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Adiantar ou não a 2ª dose? O que dizem os especialistas

Diversos estados anunciaram a adoção da estratégia para as vacinas da Pfizer e Oxford, no entanto agora é mais importante avançar na 1ª dose

Por Giulia Vidale Atualizado em 15 jul 2021, 20h41 - Publicado em 15 jul 2021, 20h24

Na última semana, ao menos dez estados e o Distrito Federal decidiram reduzir o intervalo entre a primeira e a segunda dose das vacinas da Pfizer-BioNTech e/ou Oxford-AstraZeneca. A decisão foi motivada pela chegada da variante Delta, identificada na Índia, ao país.

Estudos recentes apontam para uma redução da proteção das vacinas contra essa variante e da importância de completar o esquema de imunização para garantir uma eficácia mais alta. A maioria das pessoas que foram infectadas pela nova cepa fora do Brasil não estavam vacinadas ou tinham recebido apenas uma dose.

Atualmente, o período recomendado pelo Ministério da Saúde entre as injeções destas vacinas é de 12 semanas. Os estados que optaram por reduzi-lo, adotaram um  intervalo que pode variar de 8 a 10 semanas. Entretanto, especialistas e autoridades de saúde se opõem à antecipação.

Para o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), neste momento, é mais importante avançar na administração de primeira dose, do que antecipar a segunda dose para completar o esquema vacinal de uma pequena parcela da população.

“À medida que você antecipa a dose de alguém, você atrasa a aplicação da primeira dose em outras pessoas, deixando mais gente desprotegida sem nenhuma dose, com risco de desenvolver formas graves de Covid-19. A primeira dose já garante proteção bastante razoável para mortalidade e desfechos graves da doença. Então quando você coloca esses dois pesos na balança, não faz sentido adiantar. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda utilizar o intervalo máximo permitido entre as doses para avançar ao máximo na quantidade de pessoas com esquema começado”, diz o infectologista.

Ele ressalta ainda para o fato de a variante Delta ainda não ter presença significativa no país. “Nem sabemos se vai ser porque nós temos aqui uma forte competidora que é a P.1 [também chamada Gamma, identificada em Manaus], que tem muita força e vai competir com a Delta. Então existe a possibilidade de a Delta não se espalhar tanto aqui quanto ocorreu em outros países”, explica Kfouri.

Em nota técnica divulgada na terça-feira, 13, sobre o assunto, a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) afirmam que “para o atual momento epidemiológico que vivemos e com a quantidade de doses atualmente disponível no País, a estratégia de manter o intervalo entre doses das vacinas Pfizer e AZ/Oxford em 12 semanas (sem abrir mão da importância de administramos a segunda dose), a exemplo do que fizeram Escócia, Inglaterra, Canadá e diversos outros países, parece correta e permite reduzir a carga de morbimortalidade da doença”.

O estado de São Paulo, um dos primeiros a levantar essa possibilidade, desistiu da ideia. Especialistas do centro de contingência defenderam que agora é melhor ampliar a cobertura vacinal, mesmo que parcial. 

Alta eficácia após uma dose

A Fiocruz, responsável pela produção e distribuição da vacina de Oxford-AstraZeneca no país ressalta que o intervalo de 12 semanas entre as doses “considera dados que demonstram uma proteção significativa já com a primeira dose e a produção de uma resposta imunológica ainda mais robusta quando aplicado o intervalo maior”.

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Um estudo feito pela agência de saúde da Inglaterra mostrou que a vacina da AstraZeneca apresentou 71% de efetividade (eficácia no mundo real) após a primeira dose contra a variante Delta e 92% após a segunda para hospitalizações e casos graves. Outra pesquisa, feita no Canadá chegou a resultados semelhantes: efetividade de 88% contra hospitalização ou morte após uma dose para a variante originária da Índia.

Adicionalmente, em relação à variante delta, uma pesquisa da agência de saúde do governo britânico, publicada em junho, aponta que a vacina da AstraZeneca registrou 71% de efetividade após a primeira dose e 92% após a segunda para hospitalizações e casos graves. Os dados são corroborados também por um estudo realizado no Canadá, que apontou efetividade contra hospitalização ou morte, para a variante Delta, após uma dose da vacina da AstraZeneca de 88%.

Procurada, a Pfizer afirma que o regime de dosagem fica a critério das autoridades de saúde e podem incluir recomendações seguindo os princípios locais de saúde pública. Por outro lado, a farmacêutica ressalta que a segurança e eficácia da vacina foram avaliadas de acordo com o intervalo que consta na bula, que é de 21 dias. Esses critérios “não foram avaliados em esquemas de dosagem diferentes, uma vez que a maioria dos participantes do ensaio recebeu a segunda dose dentro da janela especificada no desenho do estudo”, disse em comunicado.

O intervalo mais longo, de 90 dias, recomendado pelo Ministério da Saúde está baseado em dados do Reino Unido e do Canadá, que apontam eficácia. Por outro lado, ainda não há dados sobre a aplicação das duas dose no meio termo – entre 21 dias e 12 semanas.

O que diz o Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde disse que a possibilidade de alteração no intervalo recomendado entre as doses das vacinas Covid-19 em uso no Brasil foi discutido na Câmara Técnica Assessora em Imunizações. O parecer foi o de manutenção do intervalo.

A pasta ainda ressalta para a importância de completar o esquema de imunização dentro do prazo estabelecido. Na semana passada, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que 3,5 milhões de brasileiros não haviam retornado aos postos para receber a segunda dose.

Nesta quinta-feira, 15, o Brasil ultrapassou ultrapassou 87 milhões de pessoas vacinadas com uma dose, o que corresponde a 41,4% da população. Destas, 29,2 milhões (13,9% da população) já completaram o esquema de imunização com duas injeções e 3,3 milhões (1,6%) da população também estão protegidas com o imunizante dose única da Janssen.

Confira o avanço da vacinação no Brasil:

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