12 entidades médicas nacionais e internacionais cobram proibição de implantes hormonais manipulados no Brasil
Em carta divulgada nesta quinta-feira, 1, signatários manifestam "grande preocupação" com o uso indevido de implantes hormonais manipulados na menopausa
Doze entidades médicas nacionais e internacionais, incluindo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Internacional da Menopausa (IMS), divulgaram um posicionamento conjunto solicitando a proibição dos implantes hormonais manipulados no Brasil. O documento foi compartilhado nesta quinta-feira, 1.
Na carta, os signatários manifestam “grande preocupação com o uso de implantes hormonais manipulados no Brasil, especialmente em mulheres no climatério e na menopausa“. O grupo solicita à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) medidas contra a manipulação, comercialização, publicidade e uso desses produtos, além de reforço na fiscalização.
“Implantes manipulados contendo testosterona, gestrinona, estradiol e/ou outras substâncias vêm sendo oferecidos para sintomas da menopausa, outras condições ginecológicas, disfunção sexual, emagrecimento, ganho de massa muscular, disposição, desempenho físico e antienvelhecimento”, adverte o documento.
“Para essas finalidades, não existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados ou dados de segurança que respaldem sua utilização”, acrescenta.
Os signatários apontam que a terapia hormonal da menopausa, quando corretamente indicada, é “um tratamento legítimo, eficaz e respaldado por sólida evidência científica”, que pode melhorar a saúde e a qualidade de vida das mulheres nesta fase da vida.
As entidades afirmam que a carta não se opõe à terapia hormonal e destacam a existência de formulações registradas, estudadas, ajustáveis e monitoráveis capazes de atender com segurança as indicações hormonais na menopausa e fora dela, incluindo na endometriose e outras condições.
No entanto, não se pode afirmar o mesmo sobre formulações manipuladas de implantes hormonais, isoladas ou em combinações não estudadas, sem avaliação adequada de eficácia e segurança, diz a carta. O posicionamento alerta ainda para um termo que estaria sendo associado a esses produtos como estratégia de marketing: “bioidêntico”.
“Esses produtos não são equivalentes a medicamentos registrados e não foram submetidos ao conjunto de estudos exigidos para demonstrar uniformidade entre lotes, estabilidade, esterilidade, pureza, biodisponibilidade, velocidade e duração da liberação hormonal, relação entre dose
implantada e dose efetivamente absorvida ou segurança a longo prazo. A denominação “bioidêntico”, parte de uma estratégia de marketing, não representa garantia de eficácia, qualidade farmacêutica ou menor risco”, afirma.
Riscos à saúde
A carta diz que o atendimento de pacientes com efeitos adversos do mau uso de hormônios, em especial em implantes manipulados,
“se tornou rotina diária nos consultórios médicos”.
Em mulheres na menopausa, acrescenta o documento, permanecem sem resposta questões fundamentais sobre proteção endometrial e mamária, risco cardiovascular e hepático, tromboembolismo, acidente vascular cerebral (AVC), metabolismo lipídico, câncer e segurança após exposições repetidas.
Outra preocupação é o fato de esses hormônios serem implantáveis, uma vez que, após a inserção, a exposição hormonal pode persistir durante meses.
“Diante de concentrações supra fisiológicas e irregulares ou eventos adversos, não é possível reduzir prontamente a dose ou interromper a administração, como ocorre com outras formulações”, afirmam os signatários.
A retirada também pode ser difícil ou incompleta, especialmente no caso de pellets bioabsorvíveis, pequenos dispositivos implantados sob a pele para liberar medicamentos de forma contínua.
Implantes hormonais viraram mercado
Na carta, as entidades alertam ainda para o uso comercial dos hormônios manipulados, com produção em escala, manutenção de estoques, padronização comercial de protocolos, recrutamento e treinamento de prescritores e promoção direta ou indireta ao público nas redes sociais.
“A manipulação deve atender a uma necessidade individual não contemplada por medicamento disponível; não pode servir à criação de linhas comerciais, à indução de demanda ou à publicidade desses implantes”, afirma.
Testosterona e gestrinona
O documento esclarece que a única indicação de testosterona em mulheres respaldada por consensos internacionais é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa. Além disso, a paciente deve ser devidamente acompanhada e as doses precisam respeitar concentrações na faixa fisiológica feminina.
Implantes, injeções e preparações que produzam níveis supra fisiológicos não são recomendados. “Não há evidência científica para seu uso com o objetivo de promover emagrecimento, ganho muscular, melhora cognitiva, aumento de energia, prevenção cardiovascular ou longevidade”, acrescenta.
No caso da gestrinona, a carta alerta que o esteroide sintético não possui indicação cientificamente estabelecida para terapia da menopausa, reposição hormonal, melhora metabólica ou antienvelhecimento.
Seus efeitos adversos incluem acne, crescimento excessivo de pelos, alopecia, alterações da voz, aumento atípico do litóris e modificações metabólicas, algumas potencialmente persistentes.
“Outros produtos farmacêuticos aplicados em implantes, como metformina, ocitocina, tadalafina, oxandrolona e/ou NAD, carecem totalmente de respaldo ético ou científico para sua utilização”, alertam as entidades.
O documento foi escrito por ocasião do 20º Congresso Mundial de Menopausa, que ocorre entre 30 de setembro e 3 de outubro, no Rio de Janeiro.
“Diante desse cenário, as sociedades signatárias solicitam à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com a participação do Ministério da Saúde, do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Medicina e Farmácia, do Ministério Público, das Defensorias Públicas, dos órgãos de defesa do consumidor e do Poder Legislativo, a adoção das medidas necessárias para proibir a manipulação, a formação de estoques, a comercialização, a distribuição, a publicidade e o uso de implantes hormonais manipulados no país. Solicitam, igualmente, o fortalecimento da fiscalização, da farmacovigilância, da notificação obrigatória de eventos adversos e da responsabilização das cadeias comerciais envolvidas”, conclui o documento.







