Clique e assine a partir de 9,90/mês

Vamos chacoalhaaaar!

É preciso que o Brasil enxergue com clareza o grave problema da exploração sexual de crianças e adolescentes no país. Enxergando-o, não há como se omitir

Por Elie Horn* - 17 ago 2018, 07h00

Vou começar este artigo com uma pergunta que, acredito, todos deveriam fazer-se: o que eu quero que esteja escrito na minha lápide? Para quem crê em Deus, na alma e acredita que o que fazemos nesta vida é o que determinará como será a próxima, essa pergunta é fundamental. Mas, mesmo para quem não é crente, ela é muito importante, pois fala de qual marca queremos deixar nesta vida e de como queremos ser lembrados.

Muitas pessoas acham que basta não fazer o mal que sua missão está cumprida. Não há como acreditar nisso. Não estamos todos juntos neste planeta simplesmente para não fazer mal uns aos outros (isso já seria algo muito bom, é claro), mas para fazermos o bem uns aos outros. Todos temos essa obrigação, mas com certeza as condições e capacidades para isso mudam. Por exemplo, quem tem muito dinheiro, muito mais do que o suficiente para viver bem, o que faz? Guarda? Poupar é importante, para garantir um futuro mais tranquilo, mas será que é mesmo necessário deixar grandes somas aos herdeiros? Há problemas tão graves no mundo, tanta gente precisando de socorro, e um monte de dinheiro, que poderia ajudar tanta gente, guardado…

Outra coisa que as pessoas pensam é que, quando doamos, estamos fazendo bem aos outros. É verdade, mas estamos, mais que tudo, fazendo bem a nós mesmos. Se acreditamos que há vida depois da morte, sabemos que, praticando o bem, vamos ter uma vida boa lá do outro lado. Se não acreditamos em outra vida, vale a mesma afirmação, porque, quando fazemos bem aos outros aqui, tornamos este mundo um lugar melhor para nós, nossos filhos e netos. Quando fazemos da doação uma prática e damos esse exemplo a nossos filhos (que certamente farão o mesmo), ajudamos a circular uma energia melhor no mundo, uma energia de amor e de solidariedade.

Comprometi a maior parte de meus pertences para apoiar causas sociais. Fiz isso com total apoio de minha família, que entende a importância desse gesto, e influenciado pelo meu pai, que doou todo o seu patrimônio quando morreu.

Continua após a publicidade

Entre as causas que procuramos fortalecer hoje está o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Apoiamos um instituto, o Liberta, que tem como missão conscientizar a sociedade dessa triste realidade e gerar uma indignação capaz de “desnaturalizar” esse comportamento e mudar uma cultura permissiva em relação ao problema.

Pelas últimas estimativas, cerca de 500 000 meninas e meninos são explorados sexualmente todos os anos, o que faz do Brasil o segundo país com os piores índices de prostituição infantil. A maioria das vítimas tem entre 7 e 14 anos. O problema da exploração sexual de crianças e adolescentes existe no mundo todo, mas nos países cuja população é mais vulnerável esse quadro se agrava, e muito.

Um quadro que começa com a cultura do abuso sexual. É assustador pensar que, em pleno século XXI, homens (pais, padrastos, tios, avôs etc.) se julgam no direito de utilizar-se do corpo de crianças e jovens que estão, de alguma forma, sob o seu domínio. Tratam meninas como objetos, cuja propriedade lhes pertence. Muitos desses homens nem compreendem a gravidade de seus atos, porque viram acontecer isso desde sempre e não se enxergam como os criminosos que são. É o que chamamos de cultura do abuso, na qual são comuns frases como: “Quem planta a bananeira tem o direito de comer o primeiro fruto” ou “Eu que fiz, vão usar, tenho o direito de usar primeiro”.

A exploração sexual é uma questão diferente do abuso, apesar de os dois estarem totalmente conectados. Enquanto o abuso se dá normalmente nos espaços familiares, nos quais as crianças deveriam estar protegidas, a exploração sexual é uma questão mercantil, pois as vítimas recebem dinheiro ou qualquer outro produto em troca de sexo.

Continua após a publicidade

São diversas as facetas da exploração sexual, desde o tráfico de pessoas até a venda de filhos pelas famílias e a “pseudoescolha” desse caminho pelas vítimas.

O abuso é um assunto gravíssimo que merece muita atenção, mas a exploração sexual também. Digo isso porque parece que boa parte da sociedade enxerga a exploração como um crime menor, menos grave. Pesquisa feita pelo instituto Datafolha revela que a maioria das pessoas sabe que pagar para fazer sexo com uma criança ou adolescente é crime. No entanto, quando questionadas se denunciaram algum caso do qual tiveram ciência, a resposta é negativa. Cerca de 24% dos entrevistados declararam já ter visto uma situação de exploração sexual infantil. Desses, 72% afirmaram não ter feito denúncia.

“Comprometi a maior parte dos meus pertences para apoiar causas sociais. Tive total apoio da minha família”

Não podemos fechar os olhos a esse crime, pois as consequências são terríveis. Primeiro, porque são crianças e adolescentes “escravos” de uma situação, ainda que às vezes acreditem que seja uma escolha. Trata-se, sem dúvida, de uma grande violação dos direitos humanos, tanto que a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência da Organização das Nações Unidas, classifica a prostituição infantil como o pior tipo de trabalho infantil. Em segundo lugar, porque o custo social de negligenciarmos essa questão é absurdo. São meninas que saem da escola, envolvem-se com álcool e drogas, adquirem doenças sexualmente transmissíveis e têm filhos muito cedo. Filhos que não terão condições de cuidar e que acabarão no colo do Estado, seja nos abrigos, nas instituições correcionais ou nas prisões. Portanto, é um ciclo perverso de miséria que não se rompe.

Acreditamos que a educação tem um papel fundamental no processo de transformação dessa realidade. Crianças e adolescentes precisam encontrar na escola um ambiente em que possam falar e pedir socorro, e os professores devem estar preparados para ajudá-los.

Continua após a publicidade

Enfim, o Instituto Liberta tem como missão discutir essa indignidade à qual milhares de crianças e adolescentes estão submetidos cotidianamente. Queremos CHACOALHAAAR a nós e aos outros para sairmos dessa situação de indiferença. Temos de insistir no assunto para que todos enxerguem com a clareza necessária. Assim, não há como se omitir. Como ficar tranquilo quando meninas, iguais às suas filhas e netas, estão servindo de “escravas sexuais”? Sabendo disso, nós nos vemos na obrigação de agir, e queremos alertar a todos para que também se sintam obrigados a tomar uma atitude. Aí, voltamos à questão inicial: o que você quer que esteja escrito na sua lápide?

* Elie Horn é empresário e fundador da Cyrela e do Instituto Liberta

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

Publicidade