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América Latina terá 1,7 milhão de novos casos de câncer em 2030

Levantamento publicado em revista de medicina inglesa alerta para a necessidade de melhores programas de combate e controle da doença. Atualmente, são cerca de 1,3 milhão de novos casos por ano

Por Da Redação 26 abr 2013, 21h45

A América Latina corre o risco de perder o controle da crescente epidemia de câncer – e de quebrar seu sistema de saúde com os custos da doença. É o que aponta um relatório publicado em uma edição especial do periódico britânico The Lancet Oncology, lançada nesta sexta-feira durante a conferência do Grupo de Cooperação em Oncologia da América Latina (Lacog, sigla em inglês), que aconteceu em São Paulo. Estima-se que a incidência anual de novos casos de câncer na América Latina aumente em 33% (para cerca de 1,68 milhão de novos casos) em 2020 – atualmente, são cerca de 1,3 milhão de casos. “O problema será crítico para a sociedade, para o governo e terá custos provavelmente exorbitantes”, diz o oncologista Carlos Barrios, diretor do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, diretor do Lacog e um dos responsáveis pelo estudo.

Em 2030, os pesquisadores estimam que, além do 1,7 milhão de novos casos que serão diagnosticados na América Latina, o câncer também causará mais de 1 milhão de mortes. “Hoje, o câncer é a segunda maior causa de morte. No futuro, ele será a principal causa. Na América Latina, a doença é muito mais letal do que nos Estados Unidos e na Europa”, diz Paul Goss, professor de medicina da Universidade Harvard e coordenador do levantamento.

Mesmo com uma incidência menor de casos da doença, quando comparada aos países desenvolvidos, na América Latina ainda se morre mais da doença – são 13 mortes em cada 22 casos diagnosticados; nos Estados Unidos, o número de mortes é de 13 para cada 37 casos, na Europa, são 13 mortes para 30 casos. Essa diferença está na maneira como se olha a doença. Enquanto nos países desenvolvidos há melhores programas de prevenção e diagnóstico precoce da doença, na América Latina os casos são, em sua maioria, ainda diagnosticados nas fases terminais. Nos EUA, quase 60% dos casos têm diagnóstico no início da doença. No Brasil, por exemplo, esse número é de apenas 20%.

O baixo índice de diagnóstico precoce nos países da América Latina, dizem os pesquisadores, se deve ao descaso com a doença. “No Brasil, o trabalho é meramente cosmético”, diz Barrios. Em outras palavras, embora na região Sudeste ainda se tenha os melhores índices de tratamento da doença, as demais áreas do país estão desprovidas de acesso. “É preciso que se coloquem em prática programas que terão resultados em 15 anos. É uma decisão política e social, que não pode estar vinculada à sazonalidade eleitoral.” Em termos gerais, no entanto, os investimentos ainda estão muito abaixo daqueles feitos nos países desenvolvidos. Enquanto na América Latina são gastos 8 dólares per capita no primeiro ano após o diagnóstico, nos EUA o valor aumenta para 466 dólares.

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Investimento – “Os custos com o tratamento do câncer crescerão muito, acredito que exponencialmente, se nada for feito agora para conter o impacto crescente do câncer”, diz Barrios. Entre os principais pontos levantados pela pesquisa está a ampliação do acesso a toda a população – aumentar o investimento em regiões pobres, rurais, indígenas e afastadas. “No Sudeste, o câncer tem uma situação melhor até do que em outros países da América Latina. Mas e no resto do País, o que está sendo feito?”

Os pesquisadores salientam ainda que mais de metade da população (cerca de 320 milhões de pessoas) têm um seguro de saúde inadequado ou inexistente. “Os países da América Latina focaram seus investimentos em saúde na prevenção e no tratamento de doenças infecciosas. Já a aplicação de recursos em doenças não-infectocontagiosas, como o câncer, não aconteceu”, diz Paul Goss. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que, em 2030, dois terços das mortes por câncer devem acontecer em países em desenvolvimento.

Segundo o pesquisador, há ainda a questão do envelhecimento populacional. Por ser uma doença tipicamente da velhice, o câncer, por consequência, terá uma incidência maior no futuro – estima-se que, em 2020, mais de 100 milhões de pessoas na América Latina terão mais do que 60 anos. “A adoção em larga escala de estilos de vida similares aos de países desenvolvidos levará a um rápido crescimento do número de pacientes com câncer, um custo para o qual os países da América Latina não estão preparados”, diz Goss.

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