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Vai ser uma explosão

O desmonte e a prisão da rede de doleiros que atuam no Brasil podem produzir resultados mais devastadores que os da Lava-Jato

Responsável pela investigação do maior escândalo de corrupção já descoberto no Brasil, a Lava-Jato ganhou impulso graças ao acordo de delação premiada do doleiro Alberto Youssef. Operador do PP e peixe miúdo no oceano de mercadores de dólares no país, ele expôs as entranhas da roubalheira na Petrobras e as relações promíscuas entre empreiteiras e partidos e implicou no esquema dois ex-­pre­sidentes: Lula e Dilma Rousseff. Se as revelações de Youssef provocaram tamanho estrago, é fácil imaginar a repercussão da prisão de 33 doleiros pela Polícia Federal, na quinta-feira 3, na Operação Câmbio, Desligo. Como entre os encarcerados estão doleiros que tinham clientes mais poderosos e movimentavam valores maiores do que os de Youssef, as autoridades apostam que a investigação revelará um esquema capaz de fazer o petrolão virar um caso de Juizado de Pequenas Causas. “Se pensarmos que a Lava-Jato começou com um doleiro, podemos imaginar o potencial dessa operação. O potencial é explosivo”, disse o procurador Eduardo El Hage, coordenador da Lava-Jato no Rio.

A Operação Câmbio, Desligo ganhou as ruas depois da delação premiada de dois doleiros, Vinicius Claret e Cláudio Souza, que confessaram ter enviado ao exterior 318 milhões de reais em propina paga ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral, preso desde 2016. Os dois delatores entregaram ao Ministério Público e à Polícia Federal planilhas com os nomes de doleiros, seus apelidos, seus clientes e os valores das operações. Nesses papéis, que desnudam apenas parte do esquema, há o registro da movimentação de 5,8 bilhões de reais, nos últimos seis anos, em transações ilegais. Os doleiros teriam atuado em 52 países. O material em posse das autoridades pode não apenas revelar esquemas desconhecidos como reabrir a apuração de outras investigações que, por decisão judicial, não puderam seguir adiante. É o caso da operação conhecida como Castelo de Areia e do escândalo do Banestado, que se tornaram exemplos de como os poderosos conseguiam, até pouco tempo atrás, por meio de recursos e chicanas diversas, manter a impunidade tradicional.

Sob a proteção do anonimato, um dos participantes do esquema disse a VEJA: “Se parte dos 33 doleiros presos abrir a boca, vão emergir os nomes de quase todos os políticos e de uma grande parte do empresariado nacional nessas operações irregulares”. Entre os doleiros presos está Antônio Albernaz, o Tonico, acusado de lavar e movimentar 1 milhão de reais em propina paga pela Odebrecht ao ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Outro encarcerado é Francisco Araújo Costa Júnior, conhecido como Jubra. Ele foi apontado pelo operador Lúcio Bolonha Funaro, em seu acordo de delação premiada, como o entregador de 1,2 milhão de reais a Ged­del Vieira Lima. O ex-ministro de Michel Temer, que guardava 51 milhões de reais em espécie num apartamento, está preso e se tornou réu, na semana passada, no Supremo Tribunal Federal. As duas quantias — supostamente destinadas a Padilha e a Geddel — fazem parte do pacote de 10 milhões de reais que a Odebrecht doou ao MDB, depois de um jantar com o presidente Temer no Palácio do Jaburu, em 2014.

Suprapartidária, a Operação Câmbio, Desligo também assusta o PSDB. O empresário Alexandre Accioly é investigado por manter uma conta no exterior que, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), receberia recursos destinados ao senador Aécio Neves, de quem é amigo. Accioly foi correntista do Banco Evergreen, que era sediado no paraíso fiscal de Antígua e Barbuda e tinha como dono um tal de Dario Messer, que, para os iniciados no submundo do crime, vem a ser “o doleiro dos doleiros”. A VEJA, Accioly admitiu que teve uma conta no banco, mas ressaltou que ela foi devidamente declarada. O empresário também afirmou que jamais operou valores para Aécio Neves.

Além de jogar luz sobre políticos, empresários e celebridades, como jogadores de futebol, a prisão dos doleiros pode abrir uma poderosa frente de investigação no sistema financeiro, principalmente nos Estados Unidos e na Suíça, países que cooperam com a Lava-­Jato. A documentação recolhida pela Polícia Federal mostra que doleiros fizeram transferências de bancos em Nova York, como a agência do Citibank em Wall Street, para o BSI na Suíça usando empresas offshores registradas em nome de laranjas. A polícia ainda não prendeu todos os alvos de mandado de prisão. Dario Messer, o maior dos doleiros, está foragido. Sua prisão é considerada essencial para a investigação. Já a sua eventual colaboração, dizem as autoridades, fará da Câmbio, Desligo a maior operação de combate à corrupção do país. A Lava-Jato, quem diria, pode perder o trono.

Publicado em VEJA de 16 de maio de 2018, edição nº 2582