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Um para cada caso

O gim reaparece nas mãos de magos da coquetelaria, ganha bares especializados e se difunde no Brasil com mais de cinquenta marcas artesanais

Até há pouco tempo, o gim era bebida de velhos e de pinguços. Seu espaço histórico na coquetelaria, refrescantemente casado com a água tônica em um copo com gelo ou elegantemente respingado de vermute na taça de dry martini, havia sido ocupado pela vodca. A indústria de bebidas, mestra em promover a diversidade nos drinques que entram e saem de moda, resolveu tomar providências. Belas copas abobadadas de gim-tônica começaram a aparecer em reportagens e nas redes sociais. Novas receitas surgiram, avalizadas por grandes chefs. Bares de gim pipocaram nos bairros de gente moderna. Foi indo, foi indo e o gim (como, aliás, já havia acontecido com a vodca e, mais recentemente, com a cerveja) de repente virou cool em toda parte, inclusive no Brasil, onde uma ativa produção artesanal vem sendo reconhecida — e bebida — pela qualidade e ineditismo de ingredientes.

O único gim brasileiro até pouco tempo atrás era o octogenário e não muito recomendado Seagers (que olhou em volta e substituiu sua fórmula original por uma versão premium). Agora, são mais de cinquenta marcas artesanais listadas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que deram nova estatura ao consumo de gim no país: em 2017, as vendas subiram 66%, segundo a consultoria Euromonitor International. Criador do Draco, o primeiro rótulo da nova leva, registrado em 2015, Rodrigo Marcusso conta que no início vendia apenas no seu bar, na Zona Oeste de São Paulo. “Aí nosso gim começou a sair mais que os importados e fomos praticamente obrigados a lançá-lo em escala comercial”, diz. Em fevereiro, o Amázzoni, fabricado em uma fazenda em Porto Real, no interior do Rio de Janeiro, alçou a produção nacional ao panteão mundial: ganhou o prêmio de melhor artesanal no World Gin Awards 2018, prestigiada competição organizada pelo site TheDrinksReport.com, normalmente dominada por marcas europeias. Receita do mixologista argentino Tato Giovannoni (inventor do primeiro gim da América Latina, o Príncipe de los Apóstoles), o Amázzoni é hoje exportado para oito países e está prestes a entrar nos Estados Unidos.

Gim é uma bebida simples, que não precisa envelhecer e pode ser feita em qualquer lugar, até em casa. Os artesanais daqui raramente têm destilaria própria — pegam carona no horário ocioso de fabricantes de outras bebidas alcoólicas. A textura e o sabor vêm da infusão de ervas e especiarias na qual só um “botânico”, como se diz, é obrigatório: o zimbro, frutinha originária da Europa semelhante à uva. No Brasil, ele ganha a companhia de ingredientes locais como cumaru, pacová, cipó-­cravo e erva-mate. A onda do gim favoreceu ainda o lançamento de tônicas artesanais — são pelo menos seis marcas brasileiras — e a abertura de casas dedicadas à bebida, como o Garoa Bar Lounge, filial carioca de um bar na Galícia, na Espanha. “Além de ser a base de coquetéis tradicionais, o gim tem enorme versatilidade para a criação de drinques”, afirma o português Domingos Meirelles, do paulis­tano Sóshots & Gin Club.

Nascido na Holanda, o gim é a bebida por excelência na Inglaterra, onde consta que a rainha Elizabeth toma uma dose todo dia. Na Londres vitoriana, chegou a ser problema de saúde pública. Entre 1720 e 1750, em consequência do estímulo do governo a que se trocasse por gim o brandy vindo da França, com quem a Inglaterra estava em guerra, as destilarias se multiplicaram, inclusive as caseiras (calcula-se que era feito em 25% dos lares) e deu-se a chamada gin craze, a mania do gim. No auge, os índices de mortalidade superaram os de natalidade, as taxas de crime subiram e o governo teve de baixar decretos para coibir e até banir as vendas.

O alcoolismo coletivo da Inglaterra é retratado na célebre gravura Gin Lane, de William Hogarth. Exposta na Tate Gallery de Londres, ela mostra um cenário de pesadelo: um homem disputa um osso com um cão, um bebê despenca do colo da mãe, corpos definham pela rua. Felizmente, a gin craze de agora é bem mais amena e logo, logo terá concorrente: o mercado aposta que a próxima bebida com o status de cool será o rum. Bebam, sempre, com moderação.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600