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Consumo pesado pode fazer tão mal ao cérebro quanto o alcoolismo

Beber grandes quantidades de álcool em um curto espaço de tempo pode causar graves danos cerebrais, sobretudo entre jovens

Por Marina Felix - Atualizado em 12 dez 2017, 11h25 - Publicado em 8 dez 2017, 19h13

Diversos estudos já mostraram como as implicações negativas que o álcool em excesso pode ter para os dependentes da substância. No entanto, o beber pesado episódico (BPE), também conhecido como padrão de consumo ‘binge drinking’, termo em inglês que representa um episódio no qual o indivíduo consome muito álcool de uma só vez – em apenas uma noite, por exemplo – também pode causar danos para o cérebro, principalmente entre os jovens.

Segundo um novo estudo publicado no periódico científico Frontiers in Behavioral Neuroscience, estudantes universitários não-dependentes do álcool, mas que costumam beber no padrão ‘binge’, podem ter a atividade cerebral associada ao processamento de informações elevado, o que representa dificuldade ou atraso na maturação neuronal.

Beber pesado episódico

O beber pesado episódico, de acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é alcançado quando, em um período de duas horas, homens consomem cinco ou mais doses de álcool e mulheres, quatro ou mais doses. Cada dose equivale a 285 ml de cerveja, 120 ml de vinho e, aproximadamente, 30 ml de destilado.

“O BPE é um padrão bem frequente, muita gente acaba bebendo grandes quantidades de álcool em um curto período de tempo numa sexta à noite ou em um fim de semana. Um padrão que acreditamos ser inocente foi apresentado como um fator importante para demonstrar alterações nocivas já na fase universitária”, explicou Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra e especialista em dependência química, fundador do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).

De acordo com o médico, além dos riscos apontados pelo estudo, esse padrão de consumo, apesar de não parecer negativo à primeira vista, pode deixar a pessoa mais vulnerável à agressividade e à intoxicação (overdose) e amnésia alcoólica.

O estudo

Pesquisadores da Universidade do Porto, em Portugal, analisaram 80 universitários espanhóis, que foram divididos em dois grupos – um que nunca havia bebido no padrão episódico (BPE) e outro em que os participantes haviam bebido, no mesmo padrão, pelo menos uma vez no mês anterior à pesquisa.

Os resultados na análise por eletroencefalograma, exame de monitoramento da atividade elétrica do cérebro, mostraram um aumento significativo da atividade regiões específicas do cérebro em repouso nos universitários do grupo BPE – áreas relacionadas à memória e ao processamento da visão –, similares aos resultados geralmente observados em dependentes do álcool.

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Cérebro em repouso

Esse padrão de consumo entre os jovens universitários já havia sido avaliado em outras pesquisas. No entanto, o recente estudo procurou investigar se haviam diferenças no processamento cerebral desses indivíduos em relação aos outros em repouso, ou seja, mesmo sem realizar nenhuma tarefa.

Os cientistas ainda não sabem se esses efeitos podem perdurar em longo prazo, questão que será investigada pela equipe na próxima fase de estudos.

Jovens e álcool

Nos Estados Unidos, estima-se que um em cada seis adultos tem o beber pesado episódico quatro vezes ao mês, consumindo, em média, oito doses por vez. No Brasil, de acordo com um levantamento, feito pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) e pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) da Faculdade de Medicina da USP, sobre o uso de álcool e outras drogas, nas 27 capitais brasileiras, um em cada quatro estudantes universitários tem esse tipo de comportamento.

“Às vezes, o jovem bebem antes de uma festa para já chegarem equilibrados, o tal do ‘esquenta’, mas acabam bebendo muito”, explicou o médico. “O BPE é um quadro comum em mais ou menos 25% dos universitários, de universidades públicas e particulares. Isso é preocupante porque o cérebro desses jovens ainda está em formação, levando em conta que muitos entram na universidade por volta dos 17, 18 anos. Esse cérebro em crescimento, ao receber doses consistentes de bebidas alcoólicas, tem sua maturação prejudicada, comprometendo a capacidade de raciocínio.”

Segundo Andrade, independente da quantidade e da frequência, o álcool pode causar (e mascarar) prejuízos tanto nas esferas escolar, social e familiar, quanto na psicológica. “Já não é mais uso social quando causa algum dano. A quantidade varia de pessoa para pessoa, mas quando o álcool é utilizado como muleta para outros problemas, ele deve ser encarado como nocivo.”

Na maioria das vezes, a percepção do uso excessivo do álcool vem das pessoas ao entorno, familiares e amigos, enquanto o própria indivíduo nega. “A negação ela faz parte do quadro clínico. O comum é negar, achar que bebe socialmente, que os amigos e a família exageram.”

Fase de mudanças

A passagem da adolescência para a vida adulta envolve diversas mudanças, principalmente entre os universitários, como a fuga do ambiente familiar, inserção em diferentes círculos de amizades, vida sexual ativa, expectativa em relação ao futuro profissional e a pressão acadêmica. “Em muitos casos, é como se o álcool fosse uma válvula de escape para essa fase de excessos, mesmo que seja naquele momento. Mas, claro, isso não resolve os dilemas que envolvem o início da vida adulta.”

Para o especialista, em um mundo pós-moderno, a necessidade de estar sempre conectado nas redes sociais e a enxurrada de informações que recebemos impedem que o indivíduo processe todas elas e aproveite o que está a sua volta. “Hoje os valores introjetados para os jovens são muito diferentes, existe a pressão estética e a pressão para ganhar dinheiro e ser melhor do que os outros. Existe também uma falta de ídolos, pessoas em que os jovens possam se projetar, uma sensação de desesperança. Alguns que já sofrem depressão veem no suicídio uma saída, onde o álcool pode servir como estímulo.”

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