A bajulação e a submissão aos outros podem ser sinais de um trauma, expõe psicóloga
Autora de "A Quarta Reação" estará em São Paulo na Bienal do Livro e conversou com VEJA sobre o que esse tipo de comportamento reflete de fato
Existem três respostas clássicas a uma situação de ameaça – seja ela real, seja imaginada ou gravada em nossa cabeça. Você pode lutar, fugir ou ficar paralisado. E essas mesmas reações podem moldar a forma como lidamos com traumas psíquicos. Mas a psicóloga Ingrid Clayton inclui uma quarta reação nessa conta: quando nos movemos em direção à fonte da ameaça, nos submetendo a ela. Nas relações interpessoais, isso pode ser traduzido por um comportamento bajulador. No afã de agradar ao outro, o sujeito se esquece de si mesmo – e suas feridas emocionais permanecem abertas.
É essa nova concepção para encarar o trauma que a especialista americana desenvolve em A Quarta Reação, recém-lançado pela editora HarperCollins Brasil. Clayton vem a Bienal do Livro de São Paulo justamente debater o que descobriu em anos de trabalho clínico e investigações sobre a mente e o comportamento humano. Ela estará na mesa “O Peso de Agradar”, ao lado da escritora Marcela Ceribelli, que ocorre domingo, 6, a partir das 17h30, no Espaço Saúde e Bem-Estar do evento.
A reação aludida no título do livro em português é expressa originalmente pelo termo em inglês fawning – que inclusive batiza a obra publicada lá fora. “Fawning” costuma ser traduzido como “bajulação”, mas, no sentido proposto por Clayton, sintetiza um comportamento em que a pessoa, muitas vezes inconscientemente, busca se submeter ou agradar às outras quase o tempo todo. Isso pode acontecer dentro de casa, na faculdade, no trabalho…
O problema é que esse modus operandi derrete a identidade e a autonomia do indivíduo e o torna refém das vontades e dos desmandos alheios. Em outras palavras, o trauma persiste e continua alimentando o sofrimento cotidiano.
Identificar a “quarta reação”, portanto, seria um passo decisivo para, com o devido suporte psicológico ou médico, se libertar das angústias e dores mentais. Um processo que a psicóloga descreve na obra, entremeando histórias de pacientes, pesquisas e reflexões e experiências próprias. “É preciso passar da conexão social como forma de proteção para uma conexão que não exige mais o abandono de si mesmo”, defende.
Com a palavra, Ingrid Clayton.
Observamos que a ciência está reconhecendo cada vez mais os impactos de curto e longo prazo do trauma psicológico, inclusive sob uma perspectiva biológica. Por que essa mudança na abordagem do problema é importante? Como psicóloga clínica, e não médica ou neurocientista, abordo essa questão principalmente pela ótica da psicologia e do tratamento do trauma. Mas uma das mudanças mais importantes em nossa compreensão é o reconhecimento de que ele não é simplesmente uma história sobre algo que aconteceu no passado. Seus efeitos podem continuar a se manifestar no presente — em nosso sistema nervoso, nossos relacionamentos, nossas emoções e nas maneiras como reagimos a ameaças percebidas. Isso é extremamente importante porque nos ajuda a deixar de perguntar “O que há de errado com essa pessoa?”, e passamos a questionar: “O que aconteceu com essa pessoa e como ela aprendeu a sobreviver a isso?”
Por que isso é tão relevante para o tratamento? Nossas respostas ao trauma fazem muito sentido quando entendemos as condições em que se desenvolveram. Hipervigilância, dissociação, bloqueio emocional ou acomodação crônica aos outros podem parecer disfuncionais no presente, mas podem ter se originado como adaptações inteligentes a circunstâncias em que a pessoa tinha pouco poder ou segurança. Para mim, essa compreensão mais ampla reduz a vergonha. Quando as pessoas reconhecem que suas reações não são prova de fraqueza ou fracasso pessoal, mas adaptações que seus corpos desenvolveram na tentativa de protegê-las, encontramos um ponto de partida muito mais compassivo — e, muitas vezes, muito mais produtivo — para a cura.
Pode explicar como surgiu o insight de identificar o comportamento bajulador como uma resposta ao trauma? Como uma resposta a traumas relacionais, a bajulação esteve, essencialmente, bem diante dos nossos olhos — confundida com gentileza, baixa autoestima, desejo de agradar aos outros ou, simplesmente, com um temperamento “tranquilo”. Em muitas culturas e famílias, comportamentos de apaziguamento são ensinados e recompensados, especialmente em pessoas que detêm menos poder dentro de uma relação, incluindo crianças, mulheres e membros de comunidades marginalizadas. Mas há algo na bajulação que a torna fundamentalmente diferente das respostas de luta, fuga o congelamento. Em cada uma dessas reações, o corpo se comunica de alguma forma: “Eu não quero isso que está acontecendo”. Lutamos contra a ameaça, fugimos dela ou ficamos paralisados em sua presença. Na bajulação, nos movemos em direção àquela fonte de ameaça.
Essa é a principal diferença para as respostas clássicas ao estresse e ao trauma? Sim, nós buscamos nos adaptar às necessidades do outro. Tornamo-nos prestativos, agradáveis, conciliadores ou indispensáveis. Visto de fora, isso pode parecer consentimento ou uma escolha consciente. Mas, internamente, algo muito diferente pode estar acontecendo: o sistema nervoso aprendeu que lutar, fugir ou até mesmo congelar são opções inviáveis — ou que poderiam piorar a situação. As crianças oferecem um exemplo poderoso. Quando a fonte da ameaça é também o seu cuidador, para onde você vai fugir? Reagir pode resultar em um castigo ainda maior. E, embora o congelamento seja certamente uma resposta comum a ameaças, crianças que vivem em lares cronicamente inseguros ou imprevisíveis ainda precisam acordar na manhã seguinte, tomar café da manhã, ir à escola e continuar participando da vida familiar. Aprender a ler o humor do cuidador, antecipar suas necessidades, tornar-se alguém que agrada, reprimir a raiva ou cuidar das emoções alheias torna-se uma estratégia notavelmente adaptativa. É por isso que descrevo o fawning [termo original em inglês para o conceito, aqui traduzido como “bajulação”] como “conexão como forma de proteção”. Não se trata de manipulação consciente. É uma maneira de buscar segurança diante da exploração, da vergonha, da negligência, do abuso ou de outros danos relacionais.
Só que isso nunca foi visto como um problema, não é? Por muito tempo, situamos essa “disfunção” inteiramente no indivíduo: “Por que você continua fazendo isso?”, “Por que não se defende?”, “Por que não foi embora?”. Mas, quando analisamos sob a perspectiva do trauma, essas perguntas começam a mudar. O comportamento faz sentido dentro do ambiente em que se desenvolveu. O corpo sempre prioriza a segurança e a sobrevivência. O problema não era a baixa autoestima; o problema era que eles estavam em circunstâncias nas quais a atitude de apaziguamento ou bajulação se tornou necessária.
Que danos psicológicos, sociais e até físicos esse comportamento de bajulação ou submissão ao outro pode desencadear em uma pessoa traumatizada? É importante começar reconhecendo o valor dessa resposta ao trauma pelo que ela originalmente proporcionou. Quando ela funciona, pode ajudar a manter alguém seguro em um ambiente hostil. O problema surge quando uma resposta adaptativa de sobrevivência se torna crônica. O sistema nervoso continua priorizando as emoções, necessidades e reações de outras pessoas, mesmo quando o perigo original já não existe mais. Uma das consequências mais profundas é o autoabandono. Isso pode se manifestar de várias formas: minimizar nossos próprios sentimentos, evitar conflitos a qualquer custo, monitorar constantemente o humor dos outros, adaptar nossa personalidade ao que o ambiente parece exigir, ter dificuldade em identificar nossos próprios desejos e necessidades e sentir uma ansiedade intensa quando alguém se decepciona ou fica insatisfeito conosco. Com o tempo, podemos perder a conexão com nossa própria experiência interna sem sequer perceber. Podemos achar que essas adaptações são simplesmente traços da nossa personalidade: “Sou apenas uma pessoa tranquila”, “Sou extremamente empático”, “Não fico com raiva”, “Não preciso de muita coisa”.
E isso cobra um preço, imagino. Essa reação, quando se torna crônica, pode deixar as pessoas vulneráveis à exploração. Podemos permanecer em relacionamentos prejudiciais por muito mais tempo do que seria saudável, pois somos extraordinariamente habilidosos em justificar o comportamento dos outros. Compreendemos a origem da raiva deles. Enxergamos as feridas de infância que carregam. Focamos em seu potencial. Nutrimos a esperança constante de que, se conseguirmos amá-los ou compreendê-los o suficiente — ou se nos tornarmos aquilo de que precisam —, as coisas finalmente mudarão. Enquanto isso, o custo para nós mesmos continua aumentando. Nos âmbitos psicológico e social, pode resultar em ansiedade, vergonha, ressentimento, estresse crônico e ativação constante do sistema nervoso, dificuldade em estabelecer limites, perda de identidade e relacionamentos baseados em uma distribuição desigual de responsabilidades. Comparo o fawning crônico à metáfora do sapo que é colocado numa água que aquece lentamente. Como a adaptação ocorre de forma gradual, acabamos tolerando circunstâncias que ninguém deveria ter de suportar.
O que é essencial para reconhecer um trauma, a despeito de suas origens? O primeiro passo é identificar que aquilo que você está vivenciando — ou o que vivenciou no passado — foi, de fato, traumático. O trauma complexo envolve ameaças contínuas ou repetidas à segurança, frequentemente no âmbito de relacionamentos interpessoais. Um dos desafios é que as pessoas muitas vezes não reconhecem suas experiências como traumáticas, pois é tudo o que conheceram até então. Consequentemente, aprendem a interpretar as dificuldades resultantes como prova de que havia algo de errado com elas. Portanto, o reconhecimento pode ser transformador. Uma vez que compreendemos nossas reações dentro do contexto em que ocorreram, podemos começar a buscar o tipo de apoio para enfrentá-las.
Há alguma particularidade quando a resposta ao trauma é a tendência a agradar ou bajular o outro? Para pessoas que adotam cronicamente essa resposta, grande parte da sensação de segurança passou a residir fora de si mesmas: “Você está bravo comigo? Estamos bem? Pode me validar? Pode me dizer que tenho permissão para sentir isso?” Uma parte central da cura é voltar essa atenção, aos poucos, para dentro de si, com curiosidade: “O que estou sentindo? O que estou vivenciando? Do que preciso? O que soa verdadeiro para mim?” Isso pode envolver aprender a regular o sistema nervoso, desenvolver uma maior segurança interna e construir nossa capacidade de escolha e autonomia. Começamos a recuperar nossa própria voz. Para muitas pessoas, isso também significa desenvolver uma relação diferente com a raiva. O objetivo não é agir impulsivamente sob o efeito da raiva, mas sim tornar-se capaz de percebê-la como uma fonte de informação, em vez de reprimi-la automaticamente. A raiva pode nos indicar que um limite foi ultrapassado ou que algo é importante para nós, além de iluminar nosso sistema de valores. E o luto é, muitas vezes, uma parte vital desse trabalho. Podemos precisar viver o luto pelo que aconteceu, e, às vezes, o que é igualmente importante, pelo que não aconteceu: a proteção, a sintonia emocional, a segurança ou o cuidado que deveríamos ter recebido.
O que a senhora prescreve para “curar” o trauma? Terapias focadas no trauma podem ser úteis nesse processo. Dependendo do indivíduo, as abordagens psicológicas incluem métodos de dessensibilização, análise da família e outros tratamentos direcionados ao trauma. Não existe uma terapia única que seja adequada para todos. A cura do trauma complexo raramente se resume a simplesmente eliminar sintomas. Em última análise, trata-se de desenvolver algo que o trauma frequentemente retirou: a capacidade de permanecer conectados a nós mesmos enquanto estamos conectados a outras pessoas. Para alguém que aprendeu a adotar uma postura de submissão para agradar aos outros, essa é uma mudança profunda: passar da conexão social como forma de proteção para uma conexão que não exige mais o abandono de si mesmo.







