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A médica do Dr. House

Consultora da série de TV House, Lisa Sanders fala sobre a realidade da medicina por trás do programa e chama a atenção para a importância da conversa entre o médico e o paciente para o diagnóstico correto

Por Natalia Cuminale Atualizado em 24 Maio 2016, 16h38 - Publicado em 9 jul 2010, 22h32

“Quando você atende um paciente e você não sabe o que ele tem, há uma certa ansiedade. Em primeiro lugar, o médico quer que as pessoas melhorem. Eles acreditam que é uma tendência do paciente omitir o que está acontecendo e não contar o que eles precisam saber”

“Você precisa pensar em House e a sua equipe como um só médico. Cada um deles representa um aspecto de um médico: racional, questionador, humanitário e investigador. É como se você tivesse um especialista para conversar, outro para investigar e mais um para pensar sobre o diagnóstico: mas eles são a mesma pessoa”

O diagnóstico pode ser a etapa mais frustrante de uma consulta médica. Médicos pressionados pelo tempo – que às vezes atendem mais de 20 pessoas por dia – e pacientes com dor e atrás de uma resposta rápida não resultam em finais felizes. É contra essa situação que a médica americana Lisa Sanders luta. Consultora da série de TV House – que se tornou popular justamente por trazer um médico capaz de identificar qualquer doença – e autora do livro Todo Paciente Tem uma História para Contar (Editora Zahar, 328 pág, 36 reais), Lisa acredita que a conversa entre o médico e o paciente é essencial para o diagnóstico correto. “A maioria das doenças não se parecem com um tiro no braço, elas são invisíveis do lado de fora do corpo. Se você não conversar e ouvir o que o paciente tem a dizer, você nunca vai saber”, afirma. A médica ainda faz um paralelo da realidade atual da medicina com a série. “House diz que todo mundo mente. A verdade é que todo mundo mente para o House porque os pacientes não possuem um bom relacionamento com ele. Se você não tem uma boa relação com o seu médico, se você não confia nele, será difícil dizer a verdade”. Leia abaixo a entrevista que a professora de medicina clínica da Faculdade de Yale concedeu por telefone à VEJA.com. Em seu livro Todo Paciente Tem uma História para Contar, você escreveu sobre o fato de poucos médicos se preocuparem para ouvir a história do paciente. Por que isso acontece? É uma situação complicada. Eu acho que os médicos americanos e os americanos em geral estão apaixonados por tecnologia. Eles acreditam que os exames tecnológicos poderão dar todas as respostas. Mesmo tendo o conhecimento que a tecnologia não substitui a conversa, as pessoas têm a tendência de pensar que o novo é melhor. Além disso, acredito que os médicos não ensinamos aos estudantes de medicina como conversar com seus pacientes. Só assumimos que isso é uma coisa que deve acontecer, pensando que é só uma simples conversa. As pessoas não valorizam o fato de que a habilidade de conversar pode ajudar a diagnosticar as pessoas. O tempo também é um fator importante. Não temos tempo, ou sentimos que não temos. O período de uma consulta é bastante curto. E vivemos com a pressão dos seguros de saúde para ver mais e mais pacientes. São muitas razões, mas, fundamentalmente, não conseguimos acreditar que conversar é tão importante quanto examinar – quando na verdade, pode ser muito melhor. Podemos dizer que atender mais de 20 pacientes por dia seria responsável por parte do problema? Com certeza é parte do problema. Pelo menos nos Estados Unidos, o problema é que a maioria dos médicos não é paga para pensar e sim para fazer. Se você precisa atender um paciente com uma situação complicada, que exige pensamento, mas não cirurgia, você não recebe tanto por isso. Por esse motivo, médicos são “pequenas empresas”. Ou seja, se você é pago por quantidade, os especialistas acabam vendo muitos pacientes. Eu espero que a reforma no sistema de saúde americano mude isso. Qual a importância de ouvir o paciente? O que pode acontecer se o médico não der o tempo para o paciente falar? Ele pode não descobrir o problema. Há 100 anos, um médico muito inteligente chamado William Osler já dizia “ouça seu paciente e ele dirá a você o que ele tem”. É extremamente verdade. Se você não escuta, não há como saber. Doenças podem ser consideradas um fenômeno subjetivo. Você não pode saber o que está acontecendo no corpo de uma pessoa se você não perguntar a ela. Porque normalmente, não aparece. Se alguém leva um tiro no braço, o médico com certeza vê isso e não será necessária muita conversa. Mas a maioria das doenças não se parecem com um tiro no braço, elas são invisíveis do lado de fora do corpo. Se você não conversar e ouvir o que o paciente tem a dizer, você nunca vai saber. Mas por que os médicos costumam interromper o paciente antes que eles terminem de contar o que se passa? Quando você atende um paciente e você não sabe o que ele tem, há uma certa ansiedade. Em primeiro lugar, o médico quer que as pessoas melhorem. Eles acreditam que é uma tendência do paciente omitir o que está acontecendo e não contar o que eles precisam saber. Por isso, eles sentem que é preciso fazer uma série de questões, pensando que é a forma mais direta e eficiente de encontrar a cura para o problema. Nem sempre é esse o caso, mas os médicos são inclinados a acreditar nisso. Você acha que as faculdades de medicina ensinam aos estudantes a importância de ouvir o paciente? Sim, os cursos de medicina se preocupam em ensinar isso. Na escola, eles ensinam a medicina em série e, depois, é necessário aplicar os conhecimentos, treinar e atender pacientes nos hospitais. É durante a prática clínica que eles veem que muitos médicos não conversam ou escutam os doentes. Eles veem o que os outros médicos fazem e assim fazem o mesmo.

Lisa Sanders
Lisa Sanders

Custa caro não ouvir o que o paciente tem a dizer? Eu diria que às vezes não faz diferença. Francamente, as pessoas são fortes e saudáveis o suficiente para conseguirem melhorar – independentemente do que o médico fizer. Mas, em outros casos, o diagnóstico correto é muito importante e se você não dá o tratamento, o paciente pode morrer ou ter complicações graves. Qual é o preço do diagnóstico errado? Tenho um caso de um paciente que chegou com uma aparência terrível e com o ritmo cardíaco muito baixo ao hospital. Ele foi para a emergência, passou pela UTI, quase fez uma cirurgia para colocar um marcapasso cardíaco e no fim das contas descobriram que era um problema na próstata – ele não precisava de marcapasso. Depois de muitas horas de investigação, perceberam o problema e colocaram um tubo em sua uretra e toda a urina saiu. Assim os rins voltaram a funcionar e ele melhorou. Isso poderia ter sido diagnosticado se os médicos tivessem ouvido o que ele tinha a dizer. Na verdade, segundo o prontuário, ele deu à enfermeira uma pista do que poderia ser o problema – ele tinha dificuldades para urinar – mas ninguém ouviu ou questionou. O paciente provocou um custo de US$ 50.000 de internação, sendo que o problema dele poderia ter sido diagnosticado e tratado no setor de emergência. Seria muito menos traumático para ele e muito menos caro para o hospital. No começo da nossa conversa, você falou sobre a preferência dos médicos pela tecnologia. Você acredita que o diagnóstico digital está substituindo o contato entre médico e paciente? Nós estamos tentando, mas a verdade é que nenhuma tecnologia é melhor do que a conversa entre o médico e o paciente. Se as máquinas fossem melhores, ninguém ficaria infeliz com o fato de estarmos perdendo a capacidade de comunicação. A parte mais importante não é que eles gostem um dos outros, mas que o paciente seja bem cuidado. Se uma máquina pudesse fazer isso, seria ótimo. O problema é que o uso somente de máquinas não é eficiente e não é assim que se consegue o diagnóstico correto. Falamos muito sobre o papel dos médicos, mas como os pacientes podem ajudar a si mesmos a obter um bom diagnóstico? Antes de tudo, eles precisam contar a história. Eu digo aos meus pacientes que algum pedaço da sua história pode ser muito importante. Normalmente, você não sabe qual parte é importante e necessária para o seu diagnóstico. Certamente o médico saberá que trecho poderá ser usado para compor a análise. Mas isso não acontecerá se não ouvir até o final. Por isso, os pacientes precisam perceber a importância de contar sua história aos médicos. Quando o médico interrompe para fazer uma pergunta, acho que o paciente deve responder e dizer “Doutor, eu preciso terminar de contar a minha história”. Ao gravar consultas médicas, foi possível perceber que quase nunca os médicos deixavam os pacientes terminarem suas histórias e a interrupção raramente vinha acompanhada de um pedido para continuar a contar os fatos. Os pacientes precisam acreditar que contar a história é importante. E o que perguntar? Quando o médico disser que você tem uma determinada doença, é preciso perguntar “O que mais poderia ser?”. Porque, em geral, os médicos não têm apenas uma resposta para uma série de sintomas. Eles só pegam a mais provável. Na maioria das vezes, o diagnóstico vai estar certo. Mas não em todas as vezes, porque o corpo tem uma grande variação de sintomas e formas de responder às diversas doenças. Ou seja, os seus sintomas não sugerem apenas uma doença. Por isso, os médicos normalmente têm duas ou três idéias sobre qual é o problema. Ao perguntar, você pelo menos sabe o que o seu médico está pensando. E você sabe que ele realmente está pensando. A senhora acredita que, no futuro, a relação entre os médicos e pacientes se tornará mais humana, menos impessoal? Deveria. Saúde é extremamente pessoal. Acho que uma boa relação entre médico e paciente não é importante apenas para o diagnóstico, mas para o tratamento em si. Essa relação tem que ser pessoal, nunca impessoal. É a essência de todo o processo. Você assiste à série House? Sim. House diz que todo mundo mente. A verdade é que todo mundo mente para o House porque os pacientes não possuem um bom relacionamento com ele. Se você não tem uma boa relação com o seu médico, se você não confia nele, será difícil dizer a verdade. Saber a história do paciente é essencial para entender o que está acontecendo. Então a verdade também é importante para o diagnóstico. Na série, House não tem o hábito de ouvir o que os pacientes têm a dizer, mas a sua equipe de residentes, sim. Eles discutem muito sobre diagnóstico de um paciente. Isso acontece na vida real? Você precisa pensar em House e a sua equipe como um só médico. Cada um deles representa um aspecto de um médico: racional, questionador, humanitário e investigador. Se você juntar todas essas partes, você tem um só médico. É como se você tivesse um especialista para conversar, outro para investigar e mais um para pensar sobre o diagnóstico: mas eles são a mesma pessoa. E os médicos conseguem ser esse conjunto: House e a equipe? Os especialistas da vida real são como o Dr. Gregory House, são gênios que conhecem todas as doenças – até as mais sombrias? Não existem médicos como o House, que conhecem todas as doenças e cada manifestação de um problema. Mas, sim, existem médicos que sabem mais que outros. Se você perguntar a um médico qual o melhor especialista que ele conhece, ele vai dizer um nome, o melhor que ele tem conhecimento. Nós todos conhecemos três ou quatro médicos sensacionais, que conhecem quase tudo. Mas mesmo esses médicos não são perfeitos. Por isso, é importante que haja colaboração. Até o médico mais inteligente pode cometer erros. Quando não sabemos o que está acontecendo, a primeira coisa que fazemos é pegar o telefone e ligar para o médico mais inteligente que conhecemos. Para perguntar “o que você acha que poderia ser?”. Você acha que o House dá uma impressão ruim da profissão? Não acredito que as pessoas realmente achem que os médicos são como o House. Acredito que o público pensa que só as partes boas do House são verdadeiras. Como, por exemplo, que existem médicos gênios e capazes de saber qualquer coisa. Mas não acho que as pessoas acreditem que é normal um médico ser rude, arrogante e viciado em drogas. Existem médicos arrogantes e viciados em droga, mas as pessoas sabem que isso não é normal e nem o desejável. Acho que quem assiste a série é mais inteligente que isso. Em sua opinião, por que as séries médicas fazem tanto sucesso? Porque medicina é incrivelmente interessante. Nós sabemos que não é do jeito que aparece na televisão. As pessoas amam as séries médicas pelo mesmo motivo que eu amo a medicina. Por que você está lá com as pessoas no momento mais importante da vida delas. Eu falo aos meus residentes que para nós, médicos, ir ao hospital é como qualquer outro dia de escritório. Mas para todas as pessoas que estão lá, precisando de atendimento, é o pior dia da vida delas. Então é um privilégio fazer parte disso, além de ser muito interessante estar lá.

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