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‘Adoçante natural’: níveis mais elevados de xilitol no sangue são associados a maior risco de infarto

Pesquisa com dados de cerca de 17 mil participantes foi apresentada durante Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia; cardiologista explica resultados

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 set 2026, 11h56 | Atualizado em 3 set 2026, 10h56
‘Adoçante natural’: níveis mais elevados de xilitol no sangue são associados a maior risco de infarto Priorizar nos meus resultados Google

Um tipo de adoçante natural comumente usado para substituir o açúcar, o xilitol foi associado a um risco maior de eventos cardiovasculares em estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, no último dia 28 de agosto, na Alemanha.

A pesquisa analisou dados de cerca de 17 mil participantes e descobriu que aqueles com níveis mais elevados dessa substância no sangue apresentaram um risco maior de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC) em comparação com aqueles que tinham níveis mais baixos.

Os dados da investigação vieram de duas grandes coortes prospectivas: o Estudo Longitudinal Canadense sobre Envelhecimento (CLSA) e a Investigação Prospectiva Europeia sobre Câncer (EPIC)-Norfolk. Na coorte canadense, durante aproximadamente seis anos de acompanhamento, quem tinha valores mais altos de xilitol no sangue teve um risco 57% maior de morte, infarto do miocárdio ou AVC, em comparação com aqueles com valores mais baixos.

Segundo os pesquisadores, a associação permaneceu mesmo após ajustes para fatores de risco cardiovasculares conhecidos, como idade, sexo, tabagismo, lipídios, diabetes e hipertensão. Já na EPIC-Norfolk, acompanhada por até 30 anos, a associação observada foi de 18%.

Em nota sobre o estudo, um membro do Comitê de Comunicação da Sociedade Europeia de Cardiologia afirmou que, apesar de os adoçantes artificiais serem amplamente aceitos pela sociedade moderna, o estudo indica que o xilitol pode ter “um efeito negativo a longo prazo na saúde cardiovascular da população em geral”. O xilitol é comumente usado em produtos como chiclete, pasta de dente, geleia, iogurte e sorvete.

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No entanto, ele destacou que o estudo é observacional, ou seja, demonstra uma associação consistente e levanta uma hipótese, mas não estabelece uma relação de causa e efeito entre o consumo de xilitol e os eventos cardiovasculares observados. “Como em todos os estudos observacionais, é difícil inferir causalidade, mas este trabalho demonstra a necessidade de mais estudos sobre este tema de grande importância social“, afirmou o cardiologista Dan Atar.

Por isso, não é correto afirmar que “consumir xilitol aumenta em 57% o risco de infarto ou AVC”. O que podemos dizer é que, nessa coorte, pessoas com os níveis sanguíneos mais elevados de xilitol apresentaram 57% mais eventos cardiovasculares do que aquelas com os níveis mais baixos.

“Para provar que o xilitol consumido causa mais infartos ou AVCs, precisaríamos de estudos de intervenção, idealmente ensaios clínicos randomizados, comparando de maneira controlada o consumo crônico de xilitol com uma alternativa adequada e acompanhando eventos cardiovasculares. Esse tipo de evidência ainda não está disponível“, esclarece a cardiologista Sarah Fagundes Grobe, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que não participou do estudo.

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Além disso, Grobe pondera que o estudo mediu o xilitol no sangue, e não a quantidade da substância que cada pessoa consumia na alimentação. A especialista afirma que isso é particularmente importante porque o xilitol não vem apenas da dieta. Ele também é produzido naturalmente pelo próprio organismo, como parte do metabolismo da glicose.

Portanto, uma concentração elevada de xilitol no sangue pode refletir maior produção pelo próprio corpo, maior exposição alimentar ou uma combinação desses fatores. Não podemos simplesmente interpretar ‘xilitol sanguíneo elevado’ como ‘a pessoa consumiu muito xilitol'”, avalia a cardiologista.

Como xilitol poderia aumentar o risco de infarto e AVC?

Embora ainda não existam estudos que evidenciem que o xilitol pode efetivamente aumentar a incidência de infarto e AVC, os resultados do estudo reproduzem, em uma população maior e mais próxima da população geral, um efeito que já havia sido observado em outra pesquisa publicada pelo mesmo grupo de pesquisa, em 2024.

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Na investigação, publicada na revista científica European Heart Journal, níveis mais elevados de xilitol também foram associados a maior risco de eventos cardiovasculares. Os pesquisadores também fizeram experimentos para investigar se havia uma explicação biológica para essa associação e observaram que, entre outros mecanismos de ação, o xilitol aumentava a tendência à formação de trombos em modelos experimentais.

Em uma pequena amostra de intervenção em seres humanos, a ingestão de xilitol também aumentou a responsividade plaquetária, ou seja, a capacidade de resposta das plaquetas para formação de coágulos. “Isso é interessante porque oferece uma possível sequência mecanística: o xilitol poderia induzir maior reatividade plaquetária e isso levaria a maior potencial trombótico, com possibilidade de formação de trombos arteriais, culminando com mais infarto ou AVC“, explica Grobe, da SBC.

A cardiologista reitera que, apesar de o mecanismo ser biologicamente plausível, é importante não transformar essa hipótese em uma certeza. Os experimentos demonstram que o xilitol pode modificar a função plaquetária e aumentar o potencial trombótico em condições experimentais, mas não provam que esse efeito seja suficiente para produzir mais infartos ou AVCs em pessoas que consomem quantidades habituais de xilitol, afirma.

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Orientações para a população

Segundo a médica, que integra o Comitê de Comunicação da SBC, não é necessário abandonar imediatamente todos os produtos que contêm xilitol, uma vez que os dados atuais ainda não justificam uma recomendação dessa magnitude.

“Por outro lado, também não considero adequado dizer simplesmente que o xilitol é uma alternativa cardiovascular segura só porque tem menos calorias ou porque substitui o açúcar. O que esses estudos fazem é levantar uma preocupação legítima que merece investigação”, diz Grobe.

Até que surjam evidências mais definitivas, a médica recomenda evitar o consumo excessivo e habitual de grandes quantidades de xilitol, especialmente quando ele aparece em vários produtos da alimentação diária.

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O contexto é outro fator importante a ser levado em consideração. A cardiologista cita um exemplo prático: uma pessoa que ocasionalmente consome uma goma de mascar com xilitol está em uma situação muito diferente de alguém que utiliza diariamente grandes quantidades de produtos “sem açúcar” contendo xilitol.

“Os estudos disponíveis não permitem estabelecer um limite de consumo a partir do qual o risco cardiovascular aumentaria. Minha orientação, portanto, seria não trocar simplesmente “açúcar” por “xilitol” acreditando que essa substituição, por si só, seja necessariamente cardioprotetora“, recomenda.

O mais importante, diz ela, continua sendo o padrão alimentar como um todo: reduzir o consumo de produtos ultraprocessados, controlar peso,
pressão arterial, diabetes e colesterol e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados.

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