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Um intruso na casa

Livro devastador sobre a mente errática de Trump e as intrigas dentro de sua equipe racha direita radical e levanta uma dúvida cruel: o presidente é insano?

Ao mudar-se para a Casa Branca há um ano, o presidente Donald Trump colocou mais duas televisões de tela plana no seu quarto. Diariamente, depois que se recolhe a seu aposento (desde John Ken­nedy e Jackie, nos anos 1960, esta é a primeira vez que o casal presidencial dorme em quartos separados), Trump devora um cheeseburger na cama e assiste a vários programas nas três telas. “Ele é pós-alfabetizado: total televisão”, escreve Michael Wolff em Fogo e Fúria — Por Dentro da Casa Branca de Trump, cujo lançamento causou um pandemônio na política americana (no Brasil, o livro sai em março).

De acordo com Wolff, o mandatário é avesso à leitura, embora haja certa polêmica sobre isso (alguns dizem que ele lê os títulos das matérias sobre si mesmo e também a seção de fofocas do popularesco New York Post). De resto, o presidente quase não encosta em livros. O ghost-writer de A Arte da Negociação, autobiografia de Trump lançada no fim dos anos 1980, desconfia que o presidente não leu até o fim nem a própria autobiografia. Em geral, quem lhe transmite as notícias da imprensa escrita é a diretora de comunicações e ex-modelo Hope Hicks, que começou na campanha como estagiária. Aos 29 anos, com “um dos melhores traseiros” da nação, segundo definição de Trump, Hope seleciona só notícias boas, para não irritar o chefe.

De Michael Wolff – (Objetiva; 384 páginas; 49,90 reais ou 34,90 em versão digital. Lançamento em 29 de março) (Objetiva/Divulgação)

Logo que chegou às livrarias americanas, há duas semanas, a obra de Wolff suscitou petardos — com fogo e fúria — de Trump. Ele chamou o livro de fake book, e até tentou proibir sua circulação acionando um advogado, atitude raríssima para um presidente dos EUA. Wolff diz que colheu histórias exclusivas de dentro da própria Casa Branca, onde passou dezoito meses conversando com o presidente e membros de seu gabinete. “Assumi um assento semipermanente em um sofá na ala oeste”, escreveu ele, referindo-se ao setor do edifício em que Trump despacha. Wolff, colunista do jornal The Hollywood Reporter, diz ter sido ajudado pelo fato de que, com tantas brigas, não havia ninguém com autoridade para enxotá-lo. Alguns dos que aparecem nas páginas negam ter falado com o escritor e criticam o teor das conversas. Wolff, porém, não impõe uma narrativa única. Ele admite conflitos entre as versões e, às vezes, oferece mais de uma para o mesmo episódio.

Segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, 95% das entrevistas foram feitas a pedido de Steve Bannon, o ideólogo do presidente e da direita radical que exerceu o cargo de estrategista-chefe até agosto. Bannon foi uma das principais fontes de Wolff. Duas informações dadas pelo próprio Bannon foram particularmente perturbadoras para Trump. Uma delas é que Ivanka, filha do presidente, e Jared Kushner, seu genro, temem que as investigações sobre a interferência russa na campanha de 2016 tragam à luz as finanças obscuras da família. “Ivanka está aterrorizada”, diz Bannon, no livro. Outra informação é que as conversas entre Kushner, o filho do presidente Donald Jr. e os diplomatas russos durante a campanha só poderiam ter ocorrido com o conhecimento de Trump. “A chance de Don Jr. não ter levado essas coisas para o escritório de seu pai no 26º andar é zero”, disse Bannon, que considerou a reunião uma “traição” à pátria.

Um troféu de esposa - Melania com o filho Barron: segundo Wolff, Trump raramente sabe o paradeiro da mulher (Al Drago/The New York Times/Fotoarena)

Trump ficou furioso com Bannon. Em uma declaração oficial, afirmou: “Steve Bannon não tem nada comigo ou com a minha Presidência. Quando foi demitido, ele não apenas perdeu o trabalho, perdeu a cabeça”. Diante disso, Bannon tentou adular o presidente — “um patriota e um bom homem” —, mas não negou suas aspas contidas no livro. Estrela do avanço da direita radical nos Estados Unidos, Bannon perdeu seu emprego no Breitbart News, um portal de notícias da direita nacionalista, e começou a ficar isolado entre os radicais que antes o adulavam. Uma das principais financiadoras dessa ala, Rebekah Mercer, cortou ligações com ele.

As descrições que Wolff faz sobre a mente de Trump são devastadoras. Ele não acreditava que seria eleito. Quando soube do resultado, parecia ter visto um fantasma. “Tudo o que ele demonstra saber parece ter sido aprendido uma hora antes”, escreve. Para o autor, Trump não consegue juntar causa e consequência, é incapaz de se concentrar em qualquer coisa e carece de pensamento analítico. Ele se levanta no meio dos encontros com líderes mundiais porque se entedia facilmente e não consegue entender uma apresentação com PowerPoint. Durante a campanha de 2016, um assessor, Sam Nunberg, ficou encarregado de explicar ao político a Constituição americana. “Eu só consegui chegar até a Quarta Emenda, quando o dedo dele começou a bater nos lábios e seus olhos passaram a revirar para trás”, disse Nunberg.

Ignorante em relação aos temas e sem a esperança de aprender sobre eles, Trump se move baseado em sua estupenda autoestima e em seus instintos primários, que aparecem de supetão. Com isso, os que trabalham com ele aprenderam que o melhor é jogar um assunto no ar e esperar Trump pensar que se trata de uma ideia dele próprio. Os mais próximos começaram até a adivinhar quais impulsos poderiam aflorar. “Era como tentar descobrir o que uma criança quer”, diz Katie Walsh, uma ex-assessora, segundo o livro.

O entorno - Michael Flynn, que foi conselheiro, Jared Kushner, Ivanka, Steve Bannon e Reince Priebus (da esq. para a dir.) (Mario Tama/Getty Images)

Outra forma de levar o presidente na conversa é apelar para a emoção. Após o ataque químico ordenado pelo ditador Bashar Assad na cidade síria de Khan Sheikoun, alguns membros da Casa Branca entenderam que era hora de demonstrar um diferencial em relação à passividade do antecessor, Ba­rack Obama, e certa força moral para o resto do mundo. O problema era que o presidente se incomodava até mesmo em ter de pensar no assunto. A filha Ivanka, então, montou uma apresentação com fotos grandes de crianças vítimas do ataque espumando pela boca. Depois de ver as cenas várias vezes, Trump concluiu que se devia fazer algo. Aconselhado pelos militares, ordenou a dois destróieres que disparassem 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea de onde haviam partido os aviões com as substâncias químicas. “Aquela foi boa”, confidenciou Trump a um amigo mais tarde.

Ao reagir à publicação, o presidente lembrou no Twitter que é “empresário muito bem-sucedido” e já foi “estrela de televisão”, além de ter chegado à Casa Branca. Concluiu que, diante de tal currículo, pode ser considerado “um gênio, e um gênio muito estável”. O conteúdo do livro e as reações de Trump reforçaram uma tese apresentada em outubro por 27 psiquiatras e psicólogos. No livro O Perigoso Caso de Donald Trump, eles expressaram preocupação com a sanidade do presidente. Neste ano, aumentaram os pedidos para que seja aplicada a 25ª Emenda, que prevê a formação de um comitê para avaliar a saúde mental do presidente e, caso se comprove sua incapacidade, removê-lo do cargo. Uma proposta para a criação do comitê já recebeu a assinatura de 57 parlamentares.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2017, edição nº 2565

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