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“A sibutramina não deve ser proibida”, diz autor de estudo que revelou riscos do medicamento

O cardiologista dinamarquês Christian Torp-Pedersen veio ao Brasil para participar de audiência técnica da Anvisa sobre emagrecedores

Por Gabriela Walker 14 jun 2011, 18h08

“Acho que retirar o medicamento do mercado é injusto com os pacientes. Perder 5% do peso diminui os riscos relacionados à obesidade” – Christian Torp-Pedersen, cardiologista dinamarquês integrante do comitê independente que realizou o estudo SCOUT, que apontou os riscos da sibutramina

Se os remédios emagrecedores estão na berlinda no Brasil, sofrendo o risco de serem proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), deve-se muito à preocupação causada pelo relatório Scout. O estudo, realizado em 16 países, com mais de 10 mil pessoas, mostrou que o emagrecedor sibutramina aumentou o risco de problemas cardíacos em pacientes que já tinham histórico da doença. Também serviu de base para que a Anvisa lançasse uma ofensiva contra o medicamento, propondo sua proibição. Um de seus autores, porém, rejeita a ideia de banir a droga, como já fizeram a Europa e os Estados Unidos.

O cardiologista Christian Torp-Pedersen, médico dinamarquês integrante do comitê independente que realizou o estudo Scout, sobre os efeitos da sibutramina em pacientes obesos, participou do painel científico realizado nesta terça-feira pela Anvisa, em Brasília, a convite da agência. Pedersen disse acreditar que as autoridades norte-americanas e europeias reagiram de forma exagerada ao proibir a droga no tratamento da obesidade.

Em entrevista ao site de VEJA, o especialista explica por que cada caso deve ser analisado separadamente e como uma medida generalizada pode ser ineficiente em seus resultados. Como foi o debate na Europa que levou à proibição? Não houve tanto debate na Europa porque a sibutramina não foi usada com tanta frequência lá. No Brasil, o uso é muito alto. Acho imprescindível ter muito cuidado no uso desta droga.

Qual medicamento poderia ser usado como substituto à sibutramina? Só há uma droga que não tem efeitos adversos no sistema nervoso simpático, o Orlistat. Mas esse medicamento não é tão eficaz e tem efeitos bastante desconfortáveis. Ele atua inibindo a absorção de gordura pelo intestino, o que causa diarreia. Há também drogas que não foram testadas e, por isso, não é possível dizer se são ou não eficazes e seguras.

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Mas há uma solução para essas pessoas que se tratam com o medicamento? Acho que retirar o medicamento do mercado é injusto com os pacientes. Perder 5% do peso diminui os riscos relacionados à obesidade. Em obesos com baixa autoestima ou que não podem se exercitar – pessoas com problemas nas articulações, por exemplo -, o uso da sibutramina pode ser muito relevante. O senhor recomenda o uso de anfetamínicos? O risco de vício e de problemas psiquiátricos das anfetaminas é vastamente conhecido. Eu não acredito no uso dessas substâncias para combater a obesidade.

Há um temor de que a proibição possa levar a um aumento no número de cirurgias bariátricas. Como o senhor avalia isso? Esse tipo de cirurgia está aumentando em todo o mundo. Há um estudo na Suécia que mostra que os pacientes que passam por uma cirurgia bariátrica vivem por mais tempo, mas os efeitos a longo prazo são desconhecidos e vale lembrar que a cirurgia não pode ser desfeita. Acho que o uso indiscriminado deve ser fortemente desencorajado.

Há no Brasil um medo de que a proibição destas drogas leve a uma corrida ao mercado paralelo. O que aconteceu na Europa? Um mercado paralelo de medicamentos é algo desconhecido na Europa. Acho que um mercado que só queira vender, sem aconselhar, é um mercado que deve ser evitado.

O senhor acha que essa resistência em relação ao uso da droga no Brasil pode ter relação com interesses farmacêuticos? Se ainda houvesse patente, você poderia ter essa suspeita. Como já expirou, acho que não há interesse industrial na questão. Muito se fala no risco deste medicamento para pacientes com histórico de doenças cardíacas. Afinal, qual o percentual de complicações graves para quem não tem histórico? Acho que a resposta cuidadosa é: menor do que nos pacientes do Scout. Seria um risco entre 0% e 0,2%.

O que o senhor e sua equipe esperavam quando o estudo foi iniciado? Na época sabíamos que a sibutramina aumentava o HDL, o colesterol bom, e por isso esperávamos perda de peso. E sabíamos que essa perda poderia diminuir as doenças cardiovasculares. Achávamos que o Scout iria provar que era possível diminuir a mobilidade e salvaríamos vidas. O resultado foi imensamente decepcionante.

Que outros estudos o senhor acha que deveriam ser realizados agora para completar e aumentar o conhecimento sobre o assunto? Eu gostaria de poder refazer o Scout. Hoje eu faria coisas diferentes. Por exemplo, eu descontinuaria o tratamento em pacientes que não perdessem peso. Mas não há mais patente da sibutramina, então não tem quem pague.

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