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Americana consulta especialistas para inventar prótese que reduz a dor em amputados

Estudante inspirou-se no pai, veterano da Força Aérea americana, para criar solução contra dor em membros amputados

Por The New York Times 4 dez 2011, 12h02

É necessário ter conhecimentos técnicos avançados para se tornar um inventor? A história de Katherine Bomkamp prova que não. Bomkamp, 20 anos, teve a ideia por trás do Pain Free Socket, prótese que pretende reduzir a dor em membros fantasmas de amputados. O equipamento, agora aguardando a patente, funciona aplicando calor na articulação do amputado por meio de um “biofeedback” térmico. A teoria é de que, quando as terminações nervosas são aquecidas, o cérebro é forçado a se concentrar no calor em vez de enviar sinais ao membro ausente.

Estudante da West Virginia University, Bomkamp estava no colegial quando começou a trabalhar na invenção. Na época, ela não tinha conhecimento nenhum de engenharia química ou elétrica, essenciais para a criação do aparelho. “Era tudo estranho para mim. Eu não tinha interesse em engenharia antes disso”, afirmou Bomkamp, que fazia um curso técnico de justiça criminal durante o Ensino Médio em Maryland. Na faculdade, ela estuda ciência política e quer, no futuro, cursar a faculdade de direito.

Sua experiência mostra como ambição, persistência e uma grande dose de curiosidade podem estabelecer a base para conquistas revolucionárias, mesmo as tecnológicas. E também mostra que se apoiar na experiência e recursos dos outros costuma ser tão bom quanto ou melhor que fazer tudo sozinho.

Os políticos sabem disso. Líderes empresariais como Steve Jobs sabiam disso. E, mesmo assim, quando pensamos em inventores, vem à nossa mente uma alma solitária encolhida em um laboratório no porão durante semanas ou meses antes de surgir anunciando uma vitória conquistada sozinha.

As sementes do Pain Free Socket foram plantadas quando ela, filha de um veterano inválido da Força Aérea, teve de passar horas em salas de espera do Centro Médico Militar Walter Reed — hospital na Virgínia que já foi fechado — sentada entre soldados feridos que haviam voltado do Iraque e Afeganistão, muitos dos quais amputados.

“Eles me contavam suas histórias e sempre mencionavam a dor fantasma.” Ela começou a pesquisar o problema e descobriu que a “maioria dos amputados recebe antipsicóticos e barbitúricos, que são caros e têm uma taxa elevada de vício”. “Então quis ver se poderia eliminar a necessidade dessas drogas holisticamente.” Uma oportunidade de ir atrás da ideia surgiu quando o professor de química anunciou uma feira de ciências. Querendo “fazer algo significativo que impactasse a comunidade”, ela decidiu trabalhar num equipamento para tratar a dor fantasma.

“Meu processo de pensamento foi: quando estiro um músculo, aplico calor nele. Se eu aplicasse o mesmo conceito para tratar a dor fantasma, pensei que poderia funcionar.” O único problema era a execução. Não havia ninguém mais distante da definição de ‘geek’ de matemática ou ciências do que Bomkamp; não havia como ela conseguir sozinha. Assim, ela começou a enviar e-mails a professores de engenharia de universidades da área pedindo seu auxílio. “Todos foram muito receptivos. Todos me convidaram para ir trabalhar em seus laboratórios. Escolhi a Universidadede Maryland por ser a mais próxima de casa.”

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E assim, toda sexta-feira, ela faltava à escola — com autorização — e a mãe a levava à cidade de College Park. Lá, ela trabalhou com o professor Gilmer L. Blankenship no departamento de engenharia elétrica e computacional, e seu chefe de laboratório, Jay Renner. “Eles me ensinaram o elementar da engenharia elétrica — programação elétrica, transmissão de calor. Basicamente, tiveram de me ensinar tudo.”

Eles a ajudaram a construir um encaixe de prótese como primeiro protótipo; meias elétricas, do tipo usado por caçadores, serviram como fonte de calor do equipamento. Só que a engenharia era apenas metade da batalha. Bomkamp queria expandir a invenção e construir um membro prostético. Quem o construiria sem cobrar 15 mil dólares (cerca de 28 mil reais), o custo típico de um membro artificial?

Novamente, ela se valeu da pesquisa básica, imprimindo os nomes das empresas de prótese que encontrou no site da Amputee Coalition of America e fazendo telefonemas. “Muita gente desligava dizendo que não ia dar certo, que eu não passo de uma criança, que não devia perder o tempo deles.” Por fim, ela contatou Jake Godak, que na época trabalhava na Cascade, fornecedora de órteses e próteses de Chico, Califórnia, e que continua dando consultoria sobre o tema.

“Ele disse que poderia funcionar e construiu o encaixe e uma perna para mim. Ainda trabalho com ele.” No protótipo de segunda geração, os encaixes aquecidos foram substituídos por nervuras, e o sistema eletrônico permitia ao amputado controlar a temperatura do encaixe. O equipamento “parece ser um protótipo bastante promissor como uma das possíveis formas de os amputados lidarem com a dor fantasma”, disse Joe McTernan, diretor de códigos e reembolso, educação e programação da American Orthotic Prosthetic Association.

Na West Virginia University, Bomkamp granjeou um novo grupo de orientadores no programa de empreendedorismo da faculdade. Ela abriu uma empresa e está trabalhando nos protótipos de terceira e quarta geração. Eles terão placas eletrônicas menores e mais compactas, podendo ser controladas por celular.

Enquanto isso, ela fez um pedido de patente, e o aparelho será testado. Ela também está conversando com uma empresa nacional de próteses sobre licenciar os direitos para vender o equipamento, que deve ser aprovado pela Food and Drug Administration (organismo que controla alimentos e medicamentos nos Estados Unidos). Ela espera receber uma pequena porcentagem em royalties das vendas futuras. Tirando isso, ela é apenas uma universitária comum — ou quase.

“Sem dúvida nenhuma, não tenho a vida estudantil típica, mas ao mesmo tempo, tenho. Ainda me preocupo com as provas e em conseguir uma bolsa de estudos. Todavia, já sou uma CEO, tenho esse projeto e faço viagens de negócios. Eu me equilibro entre os dois lados.” E, sim, ela venceu a feira de ciências do colegial.

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