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“Vencer a barreira da intolerância é o desafio da questão negra”

Lázaro Ramos revela que, antes de narrar sua vida em um livro de memórias, precisou superar o medo da incompreensão — e o próprio pessimismo

Por Lázaro Ramos 17 nov 2017, 06h00
//VEJA

“Como figura pública, sempre busquei um discurso positivo. Minha vida tem caminhado bem. E sei que é importante para as pessoas, sobretudo para quem comunga comigo a origem e a pele negra, ter estímulo de alguém que superou dificuldades e se tornou conhecido. Mas, secretamente, confesso que sou um pessimista. Muitas vezes, faço as coisas porque sinto que tenho uma obrigação, não posso ficar parado. Essa visão mudou quando venci o medo de escrever um livro para me abrir sobre minha vida e meus demônios.

Quem vê o sucesso do Na Minha Pele não imagina como foi difícil pôr aquelas experiências no papel. Levei dez anos para escrevê-lo. Primeiro, produzi análises desesperançadas sobre os negros no Brasil. Depois, abandonei essa linha e fui achando minha voz ao me deixar guiar pela emoção.

Ainda assim, tinha medo de soar ingênuo e ser mal compreendido. Vivemos uma época em que todo mundo tem certezas e opiniões definitivas. Quando você fala da questão negra, é comum tentarem desqualificar sua posição. Dizem que você está reclamando de barriga cheia, que é tudo mimimi. Julgar o tamanho da dor do outro é um perigo, meu amigo. Tem muitas dores alheias de que eu me considero apenas mero espectador, não sei nem o que falar a respeito. Por que há tanto prejulgamento quando se fala do trajeto
dos negros no nosso país?

A gente precisa amadurecer enquanto sociedade para aprender a dialogar sobre isso. Vencer a barreira da intolerância é o desafio da questão negra hoje. Não sejamos hipócritas: o Brasil é um lugar cheio de preconceitos e silenciamentos. Toda vez que se começa a falar seriamente de questões fundamentais da nossa população negra, alguns querem encerrar logo o assunto. Tenho noção de que mexi num tabu. O livro expôs coisas dolorosas da minha vivência que se assemelham à história de outras pessoas.

Quando fui me abrindo, surgiu uma voz que nem eu conhecia. E essa voz, a princípio, me deu medo. Três meses antes de lançar o livro, pensei em desistir. Num momento de tanta falta de diálogo, achei que um discurso sobre afeto e esperança não seria bem recebido. Mas aí veio o milagre: de jovens negros militantes ao executivo branco de uma multinacional, o livro conseguiu despertar identificação, solidariedade e respeito. Muitos me provocaram para ações práticas. Um advogado branco quis saber como contratar advogados negros no escritório dele. E o livro tem sido inspirador para muitos jovens negros. Essas reações talvez tenham mexido com o eterno pessimista que eu sou.”

Depoimento a Marcelo Marthe

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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