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Um futuro onipresente

Com a quarta temporada de 'Black Mirror', o roteirista Charlie Brooker firma-se como o maior oráculo de um futuro que mora logo ali; e quase sempre, assusta

Por Marcelo Marthe Atualizado em 31 jan 2018, 15h15 - Publicado em 29 dez 2017, 06h00

Diante do inglês Charlie Brooker, é de bom-tom não repisar um rótulo muito utilizado para defini-lo: satirista. “Odeio essa palavra”, costuma reclamar o roteirista em entrevistas. Com toda a razão: ainda que tenha ganhado fama pela verve afiada com que cutucava os políticos britânicos em uma extinta coluna no jornal The Guardian, Brooker demonstrou que é muito mais que mero sujeito engraçadinho ao conceber Black Mirror. Lançada em 2011 pelo Channel 4, a série de antologia (como é chamada aquela que tem histórias e personagens diferentes a cada temporada ou episódio) com enredos distópicos virou fenômeno global a partir de sua terceira temporada, quando foi encampada pela Netflix. A quarta, que chega à plataforma de streaming nesta sexta-feira, 29, confirma a condição alcançada por Brooker: o roteirista que enxerga com agudeza como a tecnologia e o comportamento humano se moldarão num futuro que já raiou no horizonte. Para o bem e — na visão sempre eivada de pessimismo e humor negro do autor — principalmente para o mal.

Seriado Black Mirror
Infância chipada - Arkangel: quando a tecnologia amplifica velhas obsessões Christos Kalohoridis/Netflix

A série visionária nasceu da nostalgia: Brooker inspirou-se em Além da Imaginação, produção de mistério e ficção científica dos anos 60 cujas reprises ele devorava nas madrugadas da TV inglesa. Se sua antepassada remota refletia as angústias da Guerra Fria, Black Mirror redobra a aposta nas correspondências com a realidade: ao falar do futuro, faz um ensurdecedor comentário sobre o presente — talvez daí venha seu principal trunfo para ganhar o espectador contemporâneo. Na primeira temporada, um primeiro-ministro inglês era obrigado a praticar um ato sexual aviltante em cadeia nacional de TV para atender ao sequestrador de uma princesa, trazendo à luz um debate momentoso sobre a responsabilidade do espectador. Em Nosedive, que abre a terceira temporada, há uma crítica não menos atual às redes sociais: a trama fala de uma sociedade em que o sucesso e a própria identidade das pessoas são medidos em função dos likes que elas alcançam em seus perfis.

  • Dirigido por Jodie Foster, o episódio inicial da nova temporada, Arkangel, prossegue na exploração de possibilidades que a tecnologia potencialmente poderá oferecer logo mais. Assustada por perder a filha pequena na rua durante um passeio, uma mãe recorre a uma nova (e, por ora, fictícia) forma de babá eletrônica: um chip implantado na cabeça da criança lhe permite monitorar não só a localização da filha, mas até o que ela pode ver. Óbvio que a ferramenta se torna uma muleta não só enganosa como perigosa, capaz de minar o relacionamento de mãe e filha.

    Seriado Black Mirror
    Romance moderno – O episódio Hang the DJ: a crença nos sites de relacionamento levada ao paroxismo Jonathan Prime/Netflix

    Desse desdobramento tumultuado, Brooker extrai uma conclusão irretocável: a tecnologia pode evoluir e melhorar a vida, mas a natureza do homem não muda — em boa medida, seus defeitos e fraquezas podem inclusive ser amplificados de forma exponencial por ela. O segundo episódio da temporada, USS Callister, reforça a tese. A nave homônima conduz pelo espaço um grupo de personagens com visual retrô-futurista claramente decalcado em um dinossauro televisivo, Star Trek. Ao exibir tipos como uma femme fatale alienígena de pele azul e um vilão interestelar caolho e cabeludão, a coisa toda provoca, de início, uma incontível vontade de rir. Mas, sob o véu paródico, há um tema nada ameno: o capitão Daley (Jesse Plemons), equivalente no pedaço ao galã Kirk da série dos anos 60, comanda a nave como um ditador que não hesita em empregar a tortura (psicológica e física) para oprimir seus subordinados. Quando se corta desse universo vintage para o plano temporal no qual a história de fato se desenrola, descobre-se que a sátira a Star Trek é uma fantasia dentro de outra. Num futuro bem próximo, o mesmo intérprete do capitão Daley é o nerd tímido que criou um jogo de realidade virtual em que, por meio de um dispositivo que se gruda numa das têmporas, o usuário conecta seu corpo e sua mente ao cenário de fantasia espacial. Valendo-se de ferramentas high-tech típicas da inventividade de Brooker, Daley transforma os colegas que supostamente o maltratam dentro da firma desenvolvedora do jogo nos personagens que ele passa a aterrorizar — um círculo de horror que só vai se romper com a chegada de uma nova funcionária ao escritório.

    Charlie Brooker
    Dr. Fantástico – Brooker: a tecnologia faz o homem, e vice-versa Andrew H. Walker/Variety/REX/Shutterstock

    Black Mirror, no fundo, usa a especulação futurista para produzir pílulas morais modernas. Sites de relacionamento seriam mais eficazes para unir duas pessoas que as idas e vindas da própria vida? Quais as consequências de substituir cães de carne e osso por robôs com inteligência artificial? Tornar as pessoas imortais transportando sua consciência para hologramas seria uma libertação ou uma prisão eterna? Mitos antigos como o de Ícaro nos lembram como o homem se perde ao voar perto do Sol quando equipado com asas (hoje seriam apps) extraordinárias. Em Black Mirror, Brooker reafirma essa verdade. Curiosamente, ele mesmo se vê às voltas com agruras como as de seus personagens: anônimos obsessivos o caçam nas redes sociais para sugerir temas para a série. “Sou alertado para qualquer coisa horrível que esteja acontecendo”, declarou recentemente. “Não consigo escapar do mundo.”

    Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

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