnóstico de pressão alta e uma doença cardíaca, integra programa da Unifesp para largar os hormônios. (./Arquivo pessoal)

A iniciativa, criada em junho de 2026 pelo Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) sob a liderança do endocrinologista Clayton Macedo, se chama Saindo do Suco e atua como um circuito de “rehab” para quem quer largar a bomba. Não se trata de um passo singelo, a começar pela decisão de se livrar dos injetáveis. “Você vê resultado e não quer mais parar”, resume Vieira, que levava seus “bujões” de testosterona até em viagens, para não interromper os ciclos. “Esteroides chegam a causar dependência em até 60% dos casos”, estima Macedo. Dependência inclusive física, com sintomas de abstinência e agitação mental e motora. A missão do projeto encabeçado pelo especialista é ajudar usuários a interromper a administração de anabolizantes de forma gradual e segura, reduzindo os riscos associados à suspensão abrupta e as recaídas.

Gratuito e sigiloso, o programa Saindo do Suco já recebeu mais de 250 pedidos de atendimento de diferentes regiões do país — uma demanda que tem tudo para crescer e hoje já invade clínicas privadas. A análise de 110 formulários de pacientes, compartilhada com VEJA, traça um primeiro retrato de quem procura suporte. A idade média dos usuários é 37 anos, 98% deles são homens, e os principais motivos para se afastar das ampolas são a preocupação com o estado de saúde e o surgimento de efeitos adversos. Os problemas relatados espelham aquilo que os estudos já mostram, entre homens e até mulheres “bombados”: acne, queda de cabelo, pressão alta, alterações cardíacas, infertilidade, irritabilidade e ansiedade. A fila de pessoas tentando deixar os esteroides inclui médicos, advogados, professores, empresários, estudantes, bancários, policiais, motoristas e vendedores, um sinal de que o uso deixou de estar restrito a um nicho de fanáticos por academias e se espalhou por diferentes grupos sociais.

Continua após a publicidade
PARADA - Colapso cardíaco: risco drasticamente maior com o “suco”
PARADA - Colapso cardíaco: risco drasticamente maior com o “suco” (FG Trade Latin/Getty Images)

Ainda que a prescrição de anabolizantes para fins estéticos e de performance seja proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) desde 2023, o fato é que, alimentadas pelas redes sociais, a utilização e a combinação de testosterona, trembolona, oxandrolona e companhia deslancharam no país. Como são drogas obtidas por vias extraoficiais, não se tem um registro fidedigno do quadro geral. O que é evidente é o aumento na procura de médicos para lidar com as perigosas consequências dos esteroides, a exemplo de lesões no fígado, insuficiência renal e ataques cardíacos. “Três dos nossos pacientes tiveram um infarto de forma precoce para a idade”, relata Macedo.

Continua após a publicidade

Uma pesquisa dinamarquesa revela que anabolizantes podem triplicar o risco de infarto. De fato, problemas cardíacos frequentam o atestado de óbito de uma sequência de mortes recentes envolvendo fisiculturistas brasileiros. Além do jovem Ganley, ganharam a imprensa e as redes sociais os casos recentes de Edson da Silva Ferreira, 40, Wanderson da Silva Moreira, 30, e Mailson Araújo, 35. Em comum, o coração não suportou anos de estímulos detonados pelo “suco”. Embora os profissionais dos músculos sejam os alvos mais drásticos dos esteroides, o alerta ganha projeção entre outros públicos, inclusive homens e mulheres que injetam hormônios para trincar os músculos ou recuperar a vitalidade sem indicação médica. Segundo uma nova revisão de estudos publicada pelo grupo The Lancet, repor testosterona quando não há deficiência comprovada eleva exponencialmente o risco de ataque cardíaco, derrame e morte prematura. Sim, as aplicações podem ser letais, principalmente se o indivíduo já tiver fatores de risco.

Infográfico sobre os riscos dos esteroides, com um homem musculoso sem camisa e uma mulher musculosa de top camuflado e shorts pretos, ambos segurando halteres. Pontos amarelos com sinal de mais indicam os impactos no cérebro, coração, fígado, testículos e pernas do homem, e nas cordas vocais, rins e clitóris da mulher. O texto detalha as consequências do uso de anabolizantes, como aumento de risco cardiovascular e insuficiência cardíaca

Continua após a publicidade

Apesar da falta de dados epidemiológicos, os experts que acompanham o fenômeno apontam para uma crise de saúde pública que envolve vício e repercussões de curto e longo prazo. “O cenário é sombrio porque não temos uma estatística clara de quantas pessoas estão usando, mas os desfechos são graves e até imprevisíveis”, diz Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, que tem lançado campanhas de conscientização no país. “Às vezes, a morte ou sérias complicações surgem na primeira curva do rio, ou seja, não temos nem tempo de agir.” A ameaça, porém, vem do discurso que atravessa corredores de academia e até consultórios: a promessa sedutora de que “só um pouquinho” já traria ganhos e não faria mal. “Mas não existe dose segura nem intervalo de tempo de uso seguro”, afirma Dornelas.

Apesar dos alertas, no entanto, o canto da sereia sarada chega até a quem, em tese, deveria conhecer os riscos da prática. Em 2018, na tentativa de dar uma levantada no corpo após um divórcio e um quadro depressivo, o clínico geral Adriano Vendimiatti Cardoso, 47, decidiu recorrer aos anabolizantes. À época, recebeu o aval de um colega de jaleco que lhe garantiu “risco zero”. Com a prescrição de doses cavalares de hormônios, saltou de 69 para 86 quilos, a maior parte deles na forma de músculo. “Dá para pegar suas veias de olho fechado”, brincavam as enfermeiras no hospital onde o médico trabalhava. Tendo convivido com a obesidade em diversas fases da vida, Cardoso diz que se empolgou quando seu corpo virou objeto de elogios pela primeira vez. Dentro de casa, porém, sua atual esposa já notava outras mudanças, as comportamentais: “Ela falava que eu tinha me tornado insuportável”. Não é mera impressão. Pesquisas já associam esteroides a alterações cerebrais e psicológicas, com aumento da agressividade e da impulsividade. Essa foi uma das razões que levaram Cardoso a parar. Durante a pandemia de covid, temeroso de que impactos no humor e no raciocínio atrapalhassem sua conduta médica, bem como das complicações de uma eventual infecção, ele optou por largar os esteroides. E, um dia depois de ter pego o coronavírus, descobriu-se hipertenso. “O uso do anabolizante certamente antecipou meu diagnóstico”, diz o médico, que terá de se submeter a uma cirurgia para tratar o aumento das mamas, outro efeito colateral da bomba. “A conta chega depois”, enfatiza Cardoso, que hoje alerta seus mais de 323 000 seguidores nas redes sociais.

Continua após a publicidade
“NINGUÉM SABE O RISCO” - O médico Adriano Vendimiatti Cardoso, 47, conhecido nas redes sociais como Dr. Derrame, tornou-se hipertenso após os esteroides. “Ganhei um remédio de pressão para o resto da vida.”
“NINGUÉM SABE O RISCO” – O médico Adriano Vendimiatti Cardoso, 47, conhecido nas redes sociais como Dr. Derrame, tornou-se hipertenso após os esteroides. “Ganhei um remédio de pressão para o resto da vida.” (./Arquivo pessoal)

O tratamento para se livrar dos anabolizantes não segue uma receita-padrão. Seja em clínicas privadas, seja em programas públicos como o Saindo do Suco, a avaliação e o plano de ação são individualizados. Como os esteroides induzem o corpo a parar de fabricar testosterona, pode ser preciso tomar remédios que restabelecem a produção. O advogado Vieira, paciente do programa da Unifesp, foi orientado a seguir essa estratégia, repetindo exames periódicos, inclusive para o coração, e mantendo uma rotina de treino e dieta saudável. Outros ex-usuários também precisam de apoio psicológico e outras intervenções terapêuticas. “É preciso acolher essas pessoas sem preconceito”, conta Macedo. Auxiliado pelos especialistas, Vieira decidiu deixar de lado o “suco” e tem fé na medicina: “Estou com a convicção de que vai dar certo”. Pela primeira vez em muitos anos, sua busca deixou de ser por um corpo maior. Agora ele só quer um corpo que continue funcionando em paz.

Continua após a publicidade

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em amarelo e branco: O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos. Ao lado, um ícone de árvore verde-claraMão segurando um smartphone com tela exibindo um aplicativo de notícias e produtos. À esquerda, texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. Fundo verde escuro com ícone de árvore à direita
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).