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Medicamentos antigos podem tratar o coronavírus, segundo novo estudo

Pelo menos seis desses medicamentos foram capazes de impedir a replicação do coronavírus em testes em laboratório

Por Da redação Atualizado em 4 Maio 2020, 21h10 - Publicado em 4 Maio 2020, 19h24

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco, nos Estados Unidos, do Instituto Pasteur em Paris, na França da Escola de Medicina Icahn em Monte Sinai, nos Estados Unidos analisaram 47 medicamentos que poderiam ser eficazes contra o novo coronavírus. De acordo com o estudo, publicado na última quinta-feira, 30, na revista científica Nature, pelo menos seis desses compostos conseguiram combater o vírus em testes em laboratório.

Para chegar a essa conclusão, inicialmente os pesquisadores fizeram o mapeamento de todas as proteínas do coronavírus. Em seguida, eles mapearam todas as proteínas encontradas no corpo humano com as quais as proteínas do vírus poderiam interagir. Por fim, eles analisaram quais medicamentos já existentes poderiam atuar nessas interseção entre proteínas virais e humanas para combater a infecção pelo coronavírus, de acordo com um artigo publicado no The Conversation, por Nevan Krogan, coautor da pesquisa e diretor do Instituto de Biociências Quantitativas da Universidade da Califórnia São Francisco.

Os resultados mostraram 69 medicamentos e compostos já desenvolvidos (alguns aprovados outros em fase de estudos clínicos) com potencial para tratar a Covid-19. Na segunda etapa foi a vez de analisar a eficácia de 47 desses medicamentos. Para o estudo, células de macaco verde africano foram infectadas com coronavírus.

Os pesquisadores optaram pelo uso de células de macaco em vez de células humanas porque ainda não se sabe quais células humanas funcionam melhor para estudar o vírus em laboratório. Normalmente, as células desse animal são usadas no lugar de células humanas em testes de drogas antivirais, pois são facilmente infectadas respondem aos medicamentos de maneira muito próxima à das células humanas.

Em seguida, os pesquisadores “trataram” metade das amostras com os medicamentos identificados na etapa anterior e metade serviu como controle. A análise funcionou assim: se as amostras tratadas tivessem menos vírus e mais células vivas do que o controle, isso sugeriria que as drogas foram capazes de interromper a replicação viral com baixa toxicidade.

Os resultados mostraram que algumas drogas de fato conseguiram combater o coronavírus, enquanto outras tornaram as células mais suscetíveis à infecção. Os medicamentos potencialmente eficazes impediram a replicação viral por dois mecanismos diferentes: interrupção da tradução do RNA e inibição de receptores sigma. Segundo Krogan, a inibição de receptores sigma é um mecanismo de ação inédito, que nunca havido sido descrito.

Tradução do RNA

Basicamente, a replicação viral funciona da seguinte maneira: o vírus entra na célula e uma vez dentro dela sequestra seu maquinário de forma a obriga-la e fazer mais cópias do vírus. Dessa forma, a célula perde sua função e passa a produzir milhares de vírus que, mais cedo ou mais tarde, irão causar sua morte e infectar outras células. Essa produção acontece justamente pela tradução do RNA viral pela célula.

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No estudo, os pesquisadores encontraram três compostos que atrapalham a tradução do vírus: a ternatina-4, a zotatifina e a plitidepsina. Os dois primeiros são usados ​​no tratamento de mieloma múltiplo. Já a plitidepsina é uma molécula semelhante à ternatina-4 e atualmente está em fase de testes clínicos para Covid-19.

Receptores Sigma

Já o segundo mecanismo de ação pelo qual os medicamentos podem interromper a replicação viral é pela inibição dos receptores SigmaR1 e SigmaR2. Os receptores são mecanismos celulares encontrados no interior e na superfície das células que funcionam como um mecanismo de chave-fechadura. Os vírus costumam se ligar a esses receptores para infectar as células.

Os pesquisadores ainda não sabem como as proteínas virais manipulam os receptores SigmaR1 e SigmaR2. “Acreditamos que o vírus usa esses receptores para ajudar a fazer cópias de si mesmo; portanto, diminuir sua atividade provavelmente inibe a replicação e reduz a infecção.”, escreveu Krogan.

Sete drogas ou moléculas analisadas atuaram nesses receptores e conseguiram combater o vírus. São eles os antipsicóticos haloperidol e melperona, os anti-histamínicos potentes, clemastina e cloperastina, o composto PB28 (ainda em fase de testes clínicos) e o hormônio feminino progesterona.

Para surpresa da equipe, o dextrometorfano, um ingrediente comum em xaropes para tosse, fez o oposto. Sua presença ajudou o vírus a se replicar mais facilmente. Apesar do resultado, Krogan alerta que são necessários mais estudos antes de recomendar que o ingrediente deve ser evitado por pessoas com Covid-19.

Hidroxicloroquina

A hidroxicloroquina estava entre as drogas analisadas pelo estudo. De acordo com Krogan, o medicamento tem efeito sobre o receptores SigmaR1 e SigmaR2. “Porém, com base em nossos experimentos em ambos os laboratórios, não acreditamos que a hidroxicloroquina se ligue a eles com eficiência.”, escreveu o especialista.

Apesar dos resultados, Krogan alerta que as descobertas são preliminares e não foram testadas em pessoas. “Ninguém deve sair e comprar esses medicamentos. Mas os resultados são interessantes por duas razões. Não apenas encontramos medicamentos individuais que parecem promissores para combater o coronavírus ou podem tornar as pessoas mais suscetíveis a ele; sabemos, no nível celular, por que isso está acontecendo.”, ressaltou o autor. O próximo passo é testar esses medicamentos em testes em humanos.

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